terça-feira, 23 de setembro de 2008

Rosa: primor ao sertão

“Eu carrego um sertão dentro de mim, e o mundo no qual eu vivo é também o sertão. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras, para mim são a minha maior aventura. Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito, o momento não conta.”
(Guimarães Rosa)


Muito mais do que uma descrição fiel do sertão nordestino, a obra de Guimarães Rosa constitui-se da sutileza e paixão de alguém que conseguiu sentir o sertão e guiar seu caminho literário por ele. Em Grande Sertão: Veredas, sua obra de maior visibilidade, Rosa cria uma história fascinante a partir da construção de uma linguagem peculiar constituída por arcaísmos, neologismos e regionalismos que trazem realidade e genialidade à temática de suas histórias. Aliás, o trabalho literário do escritor mineiro caracteriza-se pela criação de uma linguagem diferente em que se mesclam palavras e estruturas arcaicas a expressões modernas e gírias a partir da oralidade de seus personagens.

No conto “Famigerado”, Guimarães Rosa mostra o seu domínio lingüístico quando apresenta ao leitor uma história cujo enredo gira em torno da importância da linguagem e de seu uso. Damázio é um sertanejo pouco instruído que costuma ganhar a vida impondo-se como um bandido cruel e temido. O conto é narrado sob a ótica de um médico que tido como homem de cultura é procurado por Damázio para esclarecer-lhe uma dúvida. Um dado homem do governo referiu-se ao sertanejo como “famigerado”, e este, desconhecedor do termo, privou-se de qualquer reação contra o homem. Para definir que atitude tomar, Damázio procura esclarecer se “famigerado” é um elogio ou uma ofensa, e o médico, recuado com a incomum visita, informa que a palavra significa “famoso”, tratando-se, portanto, de um elogio, para alívio de ambas partes.

Fazendo-se um parâmetro entre a obra analisada e o quinto mito explicitado pelo lingüista Marcos Bagno em seu livro Preconceito Lingüístico, observa-se que a linguagem exerce papel indispensável na análise de uma sociedade. Bagno reflete acerca dos regionalismos e da procura por um lugar onde se fale uma língua mais correta ou pura. Rosa produz um conjunto literário envolto em linguagem diferenciada e evidenciada pelo regionalismo. Transforma um conto de essência simples em um texto rico e criativo, que desperta para a análise da linguagem quanto instrumento primordial para relação humana. O sertanejo simples e o médico letrado, figuras características do sertão nordestino e da obra do autor, mostram em seus diálogos e intenções que o uso das palavras e o conhecimento de seus significados regem as atitudes humanas.

Faz-se condição sine qua non, também, elucidar que o que se altera na ficção brasileira com a produção do romancista é a inevitável afirmação de que Guimarães Rosa foi um escritor formidável cuja obra conseguiu transcrever o sertão de modo inequívoco na literatura brasileira. Vale lembrar ainda que pelo conjunto de sua obra, Rosa é indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, mas a indicação só ocorre após seu falecimento, impossibilitando-o de concorrer. E em 2008, ano de centenários na literatura brasileira, Rosa une-se ao time de escritores que como Machado de Assis e Artur Azevedo, serão lembrados com ainda mais evidência e homenageados pela excelência da contribuição deixada à sociedade.

Talita Guimarães é acadêmica de Jornalismo da Faculdade São Luís e autora do livro infanto-juvenil Vila Tulipa.

Um comentário:

filosofia com arte disse...

Querida, Talita, a obra de Guimarães Rosa exemplifica uma leitura regional e, ao mesmo tempo, universal. Ali, vemos o confronto e o diálogo, a abertura e a finitude, o espaço e o tempo. Por isso, é repleta de filosofia, cosmologia, ciência, religiosidade e literatura! O texto Grande Sertão: Veredas constitui um momento único no caminho singular de G.Rosa para a nossa literatura. É sem dúvida um de nossos textos mais ricos, sobretudo na abordagem filosófica. Abraços, Jorge Leão.