sábado, 1 de novembro de 2008

POLÍTICA EM FOCO...

“Os conscientes também votam?”

“Caro eleitor, participar conscientemente de uma eleição é um ato de cidadania. Vote consciente”. Durante o período de campanha eleitoral é realmente de praxe, e também muito conveniente veicular tal concepção a fim de conscientizar a população da importância do voto. Muito relevante expor que uma escolha errada acompanhará o eleitor durante longos quatro anos. Entretanto, toda essa mobilização de louvável iniciativa também deve estar incluída no papel dos candidatos no decorrer da campanha. Porque na atual conjuntura brasileira, a forma como os candidatos se apresentam e o modo como conduzem e promovem a própria imagem têm deixado complicada a situação do eleitor, que na qualidade de consciente, tenta encontrar quem se enquadre em um parâmetro merecedor de voto já que os ideais de consciência e cidadania têm esbarrado com freqüência na mediocridade dos candidatos.


Escolher um aspirante ao governo é uma tarefa árdua, uma vez que todos aqueles que se apresentam ao cargo raramente correspondem às expectativas. Basta começar a analisá-los pelas campanhas: músicas, panfletos, enfim, poluição sonora e visual. E o que realmente conta na hora da escolha, o que de fato diz respeito ao cidadão, pouco é exposto: planos de ação. Há quem proponha com imensa cara-de-pau resoluções forçadas, “sem pé nem cabeça”, que de tão absurdas ofendem a capacidade de discernimento do eleitor. São coisas do tipo: SOS tapa-buraco, curso pré-vestibular para bairros pobres, e por incrível que pareça, ar-condicionado nos ônibus da capital. Quando não tão absurdas (como cursos para áreas carentes), as propostas são apresentadas como soluções pouco eficientes, já que se sabe que o investimento em educação deve ser feito em programas de governo para boas escolas públicas. E não pára por aí, existem candidatos cujas propostas são zero, conhecimento em torno da função é mínimo e que pelo simples fato de receber um cumprimento seu na rua, sentem-se à vontade para pedir voto. Fora os que reúnem coragem para divulgar promessas de tamanha grosseria sem que a consciência grite ou que soltem despreocupadamente exclamações do gênero “Calma, uma coisa de cada vez! Primeiro a campanha, depois, se eu ganhar, as propostas!”. Parece surreal, se levado em conta o rótulo de país livre, democrático e de pessoas conscientes. Mas ainda é necessário comentar sobre um outro elemento irritantemente peculiar ao período eleitoral: o constante estardalhaço em vias públicas com músicas frívolas e carreatas barulhentas que sempre esquecem do principal: apresentar a quem vota (e não vota também) o que pode ser feito para a garantia da qualidade de vida na cidade. E agora? Você vai encarar a urna com uma responsabilidade de que tamanho? São quatro anos... Depois a culpa é de quem vota... O destino da sua cidade está em suas mãos...

Diante desse terrorismo todo é impossível não desejar que as eleições acabem logo. Às vezes, no ápice da indecisão, é comum nos perguntarmos: os conscientes também votam? Para a maioria dos políticos, certamente, não. Tudo começa com a abordagem do candidato ao eleitor. Afinal, nomear um representante tomando por base apenas as propagandas veiculadas nas ruas é uma lástima dada à falta de qualidade das propagandas e respeito pela inteligência do cidadão. A começar pelas tais músicas, todas, diga-se de passagem, inúteis em letra e ridículas em melodia. Outro fator que depõe contra o candidato na difusão desses jingles é o respeito pelo volume e o horário de percorrer as ruas, fora a disputa sonora dos carros de som de inúmeros candidatos que toma conta das avenidas nos momentos mais conturbados do trânsito, construindo um cenário de puro caos sonoro e nenhum entendimento. Ora, pouco importa ao eleitor comprometido conhecer o número do candidato. Essa é a última coisa que se deve procurar saber uma vez que o mais importante são os projetos, o empenho e o conhecimento de causa do futuro governante. Que garantia há em um candidato que só apresenta o número para votar quando nada se sabe sobre ele? Seu percurso político, suas ações dentro da comunidade, seu caráter, tudo contará no prefeito que ele pode vir a ser e nas atitudes que ele irá tomar e que influenciarão na vida de toda uma cidade.


Um comício aqui, uma caminhada ali, responde à sabatina, dá entrevista, posa para foto, assim o candidato segue uma agenda divulgada diariamente. Mas ao fim, se você pergunta ao primeiro eleitor que encontra em quem ele votaria e o porquê de sua escolha baseando-se no conhecimento dos projetos do candidato, raro é aquele capaz de responder com convicção. Falta atenção? Falta. Mas a ausência de debates e interação com o povo é um fato, prova de que a política continua no mesmo caminho desgastado e sem efeito de sempre, nos quais grupos distintos ofendem-se, semelhantes elogiam-se e candidatos ainda aparecem afirmando que “agora vai!” sem explicar direito para onde.

O candidato compromissado com a mudança para melhor é aquele que vai até as pessoas e se interessa em conhecer suas necessidades dentro da comunidade. É aquele que mais do que um conhecedor de causa, vivencia as dificuldades e por isso conhece os pontos falhos e é capaz de desenvolver boas resoluções. Mais do que um representante, o governante é um profissional habilitado para administrar uma cidade gerenciando planos em benefício de todos, afinal todas as pessoas têm as mesmas necessidades básicas para uma vida digna, o que acontece é que a má distribuição do suprimento dessas necessidades degringola com as desigualdades sociais.

E se para quem já vota há anos é difícil tomar essa decisão entre tantos candidatos, para quem vai votar pela primeira vez e se preocupa com isso é uma verdadeira temeridade. Tudo porque o jovem carrega em si o desejo de mudança, de ir em busca do novo e encontrar melhorias. Votar pode ser uma boa chance de pôr essa vontade em prática, mas acaba por ser um dever penoso imposto pela sociedade civil. E há vários motivos para crer nisso: primeiro que o voto não é opção, é obrigatório. Segundo que constitui uma responsabilidade em torno do rumo que a política tomará na cidade. Terceiro que acostumado à mesmice, à massificação dos ideais poderá cair no erro gravíssimo de vender o voto ou escolher um representante aleatoriamente, demonstrando com essa atitude imaturidade e deslealdade consigo mesmo.

Por tudo isso é preciso que a consciência em torno das eleições não parta apenas de quem vota, mas também, e principalmente, de quem se candidata já que uma campanha limpa é capaz de gerar posicionamento. Sendo assim deve ser traçada com base na verdade em torno do candidato e isso conta a favor quando conseguimos escolher um profissional da política pelo conhecimento que temos sobre ele e nos identificamos com seus ideais acreditando na possibilidade de colocá-los em prática. Pois, por incrível que pareça, os conscientes também votam e ainda podem ser a maioria.

André Mendes é aluno do curso técnico em Alimentos do CEFET-MA
Talita Guimarães é estudante de Jornalismo da Faculdade São Luís e autora do livro Vila Tulipa.

Um comentário:

filosofia com arte disse...

Caro André, parabéns, pela excelente reflexão trazida à luz de uma análise contextualizada da política, e mais propriamente o foco das eleições, que necessita estar em constante debate na cidade, nas escolas, na família, na praça, nas igrejas, nas associações de moradores, enfim, na praça (ágora, o lugar do debate público por excelência. Parabéns, e obrigado pela valiosa contribuição. Obrigado, também à Talita pelo espaço garantido. Abraços em todos, Jorge Leão