terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

BOSSA NOVA EM FOCO

Da personificação do anseio


“Uma busca constante que nunca encontra de fato o que procura, porque o único e verdadeiro anseio é aquele que ecoa eternamente no espaço infinito” (Marc Fischer)


Um artista cuja genialidade modificou a forma de cantar e tocar violão, mas que comumente incompreendido, escolheu viver longe de tudo o que o aborrece. E isso incluiu modificar a rotina de quem o ama/admira sua obra, ainda que não compreenda seu comportamento recluso. Inclui também restringir o acesso a ele, seja para quem for: fãs, jornalistas, curiosos, conhecidos, velhos amigos...

Um jornalista alemão admirador da música brasileira intrigado com o personagem acima decide partir em busca do que considera o “coração da beleza”: a batida inconfundível do violão marca da bossa nova.

O anseio pelo encontro entre o músico brasileiro João Gilberto e o jornalista alemão Marc Fischer dá o tom a “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” (Companhia das Letras, 2011), livro em que Fischer, na qualidade de admirador incontestável da obra de João, narra as peripécias que empreende no encalço do bossa-novista pelo Rio de Janeiro.

O livro de Fischer escapa completamente ao óbvio livro-reportagem que busca através de entrevistas com músicos e amigos próximos de um ícone da música, com quem não se consegue contato, construir seu perfil. O autor usa sim este artifício, mas com uma narrativa carregada de emoção, motivação pessoal e reflexões que enriquecem a busca por João e conferem sentido ao fato de um alemão sair de Berlim acompanhado de um violão centenário somente pelo desejo de ouvir o artista que mais admira cantar uma única música para ele.

Uma vez acomodado em Copacabana, no Rio, o alemão se une à uma brasileira que identifica como Watson, numa brincadeira de detetive onde os dois caçarão informações sobre como se aproximar de João sem lhe parecer invasivo, ou ainda: como convencer João a recebê-lo não para uma entrevista a um jornalista estrangeiro, mas para uma visita de um grande admirador que entende seu desejo de isolamento e anseia ouvi-lo em sua performance mais madura e natural.

Ao longo de sua estadia no Brasil, Fischer refaz os passos do João jovem através das informações que obtém nas conversas com pessoas relacionadas à história da Bossa Nova. Músicos, familiares, amigos, conhecidos. Todas as pessoas que se encontram com Marc para conversas descontraídas fornecem suas impressões do músico com base na relação que mantém ou mantiveram com João. O resultado que vai se formando a cada página é um mosaico de informações que constroem um perfil ora fantasioso ora bastante humano do mítico João Gilberto. Para alguns, trata-se de um sujeito pouco respeitoso com os violões pegos emprestados e nunca devolvidos e as canções que depois de cantadas por João, deixam de pertencer aos donos originais tal a singularidade de uma interpretação joão-gilbertiana. Há quem o ache excêntrico por dormir durante o dia, quase não sair de casa e se ocupar de tocar violão por horas a fio ou telefonar inesperadamente para as pessoas. Para outros, no entanto, trata-se de “um homem suave, amoroso e interessado”, como para o cozinheiro Garrincha que durante cinco anos atendeu João por telefone todas as noites, quando o músico esticava a conversa por cerca de 40 minutos e sempre acabava pedindo o mesmo prato. Garrincha declara ainda que João Gilberto é “o melhor amigo virtual que já tive”, lembrando que nunca esteve pessoalmente com o músico.

Mas por que tudo isso é necessário? Por que Fischer não se contenta em assistir a um show ou ouvir a discografia de João? Porque o artista em questão não é exatamente um astro da música comum, se é que se pode colocar a situação nesses termos. João Gilberto Prado Pereira de Oliveira é um baiano de Juazeiro que ganhou o mundo cantando baixinho e tocando um violão cuja batida modificou muito do que se pretendia à época (déc. 1950) com o instrumento. Fruto de um perfeccionismo que para muitos beira a excentricidade, enquanto outros entendem como uma busca inesgotável por um som límpido e novo, os resultados de João ao violão são lenda por todo o mundo. Tanto quanto suas aparições públicas, raríssimas. Show então, já não faz com frequência, tendo o último acontecido em 2008 - a turnê em comemoração aos seus 80 anos somente foi anunciada após o lançamento de “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” tendo o agravante de que Marc Fischer faleceu em abril de 2011, antes mesmo de ver seu livro ser lançado.

