domingo, 26 de outubro de 2008

Ensaios da foca...

Debate entre profissionais e estudantes de Jornalismo percorre rumos da comunicação no Maranhão

Três jornalistas atuantes na imprensa maranhense e um delegado de polícia falaram sobre a realidade da mídia no estado, as perspectivas do jornalismo e os desafios que os jornalistas enfrentam diariamente para exercer a profissão com ética e ao mesmo tempo corresponder aos apelos da mídia e da divisão política notória nas redações maranhenses.

Por Talita Guimarães

“A imprensa no Maranhão é sem novidade?”. Com esse questionamento provocador aos jornalistas Gilberto Mineiro, Aquiles Emir e Roberta Gomes e ao delegado Sebastião Uchoa, que Ana Carolina, mediadora da mesa-redonda, iniciou o seminário “A imprensa no Maranhão e no cotidiano da população”, na última quarta-feira (02), às 20h30, na Faculdade São Luís. Com o intuito de discutir os rumos da comunicação no estado, a relação da mídia maranhense com a população e familiarizar estudantes de jornalismo com o exercício da profissão e seus desafios, os palestrantes afirmaram não ser fácil inserir novidades ao cenário da mídia maranhense uma vez que no estado há uma ligação muito forte entre veículos de comunicação e grupos políticos. E além desse fator embarreirar muitos projetos de jornalistas, há ainda o conformismo de alguns profissionais em ao deparar-se com a situação não tentar contorna-la nem sugerir mudanças para a melhoria da produção jornalística local.

Para o jornalista Gilberto Mineiro, que já atuou em assessorias de outros estados brasileiros, na redação de O Estado do Maranhão e atualmente na Rádio Universidade FM, o jornalismo deve “refletir na sociedade intermediando fatos e público de modo a situar o leitor/receptor dos acontecimentos, tornando-o capaz de opinar e gerar conhecimento”. Sobre a provocação do começo do seminário, Mineiro diz-se pessimista em relação à imprensa maranhense, a qual vê “ultrapassada, pobre e sem novidade” e acrescenta ainda que o que falta ao jornalismo do estado, principalmente da capital, é a “permissão” para um jornalismo mais investigativo, que procure a verdade dos fatos ao invés de dar um direcionamento de acordo com as pretensões políticas da linha editorial do jornal. Dessa forma, o jornalista acredita não haver um roteiro ou manual para se fazer uma boa mídia impressa já que no Maranhão é “proibido investigar”. A jovem repórter Roberta Gomes, há três anos na redação de O Estado, concorda com Gilberto Mineiro, mas mostra-se mais otimista em relação ao contorno do quadro de dificuldades impostas dentro das redações ao produzir matérias menos presas a linha editorial do jornal. Para Roberta, o profissional maranhense ainda tem que “quebrar barreiras para a consolidação de um jornalismo mais livre, porque falta sim uma editoria de jornalismo investigativo, assim como são poucas as matérias sobre comportamento, cultura e comentários sobre cinema, música e teatro”. No próprio jornal em que atua, a jornalista vê o caderno Alternativo, dito de cultura, como uma mera agenda de eventos. “A imprensa maranhense insiste em limitar-se à editoria política. Falta muito do jornalista uma atitude que mude esse quadro, que pratique um jornalismo mais sério e compromissado com a sociedade. Falta crítica cultural porque não há espaço para a autocrítica do veículo, para a análise sobre o próprio conteúdo.”

