quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ensaios da Foca... (Reportagem especial)

Quando ensinar representa uma experiência de aprendizagem viva II
Ele é professor, orienta projetos de pesquisa, coordena o ensino médio e técnico do Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão (CEFET-MA), organiza mostras de exposição científica de caráter local, regional e nacional, acompanha comissões de alunos em viagens para exposição de trabalhos em congressos e ainda desenvolve pesquisa em torno de física aplicada com projetos em processo de patente, artigos submetidos a revistas científicas e publicações nos Cadernos Temáticos do Ministério da Educação (MEC). Com toda essa bagagem, a última coisa que falta ao professor Fábio Sales é fôlego para enumerar projetos e trabalhar intensamente na execução de cada um.

Por Talita Guimarães

Antes de descobrir que a ciência seria um forte caminho para o desenvolvimento de muitos projetos até a realização profissional, o atual Coordenador de Articulação do Ensino Médio e Técnico do CEFET-MA, professor Fábio Henrique Silva Sales de 39 anos, passou pela dúvida comum entre os jovens quanto à escolha da carreira pela qual gostaria de seguir. Passeou da medicina ao serviço militar e não foi por falta de inteligência que não permaneceu em nenhuma dessas áreas. Na medicina, a eterna idéia de trabalho em contato com sangue fez com que o jovem desanimasse, já na carreira militar, chegou a ser aprovado para a Aeronáutica, mas sentiu que ainda não estava na área de sua vocação.

Somente quando cursou Eletrotécnica na então Escola Técnica Federal do Maranhão (ETEF-MA) – atual CEFET-MA - que Fábio Sales descobriu a aptidão para física e o gosto pelos estudos referentes à eletricidade. Foi aí que sentiu finalmente "aflorar o cientista", como ele mesmo definiu.

Licenciado em Física pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em 1993, com mestrado e doutorado em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 1997 e 2004, respectivamente, ainda na graduação começou a trabalhar como professor de matemática para o ensino fundamental de uma escola do município de São Luís. "Sempre achei a carreira de professor muito bonita", afirma e acrescenta que a influência para o magistério vem da família, onde o professor encontra inspiração nos pais, tias e irmãs, todos atuantes na educação.

Paralelamente ao magistério, o Fábio cientista procurou aliar sua preocupação com a qualidade do ensino ao desenvolvimento de projetos de pesquisa na área experimental com base na física aplicada. Durante a graduação, foi bolsista do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) desde o 2º período, desenvolvendo um trabalho sob orientação do Professor Antônio Pinto Neto tão bom, que a bolsa foi estendida até o fim do curso, o que na época constituiu um feito raro entre estudantes de física. Antes de cursar o mestrado - em Física da Matéria Condensada pela UFRN - o professor viajou por vários estados participando de congressos e grupos de pesquisa e acumulando conhecimento em gestão de eventos da área tecnológica e desenvolvimento de pesquisas científicas. "Fui para o Rio Grande do Norte com a cara e a coragem", avalia sobre o início do mestrado e da força de vontade necessária para obter uma formação continuada. Graças ao empenho, em poucos meses tornou-se bolsista do CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e pode receber o auxílio para o prosseguimento da pesquisa e os gastos adicionais do curso e da permanência no estado.

Foi através da experiência pessoal em estudar e aperfeiçoar o conhecimento adquirido com a pesquisa, que os trabalhos científicos sempre fizeram parte de sua carreira. Principalmente porque consistem em um meio eficaz de aplicar o conhecimento teórico ensinado aos alunos de forma mais dinâmica, prática. Quando a turma não compreende a aplicação dos conceitos e fórmulas da física em seu cotidiano, não se interessa pelo estudo da disciplina e a encara como algo complexo, o que acaba gerando grande desmotivação e mau rendimento nas aulas. Por isso, uma vez professor e pesquisador, Fábio Sales sempre incentivou a pesquisa científica e o desenvolvimento de estudos em áreas da física que trouxessem como resultado benefícios e melhorias à sociedade. Ainda na rede municipal, trabalhou com estudantes do ensino fundamental no projeto "Fontes alternativas de energia elétrica", cujo material fornecedor de energia eram legumes, como batatas e cenouras. "Tenho consciência de que todo o investimento que é feito em mim, através dos cursos que realizo, não deve servir só para ter um diploma engavetado. O que vale é repassar a aplicação do conhecimento para a sociedade", reflete sobre a importância dos projetos que desenvolve.