Considerando esse cenário, há todo um imaginário que circunda a vida de João Gilberto e intriga Marc Fischer. E o diferencial do livro está justamente na forma como autor se põe a escrevê-lo. Não se trata de uma biografia convencional, mas sim uma grande reportagem repleta de referências pinçadas da cultura mundial – o autor cita constantemente discos, filmes e livros e faz associações com a cultura de seu país - tudo cuidadosamente colocado no texto por Fischer para aproximar o leitor de seus pensamentos e intenções com a busca por João. Em outras palavras: Fischer nos confessa que anseia mostrar a João que o entende e respeita enquanto ser humano e artista incomparável, ainda que o perfil construído pelas investigações leve o autor a brincar com a ideia de que seu personagem é na verdade um vampiro inalcançável. Um vampiro que também tem anseios, tão grandes, profundos e incompreensíveis aos meros mortais, que o levaram ao abismo do isolamento social.

“Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” talvez não pareça um livro sensacional à primeira leitura, primeiro porque o início do livro incomoda um pouco por conter trechos que quase sempre endeusam João Gilberto; segundo porque “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” não se firma como um clássico fundamental para compreender finalmente o pai da Bossa Nova, pois apesar de todas as entrevistas e informações ligadas a vida pessoal de João Gilberto, é bastante provável que o leitor passe todo o livro mudando de humor tal qual o autor, bastante honesto, inclusive, em relatar seu emocional a cada passo dado – esteja intrigado, confuso, eufórico ou decepcionado. Se o leitor traz, então, como referência “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1990), quando Ruy Castro destrincha deliciosamente a história e as histórias da bossa nova com faro jornalístico, pode crer que Fischer merece entrar para a estante de livros sobre bossa nova mais pela abordagem completamente original do que pelas informações que expõe.

Assim, desde já é bom alertar: “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” não merece uma leitura racional que busque grandes novidades ou respostas para a legião de intrigados com o comportamento de João, pois o mérito no empenho de Marc Fischer
sem dúvida é a capacidade de seu texto negar o jornalismo frio no cruzamento de informações que gerem compreensão sobre fatos, principalmente porque todo o livro é um relato apaixonado e sincero que comprova que o jornalismo literário é um caminho honesto para todo repórter que assume ter coração. E Fischer foi desses que não se contentou em somente sentir pulsar o próprio coração ao som de bons discos, cruzou oceano em busca de fazê-lo bater no ritmo – quem sabe ao vivo - daquilo que considerava mais bonito.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CINEMA EM FOCO

"Melancolia", o filme: quando a lucidez fica insuportável

Quando um filme ou uma peça de teatro conseguem mexer com o estado de espírito do espectador, é curioso constatar como a arte tem um poder incrível de construção de conhecimento e por incrível que pareça, choque de realidade.

O longa-metragem “Melancolia” do diretor dinamarquês Lars Von Trier é um filme instigante, que já bastante comentado pela crítica desperta curiosidade pela repercussão – das polêmicas que envolvem a obra e as declarações públicas do diretor até as premiações que tem conquistado desde seu lançamento em 2011.

Acontece, porém, que o filme somente chegou a São Luís no início deste ano, graças a Lume Filmes – administradora do Cine Praia Grande – cujo esforço crescente em exibir uma boa safra de filmes que dificilmente entrariam em exibição no circuito comercial, pelo menos nos dois grandes cinemas da cidade, é visível e louvável.

Quando pude finalmente assistir, já tinha inúmeros comentários sobre a película em mente, uma vez que já havia lido toda a sorte de críticas e notícias sobre a produção. Contudo, por mais que tenhamos de reconhecer que isso atrapalha um pouco porque cria antecipadamente um conceito sobre a história, é interessante constatar que “Melancolia” é o tipo de filme cujo desenrolar atinge individualmente cada sujeito na plateia, daí que qualquer comentário que se traga de casa, fica suscetível à desconstrução durante a projeção do longa.

Diante desse contexto, concordo que se trata sim de um grande filme que deixa mesmo uma sensação de moleza – e por que não dizer melancolia? - ao término da exibição, o que a princípio, me deixou em dúvida sobre o que pensar a respeito do filme. Ainda que tenha assistido ciente do final, não pude deixar de questionar alguns exageros em alguns comentários já feitos e refletir sobre a forma como o roteiro foi construído e as personagens apresentadas.

