quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ensaios da Foca... (Reportagem especial)

Quando ensinar representa uma experiência de aprendizagem viva II
Ele é professor, orienta projetos de pesquisa, coordena o ensino médio e técnico do Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão (CEFET-MA), organiza mostras de exposição científica de caráter local, regional e nacional, acompanha comissões de alunos em viagens para exposição de trabalhos em congressos e ainda desenvolve pesquisa em torno de física aplicada com projetos em processo de patente, artigos submetidos a revistas científicas e publicações nos Cadernos Temáticos do Ministério da Educação (MEC). Com toda essa bagagem, a última coisa que falta ao professor Fábio Sales é fôlego para enumerar projetos e trabalhar intensamente na execução de cada um.

Por Talita Guimarães

Antes de descobrir que a ciência seria um forte caminho para o desenvolvimento de muitos projetos até a realização profissional, o atual Coordenador de Articulação do Ensino Médio e Técnico do CEFET-MA, professor Fábio Henrique Silva Sales de 39 anos, passou pela dúvida comum entre os jovens quanto à escolha da carreira pela qual gostaria de seguir. Passeou da medicina ao serviço militar e não foi por falta de inteligência que não permaneceu em nenhuma dessas áreas. Na medicina, a eterna idéia de trabalho em contato com sangue fez com que o jovem desanimasse, já na carreira militar, chegou a ser aprovado para a Aeronáutica, mas sentiu que ainda não estava na área de sua vocação.

Somente quando cursou Eletrotécnica na então Escola Técnica Federal do Maranhão (ETEF-MA) – atual CEFET-MA - que Fábio Sales descobriu a aptidão para física e o gosto pelos estudos referentes à eletricidade. Foi aí que sentiu finalmente "aflorar o cientista", como ele mesmo definiu.

Licenciado em Física pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em 1993, com mestrado e doutorado em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 1997 e 2004, respectivamente, ainda na graduação começou a trabalhar como professor de matemática para o ensino fundamental de uma escola do município de São Luís. "Sempre achei a carreira de professor muito bonita", afirma e acrescenta que a influência para o magistério vem da família, onde o professor encontra inspiração nos pais, tias e irmãs, todos atuantes na educação.

Paralelamente ao magistério, o Fábio cientista procurou aliar sua preocupação com a qualidade do ensino ao desenvolvimento de projetos de pesquisa na área experimental com base na física aplicada. Durante a graduação, foi bolsista do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) desde o 2º período, desenvolvendo um trabalho sob orientação do Professor Antônio Pinto Neto tão bom, que a bolsa foi estendida até o fim do curso, o que na época constituiu um feito raro entre estudantes de física. Antes de cursar o mestrado - em Física da Matéria Condensada pela UFRN - o professor viajou por vários estados participando de congressos e grupos de pesquisa e acumulando conhecimento em gestão de eventos da área tecnológica e desenvolvimento de pesquisas científicas. "Fui para o Rio Grande do Norte com a cara e a coragem", avalia sobre o início do mestrado e da força de vontade necessária para obter uma formação continuada. Graças ao empenho, em poucos meses tornou-se bolsista do CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e pode receber o auxílio para o prosseguimento da pesquisa e os gastos adicionais do curso e da permanência no estado.

Foi através da experiência pessoal em estudar e aperfeiçoar o conhecimento adquirido com a pesquisa, que os trabalhos científicos sempre fizeram parte de sua carreira. Principalmente porque consistem em um meio eficaz de aplicar o conhecimento teórico ensinado aos alunos de forma mais dinâmica, prática. Quando a turma não compreende a aplicação dos conceitos e fórmulas da física em seu cotidiano, não se interessa pelo estudo da disciplina e a encara como algo complexo, o que acaba gerando grande desmotivação e mau rendimento nas aulas. Por isso, uma vez professor e pesquisador, Fábio Sales sempre incentivou a pesquisa científica e o desenvolvimento de estudos em áreas da física que trouxessem como resultado benefícios e melhorias à sociedade. Ainda na rede municipal, trabalhou com estudantes do ensino fundamental no projeto "Fontes alternativas de energia elétrica", cujo material fornecedor de energia eram legumes, como batatas e cenouras. "Tenho consciência de que todo o investimento que é feito em mim, através dos cursos que realizo, não deve servir só para ter um diploma engavetado. O que vale é repassar a aplicação do conhecimento para a sociedade", reflete sobre a importância dos projetos que desenvolve.


