domingo, 14 de setembro de 2008

“Mamãe, eu quero!”

A cena já é clássica, comum. Ninguém mais encara com estranheza ou mesmo pára para olhar melhor, tamanha a naturalidade da coisa. Uma família passeia pelo shopping, as crianças param enlouquecidas em uma vitrine e de repente soltam exclamações do tipo “massa”, “radical”, “irado”. A seqüência leva ao inevitável “mamãe, eu quero!”. Mas o que há nessa loja, de tão “legal”, que desperta o interesse desses pequeninos? O que é capaz de levar uma criança ao desejo incontrolável de querer ou consumir algo? Brinquedos é uma resposta tão óbvia quanto a ridicularidade da pergunta, no entanto a vida dita moderna leva a outras proposições de triste constatação. Adjetivos falsamente doces que acompanham insistentemente o delicioso substantivo brinquedo surgem a todo o momento e saem da boca das crianças como se nunca na vida pudessem ser separados em uma frase. Brinquedos eletrônicos, games, celulares, ipod’s, enfim, uma infinidade de aparatos tecnológicos realmente interessantes, mas muitíssimo mal administrados se jogados nas mãos de pessoas cuja noção de consumismo e o próprio caráter ainda são pouco definidos.

Observar as crianças de hoje e não retomar ao discurso nostálgico do “no meu tempo não era assim” é muito mais do que assumir um papel de relutante a dita modernidade. É detalhe que hoje, faz-se indissociável a observação da infância. É finalmente entender que a vida é decididamente um ciclo e que aquilo que um dia condenamos nos mais velhos, agora, nos salta aos olhos de modo claro e evidente.
Entretanto, a proposta aqui vai além da reflexão acerca do eterno entrave “jovens demais para entender” versus “velhos demais para agir”. A reflexão vem da simples e por vezes triste contemplação de como é ser criança hoje. Rara é a doçura no olhar, o jeito sapeca de ser e escolher ao seu modo o que se quer ser. Triste reparar que a tecnologia vem ocupando um espaço considerável na vida de meninos e meninas. Pior ainda, é perceber que grande parte dos adultos – pessoas que se proclamam maduras e, portanto, aptos a entender as conseqüências desse fascínio exagerado dos “baixinhos” por aquilo que pouco lhes acrescenta culturalmente e humanamente – acham graça e chegam a sentir orgulho da “esperteza” dos mesmos em preferir um MP5 a um MP3 e saber impor essa decisão. Inegável pensar que essa atitude de homens e mulheres alimenta a visão de mundo que se tem dado às crianças.

Não pregamos em hipótese alguma um não à era tecnológica e seus avanços até porque são relevantes para a sociedade. Sério, sabemos reconhecer isso e não possuímos nenhum discurso anacrônico. Mas não somos passivos ao consumismo no qual nossas crianças têm mergulhado deixando de lado a melhor e mais maravilhosa fase da vida. Não aceitamos criança que não conheça pelo menos uma das travessuras da Emília e da turma do sítio. Não dá para perdoar pais que nunca apresentaram Ziraldo, Maurício de Sousa, Mário Quintana, Antoine Saint – Exupéry e companhia aos seus filhos. Não toleramos porque sabemos e isso não é omisso a ninguém que tecnologia não é matéria barata. Cultura sim vale cada centavo cobrado e por vezes ainda é pouco. Então não dá para aceitar desculpas de quem prefere presentear o filho com um celular faz-tudo ao invés de comprar a coleção de Monteiro Lobato.

Experiências como a leitura na infância vão ensinando a importância da imaginação, dos sonhos, de dar um abraço em quem se ama, de ter amigos, de preferir brincadeiras – que podem ser em grupo – a brinquedos, de querer e lutar por aquilo que se tem necessidade ..., enfim, sensibiliza as crianças para o fato de que com o mundo e as pessoas , seja por meio de uma conversa simples ou de um gesto de ajuda, podemos aprender novidades, a cada dia, que nos aproximam da sabedoria, além, claro, de dar sentido à vida. Parece complicado? Chato? Mas, certamente, tais virtudes são muito mais relevantes do que saber as funções de um produto e por isso desejá-lo, mesmo sabendo que amanhã será substituído por outro mais sofisticado.
Como nossos avós diziam, existem coisas que não podem mudar – nestes casos, o antigo sobrepõe-se ao moderno – pois fazem parte de um estado natural de equilíbrio adequado ao desenvolvimento do ser humano. Ser criança é inevitavelmente uma delas.

André Mendes é aluno do curso técnico em Alimentos do CEFET-MA.
Talita Guimarães é escritora, estudante de Jornalismo e autora do livro infantil Vila Tulipa.

Um comentário:

Talita Guimarães disse...

Olá amigos do "Ensaios...",
aqui um texto escrito junto com André Mendes, amigo do CEFET-MA.
Consumismo na infância é um tema da atualidade que preocupa e precisa ser debatido com mais freqüência.
Tudo para que nossas queridas crianças não se deixem levar pelo mundo difícil de lidar que temos aí fora. Para que não avancem por um caminho sem volta. Para que cresçam sim, mas sem deixar de viver o que há de melhor, a infância.
Boa leitura a todos!!!