Lançando sutilmente a eminência de que o mundo vai acabar ao se colidir com o planeta que dá nome ao filme, a história segue centrada numa teia de complexas reações humanas que ganham muito mais verossimilhança com a sociedade existente para além do cinema do que qualquer filme apocalíptico cujo fim venha da autodestruição do planeta ou de alguma invasão alienígena.

O contraponto criado entre as personagens principais, as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), diante do fim do mundo, expõe aspectos incrivelmente previsíveis existentes na vida em sociedade construída sob o frágil alicerce das convenções sociais. Enquanto Justine não consegue lidar com as pressões, alternando momentos de insuportável lucidez com profunda melancolia e se reconforta que em breve tudo vá pelos ares, Claire, que construiu grande patrimônio, entra em desespero com a possibilidade de ter se esforçado em vão.

O que mais me chamou atenção no filme foi que com esse contraponto criado entre irmãs fica ainda mais interessante perceber como a ordem social alcança diferentemente cada indivíduo. Enquanto Claire está perfeitamente integrada às convenções, com um casamento financeiramente bem-sucedido e uma tensão evidente para que tudo saia de acordo com o planejado, Justine se sente sufocada com as expectativas que as pessoas próximas criam em torno dela, da reconhecida competência profissional à necessidade de corresponder ao casamento, compartilhando sentido com o marido e sorrindo a todos sua obrigatória eterna felicidade.

Ao mesmo tempo em que o comportamento de Justine gera estranhamento por parecer loucura, a personagem alterna a melancolia profunda com um senso de realidade muito aguçado. E é nesse contexto que o filme começa a passear por uma sequência de rupturas que a personagem de Kirsten Dunst empreende, com comportamentos que vão desde o isolamento e desejo de fuga até o enfrentamento daquilo que a atormenta, como na excelente cena em que finalmente diz ao patrão tudo o que realmente pensa dele e se demite durante o casamento, instantes depois do anúncio público de sua promoção durante a cerimônia.

O que mais instiga em “Melancolia” é que não fica claro se o comportamento instável da personagem seria algum efeito causado pela aproximação do planeta Melancolia ou uma reação possível de quem está cansado de ser pressionado por uma sociedade hipócrita e superficial. Afinal quantos de nós não buscam se desvincular de amarras sociais sufocantes ao mesmo tempo em que almejam uma vida confortável e mentalmente equilibrada?

Quando a luz da projeção se apaga e a vida volta a ofuscar nosso estado de contemplação, percebemos que o desafio da vida real está em conciliar acertadamente a vida social com nossas capacidades e limitações, objetivos e anseios mais íntimos. As opções que sobram não são animadoras: entregar-se à melancolia ou se esforçar em vão. E quem quer mesmo ficar com um desses contrapontos? Sempre cabe tornar a refletir sobre o equilíbrio necessário. Até porque até onde fomos informados, o mundo ainda não vai acabar de uma só vez para todos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

I FESTIVAL DE MÚSICA BARROCA DE ALCÂNTARA EM FOCO

Em 2011, São Luís recebeu muitos eventos culturais com direito a festivais e shows de artistas que ou não costumavam incluir o estado em suas turnês ou há muito não nos visitavam. Houve música para todos os gostos em eventos de variadas proporções.

Com base nas experiências vividas durante esse ano, urge que todos nós - público, artistas e produções - pensemos sobre as condições que não só São Luís, mas outras cidades maranhenses, oferecem para a realização de eventos – da logística à qualificação de pessoal. Para que o estado finalmente consolide uma vida cultural – da qual tem fome - respeitando artistas e públicos e entre em definitivo no circuito que produz, expõe, atrai e exporta arte e conhecimento.

Neste contexto, Ensaios em Foco publica abaixo uma carta aberta divulgada por Saulo Galtri, jornalista e estudante de Canto Erudito na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa, em que relata sua experiência com o I Festival de Música Barroca de Alcântara e levanta questões importantes que não devem ser deixadas de lado ao fim de cada evento.

Porque arte é estado de espírito e respeito é fundamental.