CEFET-MA: celeiro de talentos para a pesquisa científica no estado

Em 2005, o CEFET-MA abriu edital para preenchimento de vagas de professores substitutos pelo prazo de um ano. Foi aí que o professor e ex-aluno, teve a oportunidade de voltar à escola que lhe apresentou ao mundo da ciência e tecnologia. Aprovado para ministrar aulas de física às turmas de ensino médio, técnico e superior, em pouco tempo percebeu o potencial dos alunos para a pesquisa científica e detectou que o que faltava dentro da instituição era a informação em torno da possibilidade de melhorar o ensino através de um maior incentivo à produção dos alunos. Já que se sabe que o CEFET-MA, como instituição da rede federal de ensino tecnológico, possui reconhecida infra-estrutura e potencial humano para o que se constituem, segundo o professor Fábio Sales "os pilares da Iniciação Científica".

Em pouco mais de um ano, Fábio prestou concurso para o cargo de professor efetivo no regime de dedicação exclusiva e logo assumiu a Coordenação do Ensino Médio, começando então a movimentar o CEFET-MA com um salto qualitativo em termos de eventos, mostras, exposições e simpósios e quantitativo em projetos de pesquisa dos próprios alunos da instituição. Entre as ações que motivaram a mudança de cenário na escola estiveram a participação dos estudantes nas Olimpíadas Brasileira de Astronáutica, Foguetes, Informática, Língua Portuguesa, Robótica e Matemática das Escolas Públicas.

Com informação e valorização do potencial de cada um, foi impossível não haver uma mudança de consciência e atitude entre os estudantes. Muitos se sentiram motivados a desenvolver projetos de pesquisa com o conteúdo estudado em suas áreas, tanto nos cursos técnicos quanto nos de ensino superior. A partir de então, o professor e coordenador inscreveu projetos sob sua orientação no Programa de Iniciação Científica Júnior (Pibic–Jr) da FAPEMA (Fundo de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa Científica e Tecnológica do Maranhão) conquistando um número expressivo de bolsas para um primeiro edital. Nos anos que seguiram os projetos de pesquisa de alunos do CEFET-MA foram aumentando e conquistando, em grande parte, aprovação para as bolsas de pesquisa do Pibic, tanto o Júnior quanto o destinado à graduação. Tanto que em 2008, o percentual de bolsistas da escola correspondeu a 50% das vagas ofertadas pela FAPEMA.

Com projetos em fase avançada de desenvolvimento, os estudantes começaram a apresentar seus trabalhos em congressos por todo o país. O trabalho do professor Fábio rendeu novos recursos para a pesquisa dentro da instituição e os alunos receberam auxílio para a produção de pôsteres e painéis para exposição de comunicações orais nos eventos em que participaram e ainda contaram com a aquisição de um ônibus especial para as viagens dos estudantes. Entre os eventos nos quais o CEFET-MA marcou presença, estão as reuniões anuais da SBPC, o CONNEPI, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e uma das mais recentes conquistas da gestão Fábio Sales com a direção do Professor José Costa – atual diretor geral do CEFET-MA e Presidente do CONCEFET – a realização da II Jornada Nacional de Produção Científica em Educação Profissional e Tecnológica em São Luís, sediada pelo CEFET-MA.

Com todo esse trabalho em prol da melhoria na qualidade do ensino da física e no desenvolvimento da pesquisa no estado, quando questionado sobre os desafios que enfrenta para dar continuidade aos projetos, o professor recorre a um fator essencial capaz de impulsionar qualquer tipo de trabalho independente do auxílio financeiro: a dificuldade em montar um grupo de profissionais compromissados com a construção do conhecimento através da humanização e da ética. "Meu maior trabalho é ver a preocupação dos estudantes com a parte social, mas fica difícil trabalhar, movimentar essa turma se na maioria das vezes, inicio um trabalho junto com outros professores, mas ao fim chego só eu e o professor Jorge", lamenta citando o atuante professor de Filosofia do Departamento de Ciências Humanas e Sociais (DHS) do CEFET-MA, Jorge Leão. Mas ainda assim, o coordenador garante que em todos os projetos desenvolvidos há um retorno muito satisfatório dos alunos.


