domingo, 16 de novembro de 2008

Quando nasce o seqüestrador, morre um ser humano


- Sobre o tratamento do caso Eloá e o filme “O Quarto Poder”

Por Talita Guimarães

Um seqüestrador, reféns, horas de negociação, polícia e mídia em grande quantidade aos arredores do cativeiro. Um cenário que pode ter sido construído por um filme, gerado por uma atitude mal pensada ou ampliado por uma imprensa ávida por notícia. Na atualidade não é difícil assistir a casos como esse, cujo drama pode ser apenas ficcional divulgado por um filme ou novela, ou ainda muito real, vindo da rua perto de casa e transmitido ao vivo para todos os cantos do mundo por grandes redes de televisão.

No cinema, o filme que retrata a cobertura da mídia de um ângulo importante e determinante para a opinião pública é “O Quarto Poder” cujo roteiro apresenta o caso de um seqüestrador construído, guiado e orientado por um repórter experiente, mas oportunista. O enredo principal gira em torno de Sam Baily (John Travolta), um vigia de museu desesperado pelo emprego injustamente perdido que tenta negociar com a chefe a readmissão. Entretanto uma vez mal interpretado e desorientado, Sam deixa-se levar por atitudes mal pensadas (aponta uma espingarda na direção da diretora) e por causa de seu nervosismo acaba passando por seqüestrador e cedendo à negociação convincente do jornalista Max Brackett (Dustin Hoffman), que no papel de um refém, usa de seu status profissional para elevar pontos de audiência em sua emissora como correspondente exclusivo, de dentro do cativeiro. No entanto, o repasse das informações de Max recria a imagem do vigia perante a sociedade como um seqüestrador que tenta conquistar o coração das pessoas pelo drama de um pai de família desempregado e que ainda usa crianças como reféns no local.

Em momento algum é permitido ao personagem, dentro das negociações internas entre ele e o jornalista, dialogar com a diretora do museu que o demitiu, nem é apontado como solução o simples fato de sentar e conversar para resolver de fato o que está pendente. O interesse maior de quem detém o poder da comunicação nas mãos fica focado apenas na cobertura do desenrolar do evento aguardando por conseqüências de preferência inéditas na história e previsivelmente catastróficas. Tampouco é sugerido que um tente entender as razões do outro por mais que cada um tenha sua opinião a respeito.

Rapidamente a imprensa toma conta do local e armada de câmeras fotográficas e de vídeo realiza a cobertura completa de um seqüestro furo de reportagem: “Vigia mantém reféns no Museu de História Natural. Entre eles, um grupo de crianças.” Assim o simples desempregado surge diante da sociedade como um verdadeiro criminoso inescrupuloso. A mente de Sam, que não previra nem tivera intenção de gerar tudo isso, enlouquece diante da transformação de sua imagem perante toda uma nação. O próprio personagem não aceita o papel que lhe é dado na história contada pelos noticiários, mas ao mesmo tempo não encontra palavras para retratar-se perante a sociedade que acompanha seu drama em tempo real. Após horas de negociação com a polícia, Sam, na verdade pai de família amável e bom, libera seus reféns, mas não consegue se perdoar pela situação criada e permanece no cativeiro ameaçando quem se aproxima. Sua vida foi exposta para todo o país, sua família concedeu entrevista mostrando não reconhecê-lo pela atitude, e talvez o maior de seus pesadelos agora se torne realidade: um ódio crescente irrompe por todo o país vindo de pessoas que nem o conhecem, mas o condenam irrevogavelmente. A seqüência leva ao inevitável desastre: sozinho no museu, Sam explode o prédio suicidando-se diante dos olhares e das câmeras ansiosas pelo desfecho.

Pior do que contar o fim desse drama sabendo que se trata de uma verdadeira tragédia precisamente evitável é admitir que o roteiro do filme não permaneça apenas nas telas de cinema, mas pelo contrário, venha baseado de fatos reais, que acontecem a todo o momento em todos os cantos do mundo.

O caso mais recente vem do interior de São Paulo, da cidade de Santo André no ABC paulista. Um jovem dito apaixonado tenta reaver o término do namoro, mas a moça não admite conversa pois está decidida a não reatar. Talvez o modo como tenha dito isso ao rapaz não tenha sido claro o bastante para que ele fosse capaz de entender e aceitar, fato esse que o leva a usar a força para convencer a ex-namorada de que o romance ainda é possível. O drama narrado acima com palavras quase literárias não teve um desfecho digno do happy end dos amores impossíveis da literatura. Trata-se do dramático seqüestro vivido pelas estudantes Eloá Pimentel e Nayara Rodrigues , ambas de 15 anos, durante as 100 horas de cativeiro ocorrido no mês de outubro desse ano.