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São Luís, 04 de dezembro de 2011

A cidade de Alcântara recebe até segunda-feira (5), o I Festival de Música Barroca realizado pela empresa de consultoria cultural Equinox do Brasil por meio de recursos oriundos de apoiadores e grandes patrocinadores como o Banco do Nordeste e a Petrobrás. Foram convocados 30 artistas e músicos do Brasil e do exterior para fazer 14 apresentações e realizar ações didáticas durante o evento. Além da cidade histórica que batiza o evento, a igreja Imaculada Conceição em Bacabeira e a Catedral da Sé em São Luís foram escolhidas para abrir e encerrar as atividades do evento respectivamente.

Olhos afoitos, expectativa e curiosidade foram o que se viu expresso no rosto da população carente de Alcântara que por um curto espaço de tempo se viu menos distante pela baía que a separa de São Luís. Estou longe de querer fazer aqui um discurso assistencialista, mas naquele dia uma janela no tempo se abria pra um público que é rico de história, mas pobre de oportunidades como em muitos outros lugares do Maranhão. Porém embora eu tenha citado o aspecto positivo acima, o I Festival de Música Barroca de Alcântara me remeteu a muitas reflexões sobre gestão cultural.

A Equinox do Brasil atua com a promoção de algumas cidades históricas brasileiras estabelecendo roteiros de eventos musicais, atividades audiovisuais além do turismo histórico. Com o I Festival de Música Barroca de Alcântara, a empresa pretende inserir a cidade em sua vitrine de destinos culturais, entretanto, é necessário que exista a construção de uma estrutura organizacional local para a realização de um evento desta proporção.

Uma cidade que pretende se tornar roteiro cultural deve oferecer ao público que vai prestigiar um evento, bons serviços em hotelaria, gastronomia e todo tipo de serviço que envolve este tipo de atividade, ou seja, devem existir qualificação e capacitação profissional para garantir o sucesso do evento que pretende ser realizado.

Além de todos os requisitos elencados acima, faz-se necessário recrutar para a organização de um festival de música, uma equipe de produção (staff) que tenha conhecimento sobre música, para que enfim se possa ter uma linha de trabalho que vá garantir a integridade de instrumentos e principalmente dos músicos.

Como integrante de um grupo participante do festival tive que solicitar e enfatizar em vários momentos questões que já haviam sido asseguradas pela organização: horário para transporte, alimentação e hospedagem; durante todo o meu tempo de contato com a produção eu só enxergava dificuldades impostas pela organização. Cheguei ao cúmulo de ouvir que a água da hospedaria era de uso exclusivo dos hóspedes e que não era recomendado que nós, após uma manhã inteira de viagem, tomássemos banho.

Grupos masculino e feminino separados em quartos diferentes, era hora de se aprontar para a primeira apresentação. Chegando ao recinto percebo que já havia outra pessoa ocupando o espaço por conta da presença de vestidos e malas por todo canto. Iniciava então mais uma sessão de constrangimento: como lidar com um ambiente cheio de pertences alheios? Quem se responsabilizaria caso houvesse o sumiço de algum pertence do hóspede? A produção evidentemente despreparada, não soube responder e ainda entrava nos quartos sem respeitar a privacidade de quem tomava um banho ou se trocava.

Após alguns minutos na referida hospedaria, questionei ao mesmo staff onde eu e os demais integrantes do grupo poderíamos encontrar água, iniciava então mais um momento de justificativa; iniciei então o meu discurso de convencimento pra que todos pudessem ter acesso a água potável. Depois de certo tempo, foram cedidas algumas garrafas de água com um contragosto evidente no rosto do staff.

Depois de toda esta série de inconvenientes com a organização do evento eu, assim como muitos outros, me encontrava cansado físico e mentalmente; aquilo que era pra ser prazeroso havia se tornado um grande transtorno, mas ainda assim a tarefa foi cumprida, levamos música a quem realmente interessava: o público.

O retorno pra casa seria melhor – era o que todos pensavam otimistas - quando mais uma vez um membro da produção informou que em vez de retornar de ferry-boat conforme acordado anteriormente, retornaríamos em uma lancha atravessando a baía de São Marcos em um horário excepcional às 21h.

É de conhecimento de todos que utilizam embarcações que, todo tipo de movimentação na baía se encerra antes das 18h por questão de segurança; como é de conhecimento também de quem utiliza este transporte, a influência dos ventos na navegabilidade no período que corresponde aos meses com terminação em ‘BRO’ (setembro, outubro, novembro e dezembro); Por este motivo o clima de tensão era notório.

