terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ensaios da foca...

Onde todas as tribus se encontram...


Transeuntes do Projeto Reviver compõem cenário interessante e democrático. São artistas, turistas, famílias maranhenses, estudantes, grupos de amigos, enfim, pessoas de gerações e estilos de vida visivelmente diferentes que encontram no mesmo lugar um passeio agradável e contato com um pouco da história local.


Por Talita Guimarães


O centro histórico de São Luís abriga casarões do patrimônio mundial tombados pela Unesco, ruas de histórias seculares, museus de arte e patrimônio vivo também. O lugar tem o poder de reunir pessoas de todas as gerações e estilos de vida em torno de um único passeio. Nos inúmeras stands montados pelas ruas do local é possível desfrutar das comidas típicas maranhenses, comprar livros e cd’s de escritores e músicos locais e apreciar peças do artesanato e amostras da cultura popular, riquíssima no estado.


O passeio pela praça principal do centro histórico oferece como opção bares e restaurantes com música ao vivo, a projeção de filmes e documentários alternativos no Cine Praia Grande, ou simplesmente a caminhada pelo lugar admirando os casarões históricos e batendo um bom papo na Praça Nauro Machado com a possibilidade de esbarrar com o próprio poeta pelas escadarias do lugar. Mestre Antônio Vieira, músico e pesquisador maranhense, também pode ser visto nos fins de tarde, lendo ou conversando com os transeuntes próximo à banca de revistas ou ao cachorro-quente mais famoso do local.


O espaço à noite, de quinta-feira à domingo, é democrático. De um lado, no beco próximo à Praça Nauro Machado, o som que ecoa é o canto de grupos de samba e pagode em uma rua inteira tomada por pessoas cantando e sambando. Não muito longe, virando à esquina, quem domina é o reggae, que chegou à ilha de São Luís de forma curiosa: rádios de ondas curtas vindas da América Central eram bem captadas na cidade, e o ritmo que tocava era inevitavelmente jamaicano. Uma caminhada mais adiante, leva o visitante à área de abrangência dos roqueiros e Emos. Tudo em um bairro de ruas de cantaria, estreitas e sem a permissão para o trânsito de veículos. Casarões históricos são iluminados por postes de ferro de uma rede elétrica toda substituída pela viação subterrânea. Cenário similar a São Luís antiga, colonial.


Durante os meses de junho e julho, festas juninas e férias respectivamente, o movimento no Reviver é ainda mais intenso. A programação cultural atrai centenas de pessoas em busca das apresentações de cultura popular local, como as rodas de tambor de crioula, cacuriá e o ritmo forte das toadas de bumba-meu-boi.



Um pouco de história


Mas para um passeio completo, o olhar mais atento de quem passa pelo lugar durante o dia revela entre os casarões, que compõem um conjunto arquitetônico de influência portuguesa, um método interessante e eficaz no controle do calor dentro das residências maranhenses: o revestimento com azulejos. Mais do que um ladrilho para abrandar o calor, o azulejo é uma peça histórica de conhecido poder decorativo. Tanto que para não se perder com o tempo ou ser alvo de ladrões, foi incluído em projetos de restauração e atualmente passa por catalogação.


O famoso Projeto Reviver, erroneamente denominado por muitas pessoas como bairro do Centro Histórico, foi na verdade um projeto de restauração do conjunto arquitetônico do bairro da Praia Grande durante as décadas de 70 e 90. O alerta para a perda do patrimônio histórico veio dos representantes da Unesco enviados ao Maranhão nos anos de 1966 e depois 1973. O casario perdia características primorosas da história à medida que a cidade crescia. Para evitar que o desenvolvimento descaracterizasse ainda mais o conjunto, o governo construiu a barragem do Bacanga e a Ponte José Sarney, ligando o centro ao outro lado do Rio Anil, hoje os bairros do São Francisco e Renascença. Dessa forma, o desenvolvimento foi deslocado para os bairros depois da ponte, permitindo a restauração do centro de São Luís.


O Projeto Reviver restaurou 3.500 construções em uma área de 250 hectares. Preservar o patrimônio de um povo é resguardar o que lhe é inteiramente seu e ao mesmo tempo de todos. São Luís é cidade integrante do Patrimônio Histórico mundial. Conhecer a história, ter orgulho da cidade e quere-la bem é dever de todo cidadão ludovicense. Portanto, cabe à população maranhense, o reconhecimento de sua história tal como a valorização de suas riquezas, porque ainda hoje, preservar é reviver. Independente de sua “tribo” ou preferência.



segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ensaios da foca...