PESQUISAS ORIENTADAS PELO PROFESSOR FÁBIO SALES
ENTRE OS ANOS DE 2005 E 2008

Saldo de pesquisas desenvolvidas:
34
Supervisões e orientações concluídas:
24
- quatro trabalhos de conclusão de curso de graduação;
- dez projetos de iniciação científica;
- dez orientações de outra natureza.

Orientações em andamento:
10
- uma dissertação de mestrado;
- um trabalho de conclusão de curso;
- oito projetos de iniciação
científica.

O CEFET PESQUISADOR EM NÚMEROS:

Financiadoras das pesquisas:
FAPEMA
(Fundo de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado)
CEFET-MA
(Programa de Bolsas de Iniciação Científica)
Bolsas concedidas:
Edital FAPEMA:
- 2006: 20 (de 50)
- 2007: 27 (de 100)
- 2008: 100 (de 200)
Edital CEFET:
2008: 5 projetos financiados
2009: previsão de 11 novas bolsas
2010: previsão de 20 novas bolsas
Investimento:
PIBIC-jr
R$ 3.000,00 por ano
(cada pesquisa)
Iniciação Científica
R$ 6.000,00 por ano
(cada pesquisa)

Número de pesquisadores por projeto:
Máximo de 5 estudantes
Projetos atuais desenvolvidos por todos os pesquisadores do CEFET-MA:
200
(em nível médio, técnico e superior)


E é esse resultado positivo que o motiva a continuar trabalhando em novas idéias e projetos. Dentre as linhas de pesquisa mais promissoras e inovadoras estão o desenvolvimento do ensino voltado aos portadores de deficiências físicas, o projeto de educação para jovens e adultos (PROEJA) e ainda o trabalho em torno da produção de um controle remoto universal, que segundo o professor Fábio será capaz de operar tudo, desde aparelhos eletroeletrônicos – tv’s, rádios, dvd’s – até comandos como ligar e desligar lâmpadas e sinalizar invasão de domicílio.

O diferencial

Aliar pesquisa, ensino e extensão com competência é o forte das instituições de ensino da rede federal, tanto nas universidades quanto nas escolas técnicas e agrícolas cobertas pelo sistema. No entanto, acrescentar a esse tripé o controle logístico na gestão de eventos de pequeno, médio e grande porte é um desafio que o professor Fábio encara com tranqüilidade. E conciliar o trabalho burocrático com a sala de aula é uma "dobradinha" que o coordenador tira de letra. "A formação vinda da licenciatura ensinou a planejar bem as aulas e com antecedência. E as viagens como representante de grupos de pesquisa acrescida de experiências como a Presidência do Centro Acadêmico de Física trouxeram muitos ensinamentos sobre organização de eventos, desde feiras de ciências até encontros de caráter nacional."

Confira o quadro com o número de participações que comprovam a vasta experiência do professor em gestão, pesquisa, ensino e extensão:

Participação como congressista, expositor e orientador:
97 eventos
Gestão e Organização de seminários, mostras, olimpíadas, simpósios e congressos:
32 eventos

Não é à toa que o professor é Coordenador de Articulação do Ensino Médio e Técnico. Sua função ali é estabelecer as bases da pesquisa, ensino e extensão através da promoção de eventos, com exposições e debates oferecidos dentro do ambiente acadêmico para uma melhoria contínua no desenvolvimento da ciência e da tecnologia dentro do estado do Maranhão.

Com tudo isso, a maior meta é firmar parcerias para a realização de mais pesquisas e unir instituições à comunidade para procurar caminhos de melhoria na qualidade de vida da cidade. Assim, a lição que fica, após conhecer o trabalho do professor Fábio Sales é a certeza de que ali há um profissional comprometido com a vontade de levar conhecimento a todos como uma forma de retribuir tudo o que foi aprendido com muito empenho e dedicação. É o verdadeiro sentido contido dentro da transformação do ensinar em uma "experiência de aprendizagem viva", segundo palavras do professor Jorge Leão.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Ensaios da Foca...