Como era de se esperar, todos foram obrigados a retornar nesta lancha caso quisessem voltar para São Luís ainda no sábado. Sem alternativa e não querendo recorrer ao serviço da hospedaria hostil, todos embarcaram. Foram aproximadamente 50 minutos de mar revolto, à noite em um horário, repito: incomum e inseguro para a viagem.

Fica aqui todas as minhas considerações pro Grupo Equinox e toda equipe executante do festival para que se qualifiquem e que busquem orientação qualificada e principalmente que sejam atenciosos de maneira igualitária com as atrações da terra, porque o respeito deve prevalecer sempre.

Atenciosamente,

Saulo Galtri
Jornalista e Estudante de Música

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

RECORTE EM FOCO

Achava aquele trabalho desgastante, como todo serviço o é sempre que a pessoa tem certeza de que não nasceu para aquilo. Mas a hora dela ia chegar, pensava esperançosa, entre uma tarefa e outra.

A vantagem do trabalho mecânico é que você não precisa pensar. Se você encara isso pelo ângulo de que não é obrigado a pensar muito no trabalho enquanto o executa, é mesmo uma vantagem.

A tal moça estava em horário de expediente. Parada na porta da loja de shopping, estrategicamente posicionada entre a vitrine – entendamos: sem tapar a visão dos produtos expostos – e o canto da porta de entrada da loja – sem atrapalhar o trânsito de clientes que entravam e saiam do estabelecimento.

Custei a entender que era uma funcionária. Acho que detive meu olhar na moça porque enquanto esperava na fila do quiosque de sorvete em frente a loja, notei que vestia roupas de corte quase infantil. Uma espécie de macacão jeans azul escuro com uma calça legue cor-de-rosa por baixo.

Já ia desviar o olhar quando a mágica aconteceu. Uma senhora com uma criança de colo se aproximou para espiar a vitrine. Os olhinhos do bebê encontraram os da moça de uniforme, até poucos instantes atrás perdidos entre passantes e sorvetes. O braço esquerdo da moça, até então oculto para mim, ergueu-se em direção ao bebê mostrando-lhe um grande balão cor-de-rosa. A criança sorriu e espalmou a mãozinha na bexiga. Por uma fração de segundo, o sorriso da moça teve a mesma cor que o da bebezinha.

Gosto de pensar que houve uma ligação ali, fugaz, mas seguramente doce. E no momento seguinte, a moça estava só novamente, parada no mesmo lugar, o olhar distante.

A fila do sorvete era devagar, mas eu quase apreciei que aquele momento passasse em câmera lenta. É que fixei o olhar na cena e assisti a uma sequência inestimável. A moça entrou na loja e voltou em silêncio, com outro balão na mão. Pouco depois entregava-o sorrindo a uma garotinha que arriscava os primeiros passos naquele corredor. Viu-a se afastar com o balão, o andar cambaleante, refletiu um pouco e tornou a entrar na loja. Retornou pouco depois com um balão azul, que dessa vez foi entregue a um menino grande o suficiente para se aproximar dela, pedir o balão com os olhos e um mover de sobrancelhas e soltar um obrigado entre risos, os olhinhos vidrados na bexiga de ar.

Aproximei-me de receber meu sorvete e a vi pela última vez: dois balões dessa vez, rosa em uma mão, laranja na outra.

Não cheguei a ver os sorrisos que geraram, pois a essa altura eu já seguia o sentido oposto, entretida com o sorvete, mas não o suficiente para deixar de pensar comigo sobre o que acabara de presenciar.

É que a vida é encanto e a mágica que nossos olhos são capazes de captar mora no segundo em que nosso coração se aquece.

Talvez a moça não tenha nascido para o comércio, mas sim para ser encantadora de balões coloridos que atraem crianças e sorrisos.

É que a gente custa a descobrir para que nasce e às vezes, quando não é levado a pensar muito, passa pela vida sem descobrir.