Contagem regressiva para final do POEMARÁ 2008
Festival de poesia chega 22ª edição com um histórico de muitos talentos descobertos e reconhecidos, várias poesias premiadas e participação confirmada dos melhores nomes da poesia jovem maranhense.
Por Talita Guimarães

Promovido há 22 anos pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) através do Departamento de Assuntos Culturais (DAC), o Festival Maranhense de Poesia Falada alcançou o mérito de entrar para o calendário anual de festivais de poesia realizados pelo país. Muitos concorrentes vêm de vários estados e até de fora do país, para apresentar seus versos em São Luís, proporcionando ao público um festival de arte da melhor qualidade. Não é para menos que a grande final é sempre um espetáculo a parte pela declamação teatral e a disputa pelo melhor poema. São Luís é berço de grandes poetas e cabe a eles avaliar os selecionados e intitular os prêmios.

Dentre os principais nomes que concorrerão ao primeiro lugar na final do 22° POEMARÁ, apartir das 19h da próxima quinta-feira, dia 02/10, está o maranhense Ronnald Kelps, figurinha carimbada no evento há oito edições. Apelidado de “Filho do Dac” por conviver com a arte maranhense desde a infância e participar assiduamente do cenário poético da capital, Kelps com muito talento e determinação sempre esteve entre os primeiros colocados nas oito edições em que concorreu, tendo sido o grande vencedor da 20° edição em 2006.

Confira abaixo o histórico de participações do rapaz, atual estudante de Jornalismo da Faculdade São Luís:

ANO POESIA COLOCAÇÃO
2001 – CATACLISMO - 4ª eliminatória;
2002 – VOLIVEIS - HOURS CONCOURS;
2003 – PROGNE - 3ª eliminatória;
2004 – AQUERONTE - 4ª eliminatória;
2005 – BEETHOVEN -Finalista - (3° lugar, interpretação ‘‘crianciando’’ de Ribamar Feitosa);
2006 – ALEGRIA FOSCA - VENCEDOR - (1° lugar mérito literário)
2007 – LABAREDAS - Finalista – (5° lugar mérito literário)
2008 – PALAVRA - ( - ) – ( - )

A seguir, a poesia vencedora da 20° edição do POEMARÁ, “Alegria Fosca” e a finalista desse ano, “Palavra”:

ALEGRIA FOSCA
(Ronnald Kelps)

Duas notas secas de Beethoven
cortam o chão áspero da noite
logo identifico o pó e o silencio
dos que gritam por alegria
o corpo do homem em movimento
as mãos em delírio
a alegria murchando na semente do dia
o enxame da vida em zunido finito
na boca o amargor de vida que não fica
trabalhar oh trabalhar
a dor com maestria
na ânsia suja encardida dos que fingem
não o sofrimento
uma nota seca de Beethoven corta o chão do dia
vale a pena começar tudo de novo?

PALAVRA
(Ronnald Kelps)

Lança feroz conduzindo chamas
fogo diurno esmerilando meu ombro,
luz conduzindo ao pó da tarde
fio de teia
que em prendendo mata sem dó.
Incêndio água-viva, sossego falecido.
uma voz vem da zoada da rua do Egito
e apodrece entre a lama fétida do rio anil,
cheira a alecrim sob o sabão do dia
lâmina na mão de Golias
decepando corpo e cabeça.
Do solo sofrido a dor do que se vive
cansado chão de esperanças
apagadas
tudo o que falo e
sinto vem da
palavra não.


Serviço:
O quê? 22°POEMARÁ - FESTIVAL MARANHENSE DE POESIA FALADA
Quando? 02/10/2008, ÀS 19H
Onde? TEATRO ARTHUR AZEVEDO, CENTRO. SÃO LUÍS - MA

domingo, 28 de setembro de 2008

Ensaios da foca...

Pontos turísticos naturais: reflexo de descaso e poluição
Praias de São Luís e Laguna da Jansen são alvos da preocupação de pesquisadores, professores e estudantes da capital.
por Talita Guimarães

As belezas naturais da ilha de São Luís compreendidas nas praias e a Lagoa da Jansen são bastante divulgadas a nível nacional com o intuito de promover o turismo. As imagens veiculadas nas outras regiões do país são, em geral, de locais bem conservados que de fato despertam interesse pela visita, entretanto ao desembarcar em São Luís, turistas e maranhenses que voltam para casa, têm deparado-se com pura disparidade.