Programação de férias do CEFET-MA conta com III Mostra Científica

Por Talita Guimarães

Acontece nos dias 14 e 15/01 no Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão, a III Mostra CEFET-MA como parte integrante da programação de férias da instituição. O evento, cujo horário de realização será de 9h às 12h com retorno às 15h e encerramento às 18h, conta com a apresentação de projetos de pesquisa na área de ciência e tecnologia, oficinas, visitas a laboratórios e ainda momentos culturais com encenações teatrais, relançamento de livros, sessão audivisual e ainda o lançamento das campanhas "Sou + 1 contra a violência" e "Sensibilizar para não acabar".

A III Mostra CEFET-MA objetiva integrar escola e comunidade através da apresentação de trabalhos em duas vertentes que variam de acordo com o potencial do corpo discente. São elas: científica e artística. Durante o evento as exposições estarão alternadas entre projetos de pesquisa referentes às disciplinas curriculares dos cursos de nível médio, técnico e superior à produção cultural da escola, nas artes cênicas, plásticas, literárias e musicais. Com isso, os dois dias de mostra propõem uma programação diversificada com um grande espaço de vivência, troca de experiências e contrução do conhecimento.


A frente da organização está o professor Fábio Sales, atual Coordenador de Articulação do
Ensino Médio e Técnico. Para obter maiores informações a respeito basta entrar em contato através dos e-mails fsales@cefet-ma.br ou com o Professor Protásio pelo protasio@cefet-ma.br . Para acessar a programação completa basta clicar no link http://www.cefet-ma.br/pesquisa/iii-mostra.html.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O Sonho de Martin Luther King


