sábado, 3 de janeiro de 2009

LITERATURA E INFÂNCIA EM FOCO...


A cor da minha infância...

Autora revelação do Prêmio Jabuti de 1990, Geni Guimarães percorre particularidades da poesia contida no ser criança em seu premiado “A Cor da Ternura”, uma verdadeira aquarela chamada infância.

Por Talita Guimarães

Não é por acaso que autora e protagonista compartilham do mesmo nome. Geni menina, a personagem central do livro, é uma narradora que nasce da vivência da Geni adulta, escritora do belíssimo “A Cor da Ternura”. Na realidade, o livro é uma biografia ímpar, que narra de forma impecável a vida de Geni Guimarães desde seus primeiros passos e lembranças até o amadurecimento de sua vida e a tomada de consciência em torno da sociedade em que está inserida e suas escolhas mediante essa inserção.

A personagem: mulher; negra. A família: submissa à lavoura dos brancos; analfabeta. A sociedade: preconceituosa. Geni: a menina que cresce em meio a tudo isso e apesar de toda a situação lhe ser desfavorável, carrega em si um desejo de mudança, um ideal tão intocável e sólido quanto a ternura de uma criança, uma poetisa a cantar um outro mundo possível.

A história é ambientada em uma fazenda do interior de São Paulo, onde Geni vive com a família. Filha de pai lavrador e mãe dona-de-casa, a menina é a caçula que vive uma infância simples, onde mesmo sendo parte do cenário de exclusão social e desigualdade de classes, a menina encontra espaço para o sonho e o exercício do ser criança. A vida de caçulinha é regada a mimos e carinhos da mãe, onde sempre há lugar para o amor e a atenção. Geni pode falar tudo o que pensa e perguntar as coisas mais poéticas possíveis – preocupações de criança - coisas como o tamanho do amor de mãe, quem fez a água e o fogo, o que aconteceria se um dia chovesse água de Deus, etc. Mas isso dura pouco, pois logo a mãe engravida novamente e todos os olhares e atenções voltam-se para o novo membro da família, o Zezinho, irmão mais novo que vem lhe tirar o posto de caçula. A partir daí, a personagem narra sua vida de criança com impressões sobre o mundo a partir da observação da própria família e começa a traçar seus passos em busca da liberdade plena de pensamentos e ações. Geni é uma criança de ideais incomuns. Dona de concepções formadas em torno dos mais variados assuntos, incluindo sua preocupação constante com as afinidades necessárias para que as pessoas se entendam. E é por falta de afinidade com as pessoas – em especial os adultos que a cercam – que a menina afasta-se de todos aqueles que consideram seus questionamentos e considerações, bobagens, perda de tempo. O ideal primeiro de Geni é permitir-se abrir os chamados “olhos de dentro” para conseguir enxergar a beleza das coisas por trás da banalidade gerada pelo óbvio e só assim saber aproveitar a vida com tudo o que ela pode oferecer de melhor. Nesse ponto a narração em primeira pessoa resgata o olhar poético da criança com muita sensibilidade. A passagem que vai do contato de Geni com outras crianças aos tempos de escola, a descoberta da poesia e das lições sobre os negros e o processo de Abolição da Escravatura marcam o contexto histórico do livro. A personagem vê-se as voltas com a difícil tarefa de conviver com o preconceito racial quando entra em contato com outras crianças na fazenda e na escola. É aí que começa o amadurecimento da menina em mulher. É quando Geni se decepciona com o passado de sua raça contada pelos livros de história e decide transformar a cor de sua pele não em um fator de desprezo, mas de luta, orgulho e honra.

Em “A Cor da Ternura” a viagem segue por olhares sutis, que resgatam pensamentos de infância, como a inocência de menina ao assustar-se com o tamanho da barriga da mãe durante a gestação, ou desejar ardorosamente por uma vida menos alienante, onde seja possível “desmedir... extravasar...” cultivando o sonho de ir morar embaixo de uma árvore junto ao joao de barro ou com a galinha garnisé da fazenda.

Ímpar porque compõe uma narrativa crescente não só em fatos novos ou surpreendentes que pairem sob a história, mas principalmente por levar o leitor a crescer junto com a personagem em uma viagem que vai desde a pureza da infância, passando pela narração da Geni menina, até a consciência e a postura ética da Geni adulta. Ao leitor, cabe o delicioso acompanhar de uma história que já começa com a cena simples e verdadeira de declaração do amor da mãe pela filha.

Assim, a autora encaminha o leitor a entrar na história e rezar junto com Geni pelo alívio nas dores do parto da mãe; sentir-se só quando a menina é deixada de lado por conta da chegada do irmãozinho que lhe tira o posto de caçula, o apetite e os desejos; fechar os olhos externos para abrir os olhos de dentro, únicos capazes de enxergar a verdade por trás das coisas banais, óbvias; percorrer as viagens da imaginação de Geni por lugares nunca antes visitados e embarcar em estações nunca antes conhecidas – a menina transforma um balanço, pendurado em uma árvore, em estação capaz de levá-la ao simples fechar de olhos à praia de Santos, à descoberta do mar e ao contato apaixonante com a natureza. Vê ainda, Geni aprender a ler, escrever poesias e recitá-las nos tempos escolares.

De repente, a personagem conhece a transformação da menina em mulher, compreende a condição social e o meio em que vive, enfrenta desafios, escala obstáculos e define passos rumo à luta pelo reconhecimento de sua essência e a valorização de sua existência independente da tonalidade de sua pele. O que vale para a personagem - e por que não dizer para a autora também - é a cor de sua ternura, é o tom da poesia que ela é capaz de carregar na vida. A aquarela usada para pintar sua infância é a mesma que define traços e posições para o futuro. É a fortaleza que lhe alicerça nas escolhas e atitudes que regem sua vida adulta.

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