O descaso com o tratamento da Lagoa da Jansen, na verdade Laguna devido à ligação com o mar através de canais, chama a atenção de quem passa pelo local uma vez que da água exala o odor forte proveniente do lixo, esgoto e dejetos despejados sem a mínima preocupação com o meio ambiente. Nas praias, a realidade não é diferente: grandes canos despejam o esgoto dos prédios e construções da área de modo descarado, na areia já escurecida, como pequenos córregos para o mar. E a coleta de lixo ainda constitui um sistema falho, que não supre a demanda de lixo e não evita em nada o despejo em locais de ecossistema privilegiado, como o mangue que cerca a laguna.

Com base nas comemorações do Dia Internacional do Meio Ambiente, professores de uma escola do Maiobão decidiram organizar uma semana de conscientização e debates acerca da situação atual desses pontos turísticos. O projeto desenvolvido mobilizou toda a escola em torno de temas relacionados à consciência ambiental e a realidade dos alunos em sua cidade. Às turmas de oitava série coube a produção de um mural e uma mesa-redonda. O trabalho dos alunos abrangeu três momentos: uma aula de campo unindo química e geografia pela Laguna da Jansen e as praias da Ponta D’areia e São Marcos; coleta de amostras de água e areia desses locais para uma análise do grau de poluição em laboratórios da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e um passeio pelo Parque Ambiental. O resultado do primeiro momento, na aula de campo realizada durante todo o sábado, 17/05, foram comentários de meninos e meninas da faixa etária entre 13 e 15 anos, assustados e enojados com o que encontraram. “Conviver longe dessa área faz com que a gente não veja os abusos acontecerem e a poluição incomodar. Mas estar aqui vendo e entendendo o que acontece, desperta a vontade de mudar essa situação, fazer algo para preservar esse lugar antes que seja ainda mais tarde”, relatou o estudante Pablo Ribeiro de 14 anos, indignado com os bueiros estourados, animais encontrados mortos e o mau cheiro da laguna. E as surpresas não cessaram para a turma. Segundo a aluna Ariane Borges, durante a excursão o grupo presenciou um caminhão da coleta de lixo depositar todo o conteúdo no gramado a poucos metros do local destinado ao depósito dos caminhões. “A população tem que cobrar medidas do governo, mas também tem que se conscientizar dos impactos das próprias ações. Temos que fazer nossa parte”, acrescenta. Dentro desse contexto, o professor de química Alan Jones explanou aos alunos sobre agentes poluidores e as conseqüências reais da poluição e aliou sua fala à aula de geografia do professor Isaac Alissom sobre questões ambientais. “Durante o governo Roseana, foram feitos canais de ligação ao mar com a intenção de levar oxigenação à laguna, mas não houve grandes resultados. O processo mais eficaz ainda é a dragagem, que é a retirada dos sedimentos do fundo, pois há um grande acúmulo de lixo proveniente das tubulações de esgoto que despejam os dejetos diretamente na água. No entanto, esse método é caro e não foi levado adiante por falta de verba. O governo federal teria que custear a despoluição da laguna, mas até hoje não houve interesse”, informou o professor Isaac.
Os mestres afirmaram ainda, que trabalhos como esses são necessários para conscientizar os alunos a de posse do conhecimento de causa partir para uma ação mais efetiva, que busque soluções e saiba exigir o que é direito do cidadão e dever do governo.

A Semana de Meio Ambiente do colégio ocorreu entre os dias 2 e 6 de junho e contou ainda com o apoio dos alunos: “A escola é o primeiro lugar, depois da família, que deve ensinar aos jovens e crianças, pois é daqui que saem as pessoas conscientes, os verdadeiros cidadãos,” afirma o estudante João Meireles de 14 anos.

Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão também alertam para a degradação constante das praias de São Luís e da Laguna da Jansen. Estudos sobre o grau de balneabilidade, isto é, as condições da água para o banho, revelam que a praia da Ponta D’areia é a mais poluída da ilha e o teor de poluição se concentra pela presença alarmante de coliformes fecais resistentes a temperaturas de até 44,5º. A orla da Ponta D’areia é cercada de bares, restaurantes, hotéis e edifícios residenciais, o que propicia, mediante a falta de consciência e planejamento urbano, o depósito de esgoto e lixo diretamente na praia.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

André e o Mundo...

