sábado, 8 de novembro de 2008

RESENHA EM FOCO

RESENHA DO FILME “CIDADÃO KANE”
Por Talita Guimarães

Sob direção, produção e co-autoria de Orson Welles, o filme “Cidadão Kane”, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro, retrata mais do que a busca de jornalistas por preciosas informações para uma grande reportagem em torno de um fato de impacto. O longa é um retrato autêntico e ousado, para época de seu lançamento, do percurso de um homem bem sucedido perante a sociedade, mas que mesmo detentor de poder e influência não teve oportunidade de ser o que mais importa ao homem: feliz.

O filme começa com a cena de uma morte e um último suspiro onde a estranha expressão “rosebud” é pronunciada. A partir daí é mostrado ao espectador um pequeno documentário sobre a vida de um poderoso empresário da área de comunicação chamado Charles Foster Kane. Quando o documentário termina, a cena se volta a um grupo de jornalistas que assistiram à projeção e têm a incumbência de escrever uma reportagem sobre a vida, obra e morte de Kane. Para produzir o diferencial não caindo na praxe do simples percurso biográfico da autoridade que morreu, o chefe do grupo ordena ao repórter Thompson que direcione a reportagem a partir do conhecimento da palavra que Kane pronunciou ao leito de morte. Para isso é necessário que o repórter vá em busca de informações mais detalhadas sobre o falecimento do empresário e sobre os aspectos mais íntimos de sua vida fora as redações. Thompson inicia então uma verdadeira investigação em torno da vida de Charles Kane e durante as cenas de conversas com todas as principais pessoas do círculo de relacionamento do jornalista, o roteiro do filme entrelaça a história de vida de Kane com a técnica do trabalho jornalístico, de saber como procurar, como lidar com as fontes e a descoberta sob olhar humanístico de como foi o desenrolar da vida do protagonista.

Dentro desse contexto é possível acompanhar os dois lados da vida de Kane que se entrelaçam intimamente: o pessoal que leva ao profissional. Quando criança, Charles foi vendido a um grupo de magnatas que pretendiam molda-lo para o capitalismo e a área empresarial. Com efeito, Kane torna-se dono de um verdadeiro império da área de comunicação e apesar do sucesso e influência nas redações e com a repercussão de seus jornais na população, tem sua vida política, quando tenta por vontade própria inserir-se nela, frustrada. Vários outros aspectos de sua vida são apresentados como pontos em que Kane se sente abatido e pára diante do pensamento sobre o que o faz estar ali naquela posição de autoridade. Toda a sensibilidade e orientação necessária à infância são deixadas de lado, usurpadas de Kane quando seus pais aceitam dinheiro em troca de entregar o filho para nunca mais vê-lo nem manter contato. São fatores determinantes na formação do caráter do adulto que ele virá a ser. Um homem preparado para o capitalismo e o poder. Maior exemplo de poder é ter nas mãos o dom da palavra e do manejo de informações, como é seu caso. O acúmulo de capital e ambição faz Kane construir um império material muito sólido, como é o exemplo do teatro que constrói à amada, cantora pouco privilegiada pela voz, mas muito elogiada pela crítica de Kane aos seus recitais, ou a mansão Xanadu, local que reúne obras de arte e itens preciosíssimos do mundo material, mas abriga também toda a solidão do jornalista.

Por tudo isso, todo o filme consegue em 119 minutos de duração compor a imagem de um homem que perdeu a infância para construir um império que o fizesse esquecer a importância de brincar, amar, ser terno com a família e os amigos, e vivenciar momentos simples como andar de trenó na neve. Aliás, a resposta buscada por Thompson pelo significado de “rosebud” é revelada apenas ao espectador de “Cidadão Kane” nas cenas finais em que todos os móveis e objetos da mansão de Kane são queimados. Entre eles um trenó, que remete à cena em que Charles criança assiste aos pais tratarem da venda. É a expressão do desejo íntimo e último de ser criança. É o suspiro pela marca de trenó e a sensação de usá-lo em um bom dia de muita neve. Trata-se da vontade de ter essa recordação sob outro formato e fim, roubada por empresários de um capitalismo selvagem e sem ternura.

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