domingo, 26 de outubro de 2008

LITERATURA EM FOCO...



Eternidade Literária

Em 2008, Machado de Assis completa centenário de falecimento e reafirma a concepção de imortalidade literária, com uma obra inabalável de leitura obrigatória.


Primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras, escritor notável pela capacidade de abrangência, inteligência inigualável e servidor público atuante. Machado de Assis não fez jus ao possível fracasso previsto por uma infância difícil, de saúde frágil e poucas condições de estudo. Foi o maior autodidata da história, que cresceu empenhado entre leituras e estudos de tudo o que lhe foi acessível. E teve sorte, porque o universo de conhecimento ao seu alcance não foi pequeno e a vontade de alimentar-se de todo ele foi maior ainda.

Foi, a princípio, poeta do Romantismo cujos trabalhos renderam-lhe uma produção mediana, de artesanato poético correto e dentro dos padrões, mas despido de uma originalidade peculiar a nomes como Casimiro de Abreu ou Gonçalves Dias. Por isso, sua poesia é pouco conhecida e até desvalorizada se equiparada aos outros poetas da época e posteriormente colocada lado a lado com o talento de Machado para a prosa. Um de seus primeiros trabalhos publicados foi a poesia “Ela”, no jornal Marmota Fluminense. E o primeiro livro editado também reuniu poesias -“Crisálidas”. Mas somente na prosa, entre contos, crônicas e romances, que Machado projetou-se como grande nome da literatura brasileira não só de sua época, mas de toda a posteridade. “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, romance que inicia o Realismo no Brasil, é considerado seu divisor de águas, pela qualidade literária, maturidade alcançada e a reunião de fortes traços do movimento oposto ao Romantismo. Seus escritos constituem uma obra sólida e universal, analisada e estudada em detalhes por todas as gerações posteriores à sua.

Definir Machado de Assis como o maior gênio da literatura brasileira é um fato incontestável, mas por trás dessa definição há todo um conjunto de motivos que levam a crer na concepção que o considera leitura indispensável. Em tempos de centenário, é inevitável reviver Machado e sua extensa obra, assim como a Academia Brasileira de Letras, com sede no Rio de Janeiro, propõe em seu ciclo de conferências “Machado Vive!”, aberto em abril desse ano e ministrado por imortais da academia. Por todo o país surgem manifestações em torno dos cem anos de falecimento do autor e muito se analisa, discute e comemora em prol de seu legado.

Mas por que seus livros são, ainda hoje, leitura obrigatória a todo estudante sendo que suas análises imprescindíveis estão intrinsecamente relacionadas aos vários campos de estudo, entre eles, filosofia, psicologia, e lógico, língua portuguesa?

A verdade é que 169 anos após seu nascimento e 100 anos após sua morte, seu legado permanece inabalável pela consistência de suas produções. E é sim preciso comentar sobre os aspectos mais relevantes de sua obra que perduram até hoje.

Importante porque construiu um legado único, capaz de ultrapassar caracterizações próprias de uma escola ou outra, Machado é didaticamente enquadrado em duas fases: romântica e realista. Na primeira fase escreve poesias, marcadas pela descrição do desejo pela glória, estilo comum da época, passando ainda por contos e peças sob olhar romântico. Ainda que menos dotado de romantismo que os autores declarados adeptos do movimento, seus primeiros trabalhos são sim parte integrante da escola romântica, mas com uma pitada a menos das características predominantes, como a idealização ou olhar sonhador. Machado diferencia-se, principalmente, por criar personagens femininas menos submissas e mais heroínas, de caráter definido e atitudes crescentes nas narrativas, fato esse que propicia aprofundar parte do contexto da história na concepção psicológica das personagens, permitindo ao leitor passear por seus pensamentos, vontades e desejos.

Aliás, um dos trunfos de Machado de Assis é a constante abertura para que o leitor opine, intrigue-se ou duvide de algo durante a leitura, trazendo-o para dentro da história como um observador que decifra cada linha do texto junto ao decorrer dos fatos. Lacunas são postas entre os acontecimentos, aspecto que casado à narrativa psicológica dos personagens, deixa a quem lê a sensação de participar da história e ser capaz de interpretá-la de modo muito pessoal. Gostar ou não gostar do livro também pode ser definido por esse ponto excepcionalmente machadiano. Uma prova disso é a famosa versão do conto “Missa do Galo” intertextualizado por Lygia Fagundes Telles. Fazendo-se um cotejo entre os dois textos, constata-se que ambos possuem uma relação direta em seus temas, uma vez que Lygia parafraseia Machado de Assis de um modo bastante autêntico. A partir da introspecção, peculiar a autora, a versão século XX do conto machadiano apresenta todo o cenário criado pelo autor e adiciona à história o olhar de um terceiro personagem, narrador, que mescla o enredo original com comentários onipresentes. Além dessa visão, Lygia propõe a continuidade das obras de Machado, já que o autor dá ao leitor a possibilidade que beira a liberdade para comentários que recriem e reformulem seus textos. O que basicamente Lygia faz é recontar a narrativa sob a ótica da multiplicidade característica da obra do autor, o que dá espaço a novas interpretações e adaptações.

Já na fase realista Machado alcança seu melhor momento, publicando o romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880) que inicia oficialmente o Realismo no Brasil, com a ousada linguagem e apresentação do enredo, narrado pelo próprio defunto, Brás Cubas, quebrando de vez os parâmetros do romantismo. O mesmo livro foi adaptado três vezes para o cinema: 1967, 1985 e em 2001, tendo sido a última a adaptação mais fiel à obra, com Reginaldo Faria interpretando Brás Cubas sob a direção de André Klotzel.

Uma de suas obras mais famosas, escrita durante a fase realista, é o romance “Dom Casmurro”, obra literária brasileira das mais traduzidas para outras línguas cuja história gira em torno de Bentinho e sua narração em primeira pessoa dos fatos que ocorreram em sua vida desde a adolescência, passando pelo início de sua paixão pela vizinha e amiga de infância Capitu, até a velhice solitária. É em “Dom Casmurro” que Machado trava um dos maiores diálogos com o leitor, através da narração permeada pela metalinguagem e o decorrer de fatos sempre sob a vista do protagonista, onde o que há por trás do que Bentinho pode conhecer ou enxergar fica de presente ao leitor como o mais famoso enigma da literatura brasileira: terá Capitu cometido adultério em sua vida conjugal? Bentinho sempre acreditou na traição e Machado nunca revelou a verdade sobre o fato de Ezequiel, suposto filho de Capitu e Bentinho, ser o possível fruto do adultério da esposa com seu amigo Escobar. Assim, resta ao leitor desfrutar do livro e tirar suas próprias conclusões a respeito já que “Dom Casmurro” é uma obra-prima da literatura brasileira com seu enredo envolvente e enigmático.

Por tudo isso, faz-se necessário considerar a existência de uma obra tão forte quanto imortal de alguém que conseguiu eternizar-se por suscitar debates e análises novas a cada dia. Seus escritos constituem uma obra sólida e universal, analisada e estudada em detalhes por todas as gerações posteriores à sua. Assim, entende-se que Machado de Assis é sim um imortal da ABL de obra indiscutivelmente “leitura obrigatória”, mas antes de tudo é eterno pelo que soube deixar de melhor à sociedade.

Talita Guimarães é estudante de Jornalismo da Faculdade São Luís e autora do livro infanto-juvenil Vila Tulipa.

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