CEFET-MA: celeiro de talentos para a pesquisa científica no estado

Em 2005, o CEFET-MA abriu edital para preenchimento de vagas de professores substitutos pelo prazo de um ano. Foi aí que o professor e ex-aluno, teve a oportunidade de voltar à escola que lhe apresentou ao mundo da ciência e tecnologia. Aprovado para ministrar aulas de física às turmas de ensino médio, técnico e superior, em pouco tempo percebeu o potencial dos alunos para a pesquisa científica e detectou que o que faltava dentro da instituição era a informação em torno da possibilidade de melhorar o ensino através de um maior incentivo à produção dos alunos. Já que se sabe que o CEFET-MA, como instituição da rede federal de ensino tecnológico, possui reconhecida infra-estrutura e potencial humano para o que se constituem, segundo o professor Fábio Sales "os pilares da Iniciação Científica".

Em pouco mais de um ano, Fábio prestou concurso para o cargo de professor efetivo no regime de dedicação exclusiva e logo assumiu a Coordenação do Ensino Médio, começando então a movimentar o CEFET-MA com um salto qualitativo em termos de eventos, mostras, exposições e simpósios e quantitativo em projetos de pesquisa dos próprios alunos da instituição. Entre as ações que motivaram a mudança de cenário na escola estiveram a participação dos estudantes nas Olimpíadas Brasileira de Astronáutica, Foguetes, Informática, Língua Portuguesa, Robótica e Matemática das Escolas Públicas.

Com informação e valorização do potencial de cada um, foi impossível não haver uma mudança de consciência e atitude entre os estudantes. Muitos se sentiram motivados a desenvolver projetos de pesquisa com o conteúdo estudado em suas áreas, tanto nos cursos técnicos quanto nos de ensino superior. A partir de então, o professor e coordenador inscreveu projetos sob sua orientação no Programa de Iniciação Científica Júnior (Pibic–Jr) da FAPEMA (Fundo de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa Científica e Tecnológica do Maranhão) conquistando um número expressivo de bolsas para um primeiro edital. Nos anos que seguiram os projetos de pesquisa de alunos do CEFET-MA foram aumentando e conquistando, em grande parte, aprovação para as bolsas de pesquisa do Pibic, tanto o Júnior quanto o destinado à graduação. Tanto que em 2008, o percentual de bolsistas da escola correspondeu a 50% das vagas ofertadas pela FAPEMA.

Com projetos em fase avançada de desenvolvimento, os estudantes começaram a apresentar seus trabalhos em congressos por todo o país. O trabalho do professor Fábio rendeu novos recursos para a pesquisa dentro da instituição e os alunos receberam auxílio para a produção de pôsteres e painéis para exposição de comunicações orais nos eventos em que participaram e ainda contaram com a aquisição de um ônibus especial para as viagens dos estudantes. Entre os eventos nos quais o CEFET-MA marcou presença, estão as reuniões anuais da SBPC, o CONNEPI, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e uma das mais recentes conquistas da gestão Fábio Sales com a direção do Professor José Costa – atual diretor geral do CEFET-MA e Presidente do CONCEFET – a realização da II Jornada Nacional de Produção Científica em Educação Profissional e Tecnológica em São Luís, sediada pelo CEFET-MA.

Com todo esse trabalho em prol da melhoria na qualidade do ensino da física e no desenvolvimento da pesquisa no estado, quando questionado sobre os desafios que enfrenta para dar continuidade aos projetos, o professor recorre a um fator essencial capaz de impulsionar qualquer tipo de trabalho independente do auxílio financeiro: a dificuldade em montar um grupo de profissionais compromissados com a construção do conhecimento através da humanização e da ética. "Meu maior trabalho é ver a preocupação dos estudantes com a parte social, mas fica difícil trabalhar, movimentar essa turma se na maioria das vezes, inicio um trabalho junto com outros professores, mas ao fim chego só eu e o professor Jorge", lamenta citando o atuante professor de Filosofia do Departamento de Ciências Humanas e Sociais (DHS) do CEFET-MA, Jorge Leão. Mas ainda assim, o coordenador garante que em todos os projetos desenvolvidos há um retorno muito satisfatório dos alunos.


PESQUISAS ORIENTADAS PELO PROFESSOR FÁBIO SALES
ENTRE OS ANOS DE 2005 E 2008

Saldo de pesquisas desenvolvidas:
34
Supervisões e orientações concluídas:
24
- quatro trabalhos de conclusão de curso de graduação;
- dez projetos de iniciação científica;
- dez orientações de outra natureza.

Orientações em andamento:
10
- uma dissertação de mestrado;
- um trabalho de conclusão de curso;
- oito projetos de iniciação
científica.