Por ora, torço para que a moça dos balões veja o próprio reflexo na vitrine da loja em frente e una ao olhar até então perdido, esse sorriso que colore o dia e encanta silenciosamente crianças.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

CINEMA EM FOCO


“O Palhaço”: porque a vida precisa encantar para fazer sentido

Ao final dos 90min de exibição de “O Palhaço” solidifiquei um pensamento que vem se formando a algumas semanas em minha mente: a vida não precisa de grandes explicações, mas precisa encantar para fazer sentido. Parece contraditório, mas não o é de todo. É que em algum momento da vida qualquer um de nós pode passar pela crise existencial que acomete Benjamim, o palhaço que fora do picadeiro é melancólico, pensativo, triste. O personagem não tem carteira de identidade, mas isso é só uma metáfora para a busca que Benjamim empreende a fim de conferir sentido a própria existência. E é nessa fase que nos damos [ou devemos dar] conta de que alguns significados em torno da vida são muito pessoais e cabem somente a nós conferi-los. Como uma combinação interna mesmo, isso de se acertar consigo mesmo.

No filme, Benjamim (Selton Mello) é o palhaço Pangaré, que viaja pelo país junto com a trupe do Circo Esperança e atua ao lado do pai Valdemar, o palhaço Puro Sangue (Paulo José). Aos poucos, a rotina de pendências do circo fora do picadeiro vai mexendo com Benjamim de modo que as dificuldades em manter o circo em atividade começam a pesar sob os ombros do palhaço. O questionamento que conduz o filme é silencioso e nos aparece através dos olhares que o personagem lança às pessoas, às coisas, ao que ouve e quando é incitado a falar, como um conflito interno que passa a habitar o peito de Benjamim e o leva a querer procurar outra forma de vida. Como se fosse necessário sair do universo que habitamos para enxergá-lo de longe e perceber o que realmente nos falta e nos é essencial.

É com um enredo simples, sem grandes embates entre os personagens, que “O Palhaço” comove, porque ao meu ver é uma singela pintura da vida, essa trama cheia de altos e baixos, risos e choro, certezas e incertezas e conexões das mais imprevisíveis. Nesse sentido, vale destacar a decisão acertada da direção de não promover no filme reviravoltas fantásticas em busca de arrematar a trama com um incrível final feliz alcançado por alguma lição de moral. Fora a produção do filme em si, com participações especiais que conferem ar de agradável surpresa às cenas que seriam triviais, como quando a trupe tem de ir à delegacia prestar esclarecimentos ao delegado e quem nos surge por trás da cadeira é um Moacyr Franco felinamente caracterizado para parecer com o gato Lincoln, cuja foto em cima da mesa compõe a cena de modo divertido. Ou quando o atendente da loja de eletrodomésticos é ninguém menos que Jorge Loredo, o eterno Zé Bonitinho. E assim, as sequências começam a arrancar risos não só mais pelo enredo, mas pelo precioso elenco que reúne e que faz parte significativamente da história do humor nacional.

E se até então falei pouco sobre o elenco é porque precisava guardar um parágrafo especialmente destinado aos atores que deram vida à essa história tão doce e comovente. A começar por Selton Mello, que dirige e protagoniza o longa dando ao Benjamim a expressão tocante de quem sorri como quem tenta espantar uma angústia muito íntima, difícil de compartilhar. Passando pelo Puro Sangue interpretado por ninguém menos que Paulo José, um dos atores brasileiros mais competentes na arte de comover, alterando a expressão do drama ao humor com muita sutileza. E a cativante trupe que reúne pessoas diferentes e que consegue pinçar da realidade personagens bem verossímeis como a mulher sedutora, mas pouco confiável, o casal leal que cria a filha com doçura, a senhora conselheira e amável, o casal jovem, cujo rapaz se deslumbra com aventuras amorosas pelas cidades em que passam e ainda os irmãos que estão sempre combinando um discurso para pedir adiantamento de salário, entre outros. O resultado é uma reunião de artistas que convivem quase como uma família e são capazes de se emocionar cada qual ao seu jeito, mas com as mesmas coisas: a partida de um dos integrantes do grupo, seu retorno e a estréia da mais nova artista.

Por tudo isso, creio que o mérito de “O Palhaço” está nos detalhes que remetem à vida real, como quando acompanhamos como as escolhas feitas por Benjamim alteram sua vida e o fazem enxergar quem ele realmente é, ensinando que o fato da vida por vezes nos escapar ao entendimento não passa de só mais um artifício para que descubramos outros olhares e significados. Porque cada um de nós traz consigo um pouco do espírito de Pangaré, esse sujeito que nasce para encantar as gentes, mas também merece ser encantado vez em quando.

Fotos retiradas do Google Images

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