domingo, 23 de novembro de 2008

Quem foi que disse que blog não é lugar para jornalista?


- Considerações sobre o exercício do jornalismo e a relação blogueiro-jornalista na blogosfera.
Por Talita Guimarães

Em setembro de 2008, a Revista Imprensa – renomada publicação da Imprensa Editorial – causou furor entre profissionais, estudantes de comunicação e internautas quando trouxe como matéria de capa, da edição do seu 21° aniversário, a manchete “Blogueiro não é jornalista”. O debate, bem colocado diante do atual cenário de avanço e democratização do uso das tecnologias, leva a pensar sobre a regulamentação profissional dos jornalistas e também sobre a quem pertence o exercício oficial da profissão em vista do crescimento de recursos cujo uso se confunde com a prática jornalística.

Em um contexto geral não é difícil notar a presença de profissionais de várias áreas atuando como jornalistas. São médicos, advogados, economistas e esportistas que entre outros vão ocupando espaço na mídia com comentários sobre suas áreas em editorias que deveriam por excelência ser cobertas por jornalistas especializados. Por mais que cada um desses profissionais tenha amplo conhecimento sobre a área em que atua não cabe a eles – nem deve caber – a produção de reportagens e matérias no campo de atuação de quem foi preparado para comunicar durante quatro anos de uma faculdade. Principalmente porque o conhecimento específico de um economista, advogado ou médico não compreende as estratégias e técnicas da produção jornalística necessárias ao exercício da profissão e trabalhadas na academia na formação de profissionais habilitados.

Por tudo isso, a matéria veiculada pela Revista Imprensa volta o olhar da sociedade para o alto crescimento da blogosfera e a visão que se tem sobre quem a produz, pois o conteúdo veiculado nos blogs faz uso de uma ferramenta peculiar ao jornalista: a palavra escrita na veiculação de informações por meio da internet.

Em suma, blogs são sites de facílima utilização que permitem por meio da interatividade a rápida edição de textos com liberdade de escolha do conteúdo. Assim, qualquer pessoa que disponha do recurso pode criar uma página pessoal com a exposição do assunto que melhor lhe convir. Pode tratá-lo como um diário virtual, onde registra suas impressões pessoais como dia-a-dia, relações, trabalho, família e sentimentos; ou um espaço dedicado a uma temática específica – arte, cinema, literatura, política, personalidades, etc. Em ambos os casos não é exigido diploma algum, tampouco é a intenção do espaço. O blog funciona muito mais como um expediente para publicação de idéias e pensamentos livres, desprendido de técnicas ou linhas editoriais e aí está a primeira e talvez principal diferença da prática jornalística. No jornalismo não é permitido especular nem publicar idéias imprecisas ou mesmo subjetivas já que esse campo trabalha com dados factuais, em busca da descrição o mais fiel possível de um retrato da sociedade, ainda que os critérios adotados sejam em grande parte considerados ideais – objetividade, imparcialidade e neutrabilidade.

Há quem, dentro da blogosfera, não seja comunicólogo por formação, mas mantenha espaços de conteúdo informativo tão bom quanto os que poderiam ter sido produzidos por um jornalista e aí começa a confusão em torno da produção ser ou não considerada jornalística e quem a produzir poder ou não ser chamado de jornalista. Primeiro é preciso esclarecer o que é a atividade jornalística e quem pode exercê-la tendo por conseqüência imediata ser chamado de jornalista.

A saída para esse dilema está no simples fato dos blogueiros definirem posições perante a sociedade na rede. Portanto, quem resolve criar um blog deve ter em mente a proposta que o motiva a fazê-lo e de preferência dize-la na faixa de descrição do espaço. Quem é jornalista e resolve manter um espaço desses na rede deve deixar claro aos visitantes qual é a intenção do blog produzido. Se é veicular material jornalístico – já que o blogueiro em questão tem formação para isso – ou manter um espaço com pensamentos mais pessoais, livres do tratamento característico de um jornalista. E para quem não é formado em comunicação deve haver o bom senso de informar a quem lê as postagens de seu blog que quem o produz não é jornalista e que o material exposto é fruto do interesse pelo assunto aliado ao domínio da produção textual.

Desse modo, entende-se que um blog e um jornal, por exemplo, têm finalidades distintas. O que não impossibilita o diálogo entre seus produtores preservando as devidas funções. Pode-se, inclusive, considerar a manchete de Imprensa como uma premissa a ser complementada: Blogueiro não é jornalista, mas todo jornalista pode vir a ser um blogueiro. Para facilitar, basta que todos – jornalistas, blogueiros, internautas, sociedade – saibam que nem tudo o que se escreve é de fato conteúdo jornalístico e que cabe a cada um que se propõe a veicular conhecimento esclarecer a verdade sobre a formação e a intenção de quem está por trás das letras e idéias. Cabe a todos não confundir a prática profissional com a expressão pessoal. Afinal a liberdade de cada indivíduo pode sim estar no espaço que ele dispõe para exteriorizar o que pensa e sente. E se blogueiros e jornalistas devem ter algo em comum que seja o aspecto positivo e politicamente correto de ser ético no tratamento de suas respectivas temáticas abordadas. Para que a paz entre os homens perdure também no ciberespaço.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi tata
Parabéns o blog está excelente. Não preciso dizer que vc tem um ótimo texto.
Crítica: Sinto falta de fotos ou ilustrações.
Té mais

Saulo Galtri

Talita Guimarães disse...

Olá Saulo,

obrigada pela visita, o "Ensaios..." adora receber comentários de focas do jornalismo maranhense.
Para quem não sabe, Saulo Galtri é acadêmico do 3° período de Jornalismo, um excelente tenor da nossa música lírica e também um exímio fotógrafo. Pertence a ele o crédito da minha foto aqui no blog - no espaço "Quem é a ensaísta?" e também no livro Vila Tulipa. Gostaria portanto, de convidá-lo a colaborar conosco nas postagens de fotos e ilustrações, pois o que tem impossibilitado esse complemento visual é justamente a ausência de um bom fotógrafo.
Desde já fica o convite!

Mais uma vez, obrigada e continue nos visitando!

Talita Guimarães