Sob o olhar do Direito, o delegado Sebastião Uchoa reafirmou a relação entre política e comunicação no estado ao fazer um rápido percurso histórico sobre o poder de se comunicar estar detido nas mãos de políticos desde os burgos que manipulavam informações em benefício próprio. Segundo Uchoa “a ética deve transcender as questões legais independente de Lei de Imprensa ou liberdade de expressão”. A mídia como um todo tem pecado por perseguir freneticamente notícias de última hora, furos de reportagem e novidades em nome da audiência. Todo esse furor pelo fato em primeira mão atrapalha os outros setores da sociedade quando feito sem ética, desprovido de profissionalismo. E a polícia constantemente é vítima das ações precipitadas da imprensa. Um exemplo recente de repercussão nacional foi o caso Isabella Nardoni, em que o papel da imprensa na cobertura do caso foi decisivo sob a condenação do pai e da madrasta da menina de seis anos, morta ao cair do sexto andar de um prédio em São Paulo. Trazendo para a imprensa maranhense, o delegado revelou sofrer grande assédio de repórteres em busca de notícias sobre ocorrências e investigações da polícia. E acrescentou a essa fala o fato de há alguns anos ter conseguido esconder o andamento do caso Francisco das Chagas da imprensa por trinta e cinco dias, sendo que Chagas era o serial killer, posteriormente condenado por matar e emascular meninos em várias cidades do interior do Maranhão e do Pará. “Crimes bárbaros atraem a mídia. Há uma grande vontade de noticiar a desgraça e a miséria. É aí que eu me pergunto onde fica a ética profissional, porque tem repórter capaz de ligar na véspera de natal pro plantão querendo saber o saldo de tragédias do ano. Certa vez me irritei e perguntei “vem cá, o amor não vende não?”, porque chega um momento em que esse tipo de abordagem ao outro profissional atrapalha e incomoda. Sem contar dos off’s que acabam sendo divulgados mesmo quando pedidos para não serem veiculados ainda. Essas atitudes podem se voltar contra o próprio jornalista, que em outra ocasião não vai conseguir a entrevista por não ser fiel às fontes.”

Quando o debate foi aberto aos estudantes, para perguntas e comentários, o acadêmico Flávio Rocha direcionou sua pergunta a Roberta Gomes em torno da existência de preconceito por parte de alguns jornalistas em trabalhar editorias diferentes de política, como cultura e comportamento. A jornalista de 23 anos respondeu que sente a ausência da valorização do social do ponto de vista da abordagem humanística, mas que esse problema é encarado por ela como um desafio já que por experiência própria, Roberta já conseguiu flexibilidade de pautas ao demonstrar interesse e capacidade de cobrir matérias da área social. “O jornalista não pode se acomodar e ficar esperando pelas pautas do editor. Se ele quer fazer a diferença tem que produzir e mostrar que pode ser feito diferente. Há algum tempo, cobri por iniciativa própria o Festejo de São João dos Mugundus, no interior. Fiquei pasma com a quantidade de pessoas que acompanhavam a procissão, milhares, sabe? Vi que o festejo era levado muito a sério e que essa religiosidade renderia uma boa reportagem. Não deu outra. Quando apresentei a matéria pronta ao editor, foi manchete de capa!”, conta orgulhosa.

Ainda durante o debate, foram colocadas questões em torno do registro profissional do jornalista, quando comparada a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) ao Direito e as exigências da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); a formação profissional; e novamente o código de ética do jornalista.

Dentro do contexto geral do seminário promovido pela disciplina Laboratório de Mídia Impressa II ministrada pelo professor e jornalista Pedro Sobrinho, ficou para a turma a lição de que não é necessário cursar três anos e meio de faculdade sonhando mudar o mundo pelo jornalismo para quando chegar ao mercado deparar-se com barreiras aparentemente intransponíveis e conformar-se com a situação. Não é preciso deixar de lado ideais de mudança por dificuldades impostas pelo campo de trabalho. Entretanto só será possível reverter o quadro se houver competência para aliar profissionalismo, ética e criatividade ao diálogo com os colegas de profissão para uma melhoria contínua da produção jornalística local e até brasileira. Vale lembrar que a ética não é construída dentro de uma faculdade. “É um valor que vem de berço, das relações sócio-culturais e educativas”, como afirma Gilberto Mineiro, já que pensar e ser correto ao trabalhar com as informações é papel do comunicador social, ainda que pareça um trabalho árduo.

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