domingo, 4 de janeiro de 2009

O Sonho de Martin Luther King


Por Jorge Leão*


O pastor batista negro, Martin Luther King Jr. (1929-1968), Prêmio Nobel da Paz em 1964, é considerado o principal expoente da luta contra o racismo nos Estados Unidos. Por sua vida, espelhada na mensagem de paz e de não-violência de Mahatma Gandhi, engajou-se no sonho por um mundo livre de preconceitos, desigualdade social, violência e discriminação.
A partir de setembro de 1954, atuando já como pastor na Igreja Batista da Avenida Dexter, em Montgomery, estado do Alabama, Luther King inicia sua cruzada nacional pelos direitos civis. Começa assim a sofrer violenta perseguição de grupos extremistas como a Klu Klux Klan e da própria polícia, que tentavam inibir pelo medo as manifestações realizadas contra o segregacionismo racial. Um dos exemplos mais expressivos deste triste cenário de violência segregacionista foi o regulamento da Companhia de ônibus da cidade de Montgmorery, que determinava cadeiras específicas para os negros, ou em caso de lotação do ônibus, estes deveriam levantar-se para dar espaço aos brancos, como no famoso caso da Sra. Rosa Parks, uma costureira negra de quarenta e dois anos, presa no 1º de dezembro de 1955, por negar-se a levantar e dar o lugar a um branco, a mando do motorista do ônibus.
O pastor King e outros líderes dedicados à luta pelos direitos civis, lideraram então o boicote contra os ônibus. Por isso, ele foi preso em janeiro de 1956 pela polícia, usando esta o pretexto de que o pastor dirigia com excesso de velocidade. Contudo, a Suprema Corte declarou, a 20 de dezembro de 1956, ilegal a segregação nos ônibus. Com esta vitória, Martin Luther King Jr. tornou-se conhecido no mundo inteiro.
Outro exemplo de engajamento político e senso social crítico foi a posição tomada em relação à guerra do Vietnã, um dos mais lamentáveis e vergonhosos fatos da história contemporânea dos Estados Unidos. Sendo fiel à doutrina da não-violência, inspirada em Mahatma Gandhi, e fundamentada no Evangelho do Cristo, o pastor King proferiu, em 4 de abril de 1967, na Igreja de Riverside, em Nova Iorque, um discurso duro contra a ação dos Estados Unidos nesta guerra. A reação foi imediata, recebendo Luther King várias críticas das correntes declaradas patrióticas, e obviamente declaradas a favor da intervenção norte-americana em território vietnamita.
Por isso, sua peregrinação anti-segregacionista atraiu várias ameaças de morte, por meio de telefonemas e cartas. Profeticamente, como que antevendo a sua trágica morte, o pastor King pronunciou: “Podem crucificar-me. Posso mesmo morrer. Mas, mesmo que isto me aconteça, quero que digam: ele morreu para libertar os homens”. O sonho de Martin Luther King Jr. revelou-se em seus passos rumo à liberdade, liderando milhares de vozes em suas históricas passeatas pacíficas, contra a violência e a intolerância das vozes segregacionistas.
Seu testemunho de fé, alicerçada na não-violência, fez da vida do pastor King um sinal profético de esperança e de paz, na ressonância caótica de um mundo dominado por conflitos sociais, alimentados pela condenação do ser humano à barbárie da violência inócua. Apesar de todas as incompreensões vividas, de brancos e de negros, das constantes ameaças de morte e da perseguição das autoridades, Luther King não desanimava. Ele chegou a proclamar: “Nunca estarei satisfeito até que a segregação racial desapareça da América. Eu sonhei que algum dia a nação deverá levantar-se e afirmar: mantemos a verdade de que todos os homens são iguais. (...) Eu sonhei que meus bisnetos viverão em uma nação em que não serão julgados pela cor da pele mas por seu caráter”. Servo da paz, o pastor King fez-se instrumento do amor incondicional aos direitos humanos. Sua voz fervorosa conduzia multidões ao reencontro com a liberdade. Ele dissecerta vez que gostaria de ser lembrado não como um homem de grandes feitos ou prêmios, mas como alguém que pôde ajudar o seu semelhante a seguir adiante, com uma canção de liberdade entre os lábios e um desejo de proclamar que, desse modo, a vida não teria sido em vão.
O pastor Martin Luther King foi covardemente assassinado em 4 de abril de 1968. O seu grito continuou encorajando vários de seus companheiros, negros e brancos, apesar de poucos dias depois de sua morte, mais de cem cidades americanas terem vivenciado terríveis conflitos entre manifestantes negros e policiais, chegando o líder negro Stockly Carmichael a afirmar que tais ações constituíam uma guerra justa contra a América branca, que fora a responsável, segundo ele, pela morte do pastor King. Certamente, tal resposta revela uma completa incompreensão da mensagem de paz deixada por Martin Luther King Jr., que com seu testemunho de fé viva, é, como ele mesmo se autodenominou, um “arauto da justiça, da paz e do direito”. O retrato mais fiel de seu testemunho de vida e de luta pela liberdade pode ser lido no epitáfio gravado em seu túmulo: “Enfim livre, enfim livre! Graças a Deus Todo-Poderoso, sou finalmente livre!”...
*Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do Movimento Familiar Cristão - em São Luís - MA.

Um comentário:

filosofia com arte disse...

obrigado, talita, pela publicação do texto sobre a vida deste arauto da justiça e da paz,
muita saúde para você, continue firme nessa sua jornada brilhante,
abraços fraternos,
jorge leão