A cobertura do caso rende a discussão em torno da influência que a mídia exerce sob a formação de opinião de toda uma sociedade e por que não dizer no desenrolar dos fatos noticiados também. A partir da primeira nota sobre o cárcere privado no qual estavam submetidos quatro estudantes sob poder de um jovem de 22 anos, não cessaram suítes e reportagens em torno do desenrolar do seqüestro. A população acompanhou o caso e conheceu a história de Eloá Pimentel e Lindemberg Alves. Descobriu que o romance entre os dois começou quando a estudante tinha apenas 12 anos e que agora aos 15, terminara o namoro sem que o rapaz se conformasse. Os dias que seguiram, mostraram que as reféns eram amigas desde a infância, tanto que uma vez liberada, Nayara tentou voltar ao cativeiro na condição de apaziguadora, mas pela inexperiência de seus 15 anos e descuido da polícia retornou à condição de refém ao entrar novamente no apartamento.

A sociedade alimentou expectativas pelo desfecho e começou a criticar o andar da carruagem quando chegaram as primeiras notícias de que Eloá discutia com o rapaz sem considerar que ele estava armado e desajustado emocionalmente. Durante o cárcere, a refém ainda apanhou de Lindemberg por não fazer o que ele pedia e respondê-lo mal. Policiais falaram com o seqüestrador pelo telefone e passaram a gravação aos jornalistas. Na conversa, Lindemberg fala ressentido que a ex-namorada é egoísta e que nada daquilo estaria acontecendo se ela apenas tivesse parado para conversar direito com ele. Entre um momento de lucidez e outro, o seqüestrador solta que ouve a voz de um anjinho e um diabinho brigando pela decisão dele sobre o desfecho: um diz “solta a moça e se entrega” e o outro “vai em frente...”. Nesse ponto da transmissão, os programas de televisão começam a entrevistar psicólogos e especialistas que expliquem as atitudes de Lindemberg e tentem prever o desfecho, já que já são quatro dias de negociação e nenhum sinal de fim próximo. A sociedade assiste a entrevistas com os familiares das reféns e do seqüestrador, descobre que as moças são estudantes admiradas pelos colegas e professores, que Lindemberg joga futebol e que até então era um rapaz normal para quem o conhecia.

A corrida por mais notícias em torno do caso leva a imprensa a mudar-se para os arredores do prédio. Repórteres são chamados ao vivo na programação matinal das tv’s para apenas narrar a movimentação do local (carros de polícia que chegam e saem, refeições que são entregues ao seqüestrador, e que tudo em termos de negociação continua na mesma...). Alguns fazem os links dos melhores lugares que encontram onde o que importa é o melhor ângulo que mostre a janela do apartamento mais noticiado da semana, não importando se esse lugar é o apartamento de uma outra família vizinha.

Assim, a mídia traz todas as notícias principais e secundárias do caso. Informa do passado dos envolvidos, expõe suas relações sociais e colhe informações sobre suas personalidades. Entrega a milhões de espectadores uma história em detalhes, sem se preocupar que os protagonistas fazem parte de uma realidade que se apresentará com toda uma visão muito particular sobre eles depois que tudo terminar. As informações levam os cidadãos que assistem à tv e ouvem ao rádio para dentro da notícia. Torna-os capazes de emitir opinião sobre o fato e incluir o assunto nas rodas de conversa mais corriqueiras de seu cotidiano. Rapidamente aparece quem deseje o término pacífico do caso, com o seqüestrador se entregando e liberando suas reféns da melhor forma possível. Mas se de um lado há quem tente desculpá-lo pelo tresloucado gesto (“um rapaz abalado pelo término de uma paixão de adolescentes...”) do outro há quem o condene antecipadamente (“um louco que nunca mais conseguirá emprego depois dessa atitude que representa perigo à sociedade...”). Difícil encontrar quem aponte a solução para um desfecho sem grandes transtornos. Logo, a demora no término (o seqüestro já caminha para o quinto dia de duração) forma opinião sobre o trabalho da polícia e sua dificuldade em lidar com esse tipo de caso.

Perto de completar 100 horas de cativeiro, surge a informação de que o pai de Eloá é um foragido da justiça. Quando o senhor passa mal na quinta-feira e é levado ao hospital, a imprensa grava sua imagem que é reconhecida por policiais de Alagoas. Mais combustível para os noticiários porque logo depois, é constatado que ele fugiu do hospital e encontra-se novamente foragido. Mais informações sobre a família de Eloá são investigadas e enquanto isso a menina continua refém ao lado da melhor amiga, sofrendo nas mãos do ex-namorado.