O CEFET PESQUISADOR EM NÚMEROS:

Financiadoras das pesquisas:
FAPEMA
(Fundo de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado)
CEFET-MA
(Programa de Bolsas de Iniciação Científica)
Bolsas concedidas:
Edital FAPEMA:
- 2006: 20 (de 50)
- 2007: 27 (de 100)
- 2008: 100 (de 200)
Edital CEFET:
2008: 5 projetos financiados
2009: previsão de 11 novas bolsas
2010: previsão de 20 novas bolsas
Investimento:
PIBIC-jr
R$ 3.000,00 por ano
(cada pesquisa)
Iniciação Científica
R$ 6.000,00 por ano
(cada pesquisa)

Número de pesquisadores por projeto:
Máximo de 5 estudantes
Projetos atuais desenvolvidos por todos os pesquisadores do CEFET-MA:
200
(em nível médio, técnico e superior)


E é esse resultado positivo que o motiva a continuar trabalhando em novas idéias e projetos. Dentre as linhas de pesquisa mais promissoras e inovadoras estão o desenvolvimento do ensino voltado aos portadores de deficiências físicas, o projeto de educação para jovens e adultos (PROEJA) e ainda o trabalho em torno da produção de um controle remoto universal, que segundo o professor Fábio será capaz de operar tudo, desde aparelhos eletroeletrônicos – tv’s, rádios, dvd’s – até comandos como ligar e desligar lâmpadas e sinalizar invasão de domicílio.

O diferencial

Aliar pesquisa, ensino e extensão com competência é o forte das instituições de ensino da rede federal, tanto nas universidades quanto nas escolas técnicas e agrícolas cobertas pelo sistema. No entanto, acrescentar a esse tripé o controle logístico na gestão de eventos de pequeno, médio e grande porte é um desafio que o professor Fábio encara com tranqüilidade. E conciliar o trabalho burocrático com a sala de aula é uma "dobradinha" que o coordenador tira de letra. "A formação vinda da licenciatura ensinou a planejar bem as aulas e com antecedência. E as viagens como representante de grupos de pesquisa acrescida de experiências como a Presidência do Centro Acadêmico de Física trouxeram muitos ensinamentos sobre organização de eventos, desde feiras de ciências até encontros de caráter nacional."

Confira o quadro com o número de participações que comprovam a vasta experiência do professor em gestão, pesquisa, ensino e extensão:

Participação como congressista, expositor e orientador:
97 eventos
Gestão e Organização de seminários, mostras, olimpíadas, simpósios e congressos:
32 eventos

Não é à toa que o professor é Coordenador de Articulação do Ensino Médio e Técnico. Sua função ali é estabelecer as bases da pesquisa, ensino e extensão através da promoção de eventos, com exposições e debates oferecidos dentro do ambiente acadêmico para uma melhoria contínua no desenvolvimento da ciência e da tecnologia dentro do estado do Maranhão.

Com tudo isso, a maior meta é firmar parcerias para a realização de mais pesquisas e unir instituições à comunidade para procurar caminhos de melhoria na qualidade de vida da cidade. Assim, a lição que fica, após conhecer o trabalho do professor Fábio Sales é a certeza de que ali há um profissional comprometido com a vontade de levar conhecimento a todos como uma forma de retribuir tudo o que foi aprendido com muito empenho e dedicação. É o verdadeiro sentido contido dentro da transformação do ensinar em uma "experiência de aprendizagem viva", segundo palavras do professor Jorge Leão.

3 comentários:

filosofia com arte disse...

Talita, muito boa a materia sobre o belissimo trabalho desenvolvido pelo Fabio, ele ficara esse ano de 2009 afastado, mas assim que retornar, vamos contar com essa presença iluminada novamente, enquanto vou dar uma pequena colaboração na area dos projetos de pesquisa, para não esvaziarem tanto...
abraços,
jorge leão

André disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André disse...

Certamente, você tem nessa matéria um ótimo trabalho, a comprovoção do jornalismo feito com qualidade, baseado na preocupação com a sociedade - algo atualmente tão raro em nosso estado. Parabéns!
Matérias como essa revelam o quanto existem pessoas que realmente se empenham para promover o maior bem que uma sociedade pode obter- a educação como fonte de curiosidade permanente e seus resultados sob a forma de melhorias na vida da comunidade. O professor Fábio é um exemplo de vida e dedicação para todos nós, um lutador e muito mais que isso: ele é o símbolo do novo CEFET que temos construído a cada dia.
O que você acha de tentarmos publicar a rerportagem na REVISTA INOVAÇÃO da FAPEMA? Acredito ser muito pertinente!

Grande Beijo!
André Mendes