Por Jorge Leão*


O pastor batista negro, Martin Luther King Jr. (1929-1968), Prêmio Nobel da Paz em 1964, é considerado o principal expoente da luta contra o racismo nos Estados Unidos. Por sua vida, espelhada na mensagem de paz e de não-violência de Mahatma Gandhi, engajou-se no sonho por um mundo livre de preconceitos, desigualdade social, violência e discriminação.
A partir de setembro de 1954, atuando já como pastor na Igreja Batista da Avenida Dexter, em Montgomery, estado do Alabama, Luther King inicia sua cruzada nacional pelos direitos civis. Começa assim a sofrer violenta perseguição de grupos extremistas como a Klu Klux Klan e da própria polícia, que tentavam inibir pelo medo as manifestações realizadas contra o segregacionismo racial. Um dos exemplos mais expressivos deste triste cenário de violência segregacionista foi o regulamento da Companhia de ônibus da cidade de Montgmorery, que determinava cadeiras específicas para os negros, ou em caso de lotação do ônibus, estes deveriam levantar-se para dar espaço aos brancos, como no famoso caso da Sra. Rosa Parks, uma costureira negra de quarenta e dois anos, presa no 1º de dezembro de 1955, por negar-se a levantar e dar o lugar a um branco, a mando do motorista do ônibus.
O pastor King e outros líderes dedicados à luta pelos direitos civis, lideraram então o boicote contra os ônibus. Por isso, ele foi preso em janeiro de 1956 pela polícia, usando esta o pretexto de que o pastor dirigia com excesso de velocidade. Contudo, a Suprema Corte declarou, a 20 de dezembro de 1956, ilegal a segregação nos ônibus. Com esta vitória, Martin Luther King Jr. tornou-se conhecido no mundo inteiro.
Outro exemplo de engajamento político e senso social crítico foi a posição tomada em relação à guerra do Vietnã, um dos mais lamentáveis e vergonhosos fatos da história contemporânea dos Estados Unidos. Sendo fiel à doutrina da não-violência, inspirada em Mahatma Gandhi, e fundamentada no Evangelho do Cristo, o pastor King proferiu, em 4 de abril de 1967, na Igreja de Riverside, em Nova Iorque, um discurso duro contra a ação dos Estados Unidos nesta guerra. A reação foi imediata, recebendo Luther King várias críticas das correntes declaradas patrióticas, e obviamente declaradas a favor da intervenção norte-americana em território vietnamita.
Por isso, sua peregrinação anti-segregacionista atraiu várias ameaças de morte, por meio de telefonemas e cartas. Profeticamente, como que antevendo a sua trágica morte, o pastor King pronunciou: “Podem crucificar-me. Posso mesmo morrer. Mas, mesmo que isto me aconteça, quero que digam: ele morreu para libertar os homens”. O sonho de Martin Luther King Jr. revelou-se em seus passos rumo à liberdade, liderando milhares de vozes em suas históricas passeatas pacíficas, contra a violência e a intolerância das vozes segregacionistas.
Seu testemunho de fé, alicerçada na não-violência, fez da vida do pastor King um sinal profético de esperança e de paz, na ressonância caótica de um mundo dominado por conflitos sociais, alimentados pela condenação do ser humano à barbárie da violência inócua. Apesar de todas as incompreensões vividas, de brancos e de negros, das constantes ameaças de morte e da perseguição das autoridades, Luther King não desanimava. Ele chegou a proclamar: “Nunca estarei satisfeito até que a segregação racial desapareça da América. Eu sonhei que algum dia a nação deverá levantar-se e afirmar: mantemos a verdade de que todos os homens são iguais. (...) Eu sonhei que meus bisnetos viverão em uma nação em que não serão julgados pela cor da pele mas por seu caráter”. Servo da paz, o pastor King fez-se instrumento do amor incondicional aos direitos humanos. Sua voz fervorosa conduzia multidões ao reencontro com a liberdade. Ele dissecerta vez que gostaria de ser lembrado não como um homem de grandes feitos ou prêmios, mas como alguém que pôde ajudar o seu semelhante a seguir adiante, com uma canção de liberdade entre os lábios e um desejo de proclamar que, desse modo, a vida não teria sido em vão.
O pastor Martin Luther King foi covardemente assassinado em 4 de abril de 1968. O seu grito continuou encorajando vários de seus companheiros, negros e brancos, apesar de poucos dias depois de sua morte, mais de cem cidades americanas terem vivenciado terríveis conflitos entre manifestantes negros e policiais, chegando o líder negro Stockly Carmichael a afirmar que tais ações constituíam uma guerra justa contra a América branca, que fora a responsável, segundo ele, pela morte do pastor King. Certamente, tal resposta revela uma completa incompreensão da mensagem de paz deixada por Martin Luther King Jr., que com seu testemunho de fé viva, é, como ele mesmo se autodenominou, um “arauto da justiça, da paz e do direito”. O retrato mais fiel de seu testemunho de vida e de luta pela liberdade pode ser lido no epitáfio gravado em seu túmulo: “Enfim livre, enfim livre! Graças a Deus Todo-Poderoso, sou finalmente livre!”...
*Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do Movimento Familiar Cristão - em São Luís - MA.

sábado, 3 de janeiro de 2009

LITERATURA E INFÂNCIA EM FOCO...


A cor da minha infância...

Autora revelação do Prêmio Jabuti de 1990, Geni Guimarães percorre particularidades da poesia contida no ser criança em seu premiado “A Cor da Ternura”, uma verdadeira aquarela chamada infância.

Por Talita Guimarães

Não é por acaso que autora e protagonista compartilham do mesmo nome. Geni menina, a personagem central do livro, é uma narradora que nasce da vivência da Geni adulta, escritora do belíssimo “A Cor da Ternura”. Na realidade, o livro é uma biografia ímpar, que narra de forma impecável a vida de Geni Guimarães desde seus primeiros passos e lembranças até o amadurecimento de sua vida e a tomada de consciência em torno da sociedade em que está inserida e suas escolhas mediante essa inserção.

A personagem: mulher; negra. A família: submissa à lavoura dos brancos; analfabeta. A sociedade: preconceituosa. Geni: a menina que cresce em meio a tudo isso e apesar de toda a situação lhe ser desfavorável, carrega em si um desejo de mudança, um ideal tão intocável e sólido quanto a ternura de uma criança, uma poetisa a cantar um outro mundo possível.