Finalmente, no final da tarde de sexta-feira, a polícia decide invadir o cativeiro. Uma explosão abre a porta com dificuldade e permite que o esquadrão da PM entre no apartamento. Tiros são disparados e alguns momentos depois Nayara sai correndo acompanhada de policiais que carregam Eloá aparentemente desacordada e banhada em sangue. Pouco depois há uma luta envolvendo muitos policiais que tentam imobilizar o seqüestrador. É o tão esperado desfecho? Do cativeiro, sim, mas não da história, agora sempre referida como Caso Eloá.

Lindemberg é preso, mas transferido de cela por rejeição dos outros presos. Nayara realiza cirurgia para remoção da bala que a tingiu no rosto e Eloá, em estado grave, permanece em coma, vítima de dois disparos: um na cabeça e outro na virilha. No domingo vem a notícia de sua morte e da decisão da família em doar os órgãos. Mas material para a imprensa: ir atrás dos receptores já definidos, cobrir o velório e o enterro da moça e esperar pela saída de Nayara do hospital.

Enquanto isso, a mídia reúne especialistas em segurança para falar sobre a decisão de invadir o cativeiro e encerrar o cárcere privado mais longo da história do estado de São Paulo. De repente surgem inúmeros meios diferentes de solucionar o caso sem resultar no mesmo desfecho alcançado. Muitos especialistas dão conselhos variados sobre a melhor forma de lidar com seqüestro e ninguém parece considerar a atitude tomada como forma necessária naquele momento. Tampouco foram capazes de se pronunciar durante os momentos de tensão para colaborar com o trabalho em prol de um término pacífico, se não pelo menos sem mortes.

Por tudo isso, fica a indignação pelos que criticam e os que depois de tudo terminado (e da pior forma possível) acham soluções melhores ou dão palpites de como a polícia deveria ter agido. Pouco útil agora, depois da morte da menina, da prisão do rapaz e do emocional profundamente abalado das famílias.

Toda a movimentação dos dias anteriores foi transmitida ao vivo pela televisão e aqui cabe o espaço para alguns questionamentos: Lindemberg não terá acompanhado o caso pela televisão do apartamento? Não terá visto sua própria vida exposta para todo o país e acompanhado a formação de uma sociedade que o acabara de conhecer como seqüestrador? Mais do que isso, essa cobertura toda não terá interferido no trabalho dos negociadores da polícia? Sim, porque toda a ação policial era acompanhada de perto por jornalistas que informavam a todo instante a situação e o andamento do caso. Lindemberg pode ter sido muito bem informado e ao mesmo tempo ficado muito mais abalado com a situação formada e ampliada pela imprensa. Por outro lado, pode ter sido valorizado em demasia, suficiente para sentir-se no direito de exigir demais e alongar a situação até perder o controle e esquecer o objetivo que o levara a criar todo aquele transtorno.

Agora é necessário rever a atmosfera criada em torno do seqüestro como fato realmente merecedor de tamanha cobertura jornalística e do tratamento dado à vida dos envolvidos. Fazendo-se um cotejo com o filme citado percebe-se a urgência na necessidade de reflexão em torno do poder da mídia e da sólida alcunha de Quarto Poder - talvez um dos mais fortes e perigosos se tratados com displicência e falta de ética.

Por tudo isso, vale pensar no filme - seu roteiro e a boa representação do abalo psicológico do personagem de John Travolta - assim como no exercício da profissão pelos jornalistas que insistem em tratar a sociedade como uma fonte inesgotável de espetáculos e sensacionalismos em busca de lucro, audiência e causas ideológicas pouco nobres.

Um comentário:

Talita Guimarães disse...

Uma análise que levou dias para ser concluída...entre ganhar forma... levou duas semanas para desenvolver as idéias... comparar com o enredo do filme... e reunir tempo e local para escrevê-la, revisá-la e considerá-la digna de uma postagem no blog.
Surgiu muito mais da observação de quem acompanhou um cárcere privado noticiado em demasia pela mídia e esteve por coincidência estudando conceitos como Perseu Abramo em "Padrões de Manipulação da Grande Imprensa", Hipótese da Agenda Setting e ainda assistiu ao filme "Quarto Poder".
Talvez -talvez nada - com certeza ficou um pouco extensa, mas serve de alerta pela gravidade da situação encontrada e que preocupa quem estará se inserindo nesse meio daqui a alguns anos.