Sobre artistas e cidadãos


Volta e meia, os noticiários divulgam uma nova série de injustiças, corrupções, crueldades e catástrofes. Por mais que tentemos ignorar, essa situação está no ônibus que pegamos todas as manhãs, na relação pedestre-motorista, patrão-empregado, aluno-professor, enfim, nas mais simples atividades do dia-a-dia. Nesse contexto, agimos como turistas perdidos na própria cidade natal, pergutando-nos: “o que falta para alcançarmos a velha utopia de mundo melhor? Será impossível?”.

Nada é impossível. A própria História tem nos mostrado que as grandes descobertas originam-se de circunstâncias quase corriqueiras. Baseado nisto, o presente texto vem apresentar os princípios elementares da ARTE como resposta a esses anseios, pois artistas e cidadãos são muito mais parecidos do que até então podíamos imaginar.

Em uma sociedade na qual é comum a idéia de que os artistas são apenas meia dúzia de malucos que não têm o que fazer , as declarações anteriores serão duramente contestadas. Pior ainda, vai ser quando considerarmos para exemplificar o que foi dito a obra “Roda de bicicleta” de Marcel Duchamp. Aparentemente, a observação da mesma nos leva a pensar que o “idiota” queria apenas chamar atenção e, para isso, colocou uma roda sobre um banco. No entanto, quando a inserimos no contexto de 1912, época em que o mundo ardia em guerra, e reconhecemos Duchamp como artista dadaísta, surpreendemos-nos com sua real intenção: os adeptos do dadaísmo se propuseram a fazer uma arte vazia de significado para expressar a indignação que sentiam pela falta de lógica dos acontecimentos políticos e sociais da época, isto é, da irracionalidade que devastava o mundo e culminava numa guerra. Fica aí explicada a tal roda sobre o banco.

Dessa forma, pode-se por arte uma atitude particular do homem em resposta às idéias que os acontecimentos do mundo lhe causam. Segundo Pablo Picasso, “a arte é uma mentira que revela a verdade”. Ao longo deste processo, é indispensável o estudo dos fatos e a devida interpretação que causa uma vontade incontrolável de interferir e criar, só então o artista produz a obra de arte, que choca - seja pela beleza, feiúra ou indiferença – o espectador alertando-o corajosamente para um problema ou um valor universal.

O trabalho desempenhado por esses sujeitos da arte são inerentes ao próprio ser humano. Impossível viver sem transformar. No entanto, quando tratamos de cidadania, essas virtudes, freqüentemente, tornam-se matéria para esquecimento. Mais do que um erro, isso é uma omissão que gera uma conseqüência catastrófica.

A sensibilidade para perceber as exigências do mundo e a criatividade para atendê-las devem ser compromisso constante de todos os homens e mulheres na luta contar tudo aquilo que diminui o ser humano. Aos poucos, quando as ações isoladas dessa pessoas animarem outras, nem mesmo a paz mundial será impossível.“E o grande milagre não será mais andar nas nuvens ou sobre as águas, o grande milagre será o fato de que todo dia, de manhã até a noite, seremos capazes de caminhar sobre a terra” (Manifesto da Sociedade Alternativa – Raul Seixas).


André Luiz de Araújo Mendes é estudante do curso técnico em Alimentos do CEFET-MA.
E-mail: mundoemovimento@yahoo.com.br

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Rosa: primor ao sertão

“Eu carrego um sertão dentro de mim, e o mundo no qual eu vivo é também o sertão. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras, para mim são a minha maior aventura. Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito, o momento não conta.”
(Guimarães Rosa)


Muito mais do que uma descrição fiel do sertão nordestino, a obra de Guimarães Rosa constitui-se da sutileza e paixão de alguém que conseguiu sentir o sertão e guiar seu caminho literário por ele. Em Grande Sertão: Veredas, sua obra de maior visibilidade, Rosa cria uma história fascinante a partir da construção de uma linguagem peculiar constituída por arcaísmos, neologismos e regionalismos que trazem realidade e genialidade à temática de suas histórias. Aliás, o trabalho literário do escritor mineiro caracteriza-se pela criação de uma linguagem diferente em que se mesclam palavras e estruturas arcaicas a expressões modernas e gírias a partir da oralidade de seus personagens.