A história é ambientada em uma fazenda do interior de São Paulo, onde Geni vive com a família. Filha de pai lavrador e mãe dona-de-casa, a menina é a caçula que vive uma infância simples, onde mesmo sendo parte do cenário de exclusão social e desigualdade de classes, a menina encontra espaço para o sonho e o exercício do ser criança. A vida de caçulinha é regada a mimos e carinhos da mãe, onde sempre há lugar para o amor e a atenção. Geni pode falar tudo o que pensa e perguntar as coisas mais poéticas possíveis – preocupações de criança - coisas como o tamanho do amor de mãe, quem fez a água e o fogo, o que aconteceria se um dia chovesse água de Deus, etc. Mas isso dura pouco, pois logo a mãe engravida novamente e todos os olhares e atenções voltam-se para o novo membro da família, o Zezinho, irmão mais novo que vem lhe tirar o posto de caçula. A partir daí, a personagem narra sua vida de criança com impressões sobre o mundo a partir da observação da própria família e começa a traçar seus passos em busca da liberdade plena de pensamentos e ações. Geni é uma criança de ideais incomuns. Dona de concepções formadas em torno dos mais variados assuntos, incluindo sua preocupação constante com as afinidades necessárias para que as pessoas se entendam. E é por falta de afinidade com as pessoas – em especial os adultos que a cercam – que a menina afasta-se de todos aqueles que consideram seus questionamentos e considerações, bobagens, perda de tempo. O ideal primeiro de Geni é permitir-se abrir os chamados “olhos de dentro” para conseguir enxergar a beleza das coisas por trás da banalidade gerada pelo óbvio e só assim saber aproveitar a vida com tudo o que ela pode oferecer de melhor. Nesse ponto a narração em primeira pessoa resgata o olhar poético da criança com muita sensibilidade. A passagem que vai do contato de Geni com outras crianças aos tempos de escola, a descoberta da poesia e das lições sobre os negros e o processo de Abolição da Escravatura marcam o contexto histórico do livro. A personagem vê-se as voltas com a difícil tarefa de conviver com o preconceito racial quando entra em contato com outras crianças na fazenda e na escola. É aí que começa o amadurecimento da menina em mulher. É quando Geni se decepciona com o passado de sua raça contada pelos livros de história e decide transformar a cor de sua pele não em um fator de desprezo, mas de luta, orgulho e honra.

Em “A Cor da Ternura” a viagem segue por olhares sutis, que resgatam pensamentos de infância, como a inocência de menina ao assustar-se com o tamanho da barriga da mãe durante a gestação, ou desejar ardorosamente por uma vida menos alienante, onde seja possível “desmedir... extravasar...” cultivando o sonho de ir morar embaixo de uma árvore junto ao joao de barro ou com a galinha garnisé da fazenda.

Ímpar porque compõe uma narrativa crescente não só em fatos novos ou surpreendentes que pairem sob a história, mas principalmente por levar o leitor a crescer junto com a personagem em uma viagem que vai desde a pureza da infância, passando pela narração da Geni menina, até a consciência e a postura ética da Geni adulta. Ao leitor, cabe o delicioso acompanhar de uma história que já começa com a cena simples e verdadeira de declaração do amor da mãe pela filha.

Assim, a autora encaminha o leitor a entrar na história e rezar junto com Geni pelo alívio nas dores do parto da mãe; sentir-se só quando a menina é deixada de lado por conta da chegada do irmãozinho que lhe tira o posto de caçula, o apetite e os desejos; fechar os olhos externos para abrir os olhos de dentro, únicos capazes de enxergar a verdade por trás das coisas banais, óbvias; percorrer as viagens da imaginação de Geni por lugares nunca antes visitados e embarcar em estações nunca antes conhecidas – a menina transforma um balanço, pendurado em uma árvore, em estação capaz de levá-la ao simples fechar de olhos à praia de Santos, à descoberta do mar e ao contato apaixonante com a natureza. Vê ainda, Geni aprender a ler, escrever poesias e recitá-las nos tempos escolares.

De repente, a personagem conhece a transformação da menina em mulher, compreende a condição social e o meio em que vive, enfrenta desafios, escala obstáculos e define passos rumo à luta pelo reconhecimento de sua essência e a valorização de sua existência independente da tonalidade de sua pele. O que vale para a personagem - e por que não dizer para a autora também - é a cor de sua ternura, é o tom da poesia que ela é capaz de carregar na vida. A aquarela usada para pintar sua infância é a mesma que define traços e posições para o futuro. É a fortaleza que lhe alicerça nas escolhas e atitudes que regem sua vida adulta.