No conto “Famigerado”, Guimarães Rosa mostra o seu domínio lingüístico quando apresenta ao leitor uma história cujo enredo gira em torno da importância da linguagem e de seu uso. Damázio é um sertanejo pouco instruído que costuma ganhar a vida impondo-se como um bandido cruel e temido. O conto é narrado sob a ótica de um médico que tido como homem de cultura é procurado por Damázio para esclarecer-lhe uma dúvida. Um dado homem do governo referiu-se ao sertanejo como “famigerado”, e este, desconhecedor do termo, privou-se de qualquer reação contra o homem. Para definir que atitude tomar, Damázio procura esclarecer se “famigerado” é um elogio ou uma ofensa, e o médico, recuado com a incomum visita, informa que a palavra significa “famoso”, tratando-se, portanto, de um elogio, para alívio de ambas partes.

Fazendo-se um parâmetro entre a obra analisada e o quinto mito explicitado pelo lingüista Marcos Bagno em seu livro Preconceito Lingüístico, observa-se que a linguagem exerce papel indispensável na análise de uma sociedade. Bagno reflete acerca dos regionalismos e da procura por um lugar onde se fale uma língua mais correta ou pura. Rosa produz um conjunto literário envolto em linguagem diferenciada e evidenciada pelo regionalismo. Transforma um conto de essência simples em um texto rico e criativo, que desperta para a análise da linguagem quanto instrumento primordial para relação humana. O sertanejo simples e o médico letrado, figuras características do sertão nordestino e da obra do autor, mostram em seus diálogos e intenções que o uso das palavras e o conhecimento de seus significados regem as atitudes humanas.

Faz-se condição sine qua non, também, elucidar que o que se altera na ficção brasileira com a produção do romancista é a inevitável afirmação de que Guimarães Rosa foi um escritor formidável cuja obra conseguiu transcrever o sertão de modo inequívoco na literatura brasileira. Vale lembrar ainda que pelo conjunto de sua obra, Rosa é indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, mas a indicação só ocorre após seu falecimento, impossibilitando-o de concorrer. E em 2008, ano de centenários na literatura brasileira, Rosa une-se ao time de escritores que como Machado de Assis e Artur Azevedo, serão lembrados com ainda mais evidência e homenageados pela excelência da contribuição deixada à sociedade.

Talita Guimarães é acadêmica de Jornalismo da Faculdade São Luís e autora do livro infanto-juvenil Vila Tulipa.

domingo, 14 de setembro de 2008

“Mamãe, eu quero!”

A cena já é clássica, comum. Ninguém mais encara com estranheza ou mesmo pára para olhar melhor, tamanha a naturalidade da coisa. Uma família passeia pelo shopping, as crianças param enlouquecidas em uma vitrine e de repente soltam exclamações do tipo “massa”, “radical”, “irado”. A seqüência leva ao inevitável “mamãe, eu quero!”. Mas o que há nessa loja, de tão “legal”, que desperta o interesse desses pequeninos? O que é capaz de levar uma criança ao desejo incontrolável de querer ou consumir algo? Brinquedos é uma resposta tão óbvia quanto a ridicularidade da pergunta, no entanto a vida dita moderna leva a outras proposições de triste constatação. Adjetivos falsamente doces que acompanham insistentemente o delicioso substantivo brinquedo surgem a todo o momento e saem da boca das crianças como se nunca na vida pudessem ser separados em uma frase. Brinquedos eletrônicos, games, celulares, ipod’s, enfim, uma infinidade de aparatos tecnológicos realmente interessantes, mas muitíssimo mal administrados se jogados nas mãos de pessoas cuja noção de consumismo e o próprio caráter ainda são pouco definidos.

Observar as crianças de hoje e não retomar ao discurso nostálgico do “no meu tempo não era assim” é muito mais do que assumir um papel de relutante a dita modernidade. É detalhe que hoje, faz-se indissociável a observação da infância. É finalmente entender que a vida é decididamente um ciclo e que aquilo que um dia condenamos nos mais velhos, agora, nos salta aos olhos de modo claro e evidente.
Entretanto, a proposta aqui vai além da reflexão acerca do eterno entrave “jovens demais para entender” versus “velhos demais para agir”. A reflexão vem da simples e por vezes triste contemplação de como é ser criança hoje. Rara é a doçura no olhar, o jeito sapeca de ser e escolher ao seu modo o que se quer ser. Triste reparar que a tecnologia vem ocupando um espaço considerável na vida de meninos e meninas. Pior ainda, é perceber que grande parte dos adultos – pessoas que se proclamam maduras e, portanto, aptos a entender as conseqüências desse fascínio exagerado dos “baixinhos” por aquilo que pouco lhes acrescenta culturalmente e humanamente – acham graça e chegam a sentir orgulho da “esperteza” dos mesmos em preferir um MP5 a um MP3 e saber impor essa decisão. Inegável pensar que essa atitude de homens e mulheres alimenta a visão de mundo que se tem dado às crianças.

Não pregamos em hipótese alguma um não à era tecnológica e seus avanços até porque são relevantes para a sociedade. Sério, sabemos reconhecer isso e não possuímos nenhum discurso anacrônico. Mas não somos passivos ao consumismo no qual nossas crianças têm mergulhado deixando de lado a melhor e mais maravilhosa fase da vida. Não aceitamos criança que não conheça pelo menos uma das travessuras da Emília e da turma do sítio. Não dá para perdoar pais que nunca apresentaram Ziraldo, Maurício de Sousa, Mário Quintana, Antoine Saint – Exupéry e companhia aos seus filhos. Não toleramos porque sabemos e isso não é omisso a ninguém que tecnologia não é matéria barata. Cultura sim vale cada centavo cobrado e por vezes ainda é pouco. Então não dá para aceitar desculpas de quem prefere presentear o filho com um celular faz-tudo ao invés de comprar a coleção de Monteiro Lobato.

Experiências como a leitura na infância vão ensinando a importância da imaginação, dos sonhos, de dar um abraço em quem se ama, de ter amigos, de preferir brincadeiras – que podem ser em grupo – a brinquedos, de querer e lutar por aquilo que se tem necessidade ..., enfim, sensibiliza as crianças para o fato de que com o mundo e as pessoas , seja por meio de uma conversa simples ou de um gesto de ajuda, podemos aprender novidades, a cada dia, que nos aproximam da sabedoria, além, claro, de dar sentido à vida. Parece complicado? Chato? Mas, certamente, tais virtudes são muito mais relevantes do que saber as funções de um produto e por isso desejá-lo, mesmo sabendo que amanhã será substituído por outro mais sofisticado.
Como nossos avós diziam, existem coisas que não podem mudar – nestes casos, o antigo sobrepõe-se ao moderno – pois fazem parte de um estado natural de equilíbrio adequado ao desenvolvimento do ser humano. Ser criança é inevitavelmente uma delas.

André Mendes é aluno do curso técnico em Alimentos do CEFET-MA.
Talita Guimarães é escritora, estudante de Jornalismo e autora do livro infantil Vila Tulipa.

Dostoievski: a verdade faz o homem ridículo


Narrado em primeira pessoa, “O Sonho de um Homem Ridículo”, escrito por Dostoievski, centra-se no relato feito pelo próprio narrador, também personagem principal que a verdade em torno da vida e das pessoas, procurada ao longo dos tempos por filósofos e pensadores, está diretamente relacionada ao conhecimento do homem sobre ele mesmo. Sócrates pode ser retomado no discurso em que afirma “Conhece-te a ti mesmo”, como passo primordial ao alcance da verdade acerca da humanidade e assim, do universo, que em harmonia e conjunto é capaz de levar à felicidade e à paz.

Nessa perspectiva, o imaginário é enfatizado sob a ótica de uma metáfora que dá a idéia da vida plena. Percebe-se isso quando após cometer o suicídio, em seu sonho, o personagem principal morre apenas fisicamente uma vez que sua consciência mantém-se ativa e o deixa ciente de que está morto quando há a percepção do velório, do enterro e até mesmo da sensação dentro do caixão já enterrado. O homem dito ridículo faz, então, após sua morte, uma viagem que ultrapassa o planeta Terra e segue pelo espaço até um outro lado homólogo ao sistema solar. Um outro mundo mostra-se possível ao personagem, em um planeta Terra composto por tudo que caracteriza um verdadeiro paraíso.

Assim, a reflexão sobre essa questão, permite compreender que Dostoievski produz uma obra de valor inestimável já que o conto “O Sonho de um Homem Ridículo” transcorre dentro de uma leitura fácil, sobre o ponto de vista da linguagem utilizada, mas complexa dentro do contexto e da mensagem a ser transmitida. O conto reflete acerca das atitudes humanas que direcionam a sociedade ao caos e aos problemas agravados pela falta de consciência. O autor procura, repetidas vezes, convencer o leitor de que o grande potencial humano que leva à felicidade e a convivência em harmonia é o aparentemente inocente, mas essencial “amar ao próximo como a si mesmo”.


Talita Guimarães

Árvore dos sonhos infantis...


Um menino magro, com soro no braço, chega à sala de espera do raio-x de um hospital acompanhado do pai. Caminha até a janela e põe-se a observar a rua, o movimento dos carros e o vendedor ambulante do outro lado da calçada. Volta o olhar para o pai, que concentrado nas perguntas da recepcionista não percebe a coisa incrível que tem do outro lado da rua. “Papai!”, chama baixinho com a mãozinha livre no vidro. Ele não ouve, assina a requisição de exames do plano de saúde. O menino não desiste e caminha até o adulto, pois precisa falar-lhe o que viu em plena cidade. O movimento é rápido: a criança chama a atenção do pai puxando-lhe a barra da blusa e solta “me dá um fruto daquela árvore de brinquedos?”. O homem, atordoado, olha para o filho e pede que ele fique quieto, que aquilo não vai demorar muito. Não serve de afago para a criança, que mesmo doente não perde a poesia da infância, mas quieta-se com a voz do adulto e toda a sua seriedade.

A árvore em questão está em frente a um hospital infantil de São Luís – MA e expõe, pendurados em seus galhos por fios de nylon, uma boa variedade de bonecos infláveis que apitam quando apertados. São personagens dos desenhos animados e filmes infantis, bichinhos, bolas coloridas, bonecas para meninas e até martelos gigantes. Obra e arte de um vendedor ambulante criativo, que viu no contexto daquela rua um jeito ótimo de expor seus produtos.

Dada a dificuldade em aceitar que as coisas simples podem fazer diferença, convido à reflexão: por que ainda confundimos simplicidade com insignificância com tanta força? Passa despercebido no dia-a-dia permeado pela rigidez e seriedade do trabalho mais a responsabilidade dos estudos e família, mas deixa rastros marcantes depois de um tempo, já que levar a vida tão a sério endurece sorrisos e cega a vista para detalhes formidáveis.

Não deveríamos crescer perdendo a cada momento a poesia da infância e a brandura do olhar infantil sobre os fatos. Amadurecer o olhar da criança não significa perder a sutileza, mas apenas carregar a vida de uma dose de poesia nova e revigorante. Muito diferente de se deixar amargurar pelos problemas de uma vida adulta e ser tachado do que vai do chato ao insuportável. Como por exemplo, gente que reclama de tudo, vê dificuldades em coisas banais, cria escarcéu por muito pouco e que por tudo isso vive com dor de cabeça, insônia e mais problemas de um ciclo vicioso originado por reações medíocres e precisamente evitáveis. Em alguns casos mais graves, essas pessoas são incapazes de sorrir, pois acabam esquecendo de reconhecer as coisas boas e valoriza-las ainda que sejam pequenas ou rápidas. Gente que só se dá conta de que as borboletas existem quando uma nuvem amarela, diga-se de passagem, causada pelo desequilíbrio ambiental, surge no céu da cidade. Coisas simples e fáceis como parar um pouco e contemplar um céu estrelado, uma borboleta em pleno vôo ou um simples beija-flor que emparelhou com o ônibus na estrada cortante faz um bem impagável. Traz de volta a crença em torno de que tudo pode ser bom e que sempre pode haver algo fantástico por trás de coisas simples e por vezes imperceptíveis.

Enquanto acharmos graça da menina que prefere em rede nacional a prata no lugar do ouro, ou da criança que escreve no bloco de sugestões de uma empresa que gostaria que a mesma disponibilizasse “um quintal bem grande para as crianças brincarem”, ou do menino do hospital que olha para a árvore dos seus sonhos e pede um brinquedo ao pai, tão simples, tão sutil, mas inimaginável à mente de um adulto, que não entende nem um grama do seu apelo, não teremos nem metade das nossas complicações de gente dita grande solucionadas. E o pior, não estaremos aproveitando o melhor da vida, que ainda está muito bem colocado entre detalhes.


Talita Guimarães