segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Impasse: ética x impossibilidade da prática

Por Talita Guimarães
Não é de hoje que o ingresso em uma universidade constitui o sonho de grande parcela dos estudantes concluintes do Ensino Médio. O desafio que os separa de tal realização, ainda é a temida e concorrida prova do vestibular. Até aí todas as dúvidas giram em torno da escolha pelo curso e da preocupação com a preparação para enfrentar os exames com êxito.

Passada a prova e o resultado positivo, o sonho aparentemente se transforma em realidade e o então calouro pode enfim, desfrutar das maravilhas do seu curso e do aprendizado crescente em torno da profissão que escolheu e se identifica. Entretanto, com o passar do tempo e os semestres na faculdade, o acadêmico começa a conhecer a realidade da profissão através dos comentários de alguns professores que atuam no meio e até mesmo de colegas que conseguem estágio ou emprego concomitante ao curso. É aí que o sonho se desanuvia transformando-se em preocupação e dúvida: “se no mercado de trabalho tudo funciona completamente diferente do que nos ensina a faculdade, de que adianta a formação acadêmica?”.

Analisando esse contexto sabendo que os cursos de ensino superior são formadores de profissionais responsáveis pela prestação de serviços fundamentais à sociedade, percebe-se que esse tipo de comentário configura um disparate na relação entre a academia e o mercado de trabalho. Afinal, como pode a formação acadêmica ser deixada de lado no campo de atuação para que novas regras vigorem entre os profissionais? De fato, não faria sentido passar quatro anos ocupando lugar em uma faculdade, se o conteúdo aprendido seria inutilizado, ou pior, impossibilitado de ser praticado em função de um sistema preexistente no qual ou o recém-formado se adapta ou fica de fora.

O impasse entre o aprendizado acadêmico e o conhecimento realmente usado no mercado, vem tomando conta dos debates entre estudantes de comunicação da habilitação em Jornalismo. A discussão acerca da ética – fator imprescindível à qualquer prática profissional e indispensável ao jornalista – e a impossibilidade de praticá-la dentro dos veículos de comunicação se dá por conta das linhas editoriais tomadas de ideologias políticas, financeiras e até mesmo religiosas das empresas atuantes no mercado. Essa problemática interfere no verdadeiro trabalho do jornalista, que como profissional tem que estar comprometido com a busca pelo retrato mais fiel possível da realidade e nem sempre pode fazê-lo, ou pelo menos divulgá-lo porque a repercussão de determinados fatos e notícias interferem na vida de pessoas influentes para o veículo – leiam-se anunciantes, grupos políticos, patrocinadores, etc – ou então são matérias que vão contra a linha editorial.

Aceitar o trabalho sob esse regime amiúda o recém-formado que cultivou o sonho de sentar-se na “cadeira dourada da ética” durante todo o período em que esteve na faculdade. Segundo a professora Zefinha Bentivi, em palestra proferida na Faculdade São Luís sobre os Critérios da Noticiabilidade, existem muitos alunos que concluem o curso de Jornalismo com um conteúdo maravilhoso, mas que chegam ao mercado e abaixam a cabeça para o sistema, enveredando pelo básico noticiar de linhas editoriais e ideologias pouco nobres. Muitos se adaptam ao mercado porque precisam do emprego, mas aí cabe o questionamento: vale mais a credibilidade profissional ou o salário no fim do mês? Só a ética é capaz de responder a essa pergunta. Com crédito no currículo, o jornalista atua em que qualquer empresa séria e pode assim, exercer a profissão com a dignidade e seriedade que ela impõe.

Mas se por outro lado, conseguir um emprego não é tão fácil e o único meio até então conseguido é a atuação dentro de uma empresa que lhe poda o lado ético, cabe ao jornalista o desafio de transpor esse impasse por meio da sutileza no trato das notícias trabalhadas e do compromisso pessoal em reunir material, para reportagens merecedoras de cobertura jornalística pela relevância social. Ser sutil é uma questão de inteligência. Basta usufruir do conhecimento em torno do manuseio – nunca manipulação – das palavras e da construção textual para saber onde colocar a “provocação” ou deixar nas entrelinhas o apelo por mudança. Aos poucos, o leitor mais perspicaz vai compreender as mensagens e vai saber opinar a respeito. E para os que não conseguem interpretar as entrelinhas, ficam as reportagens abertas sobre os problemas e os retratos verossímeis dos fatos, produzidas pela abordagem ética e responsável. O resultado não será imediato e a repercussão na população não ocasionará uma mudança gritante, porque esse trabalho obtém resultados a longo prazo. Mas com certeza, o jornalista terá feito a sua parte e contribuído para uma sociedade mais informada e consciente da realidade em que está inserida.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Da poesia ao jornalismo: Ronnald Kelps em verso e prosa.


Estudante de jornalismo e poeta premiado duas vezes pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão, Ronnald Kelps fala sobre a trajetória literária que o guiou à premiação inédita na história do Festival de Poesia mais tradicional do estado do Maranhão e revela: nem só de poesia é feita a produção do bicampeão do Poemará. Sua literatura vai dos versos à prosa, passando por contos, crônicas, romances históricos, ficção científica e até mesmo auto-ajuda.

Por Talita Guimarães

O Teatro Artur Azevedo assistiu, em outubro do ano passado, a mais um espetáculo da literatura maranhense na final do 22°Poemará – Festival Maranhense de Poesia Falada – onde muitos poetas declamaram seus versos à platéia, que pôde votar e eleger a melhor interpretação segundo o júri popular. E foi declamando a poesia autoral “Palavra”, que Ronnald Kelps foi eleito pelo público o melhor intérprete da noite no dia 2 de outubro. Mas a felicidade pelo reconhecimento estava só começando naquela edição, aliás, se repetindo, porque o poeta já carregava na bagagem o primeiro lugar na 16° edição do mesmo prêmio. E logo mais, ao fim das apresentações, em meio ao burburinho sobre quem seria premiado,veio a constatação do talento: 1° lugar em mérito literário, título concedido pelo júri oficial. Estávamos, então, diante do primeiro bicampeão do Poemará.

Mas para quem conheceu Ronnald pela premiada poesia ou pela convivência da faculdade de jornalismo que o rapaz cursa em São Luís-MA, o Ensaios em Foco apresenta o escritor e sua vasta produção. O acadêmico que carrega na bagagem um currículo de militância política, religiosidade e principalmente, efervescente produção literária vinda da infância, quando os primeiros passos para a literatura eram desenhados, literalmente.

Primeiro como um passatempo de infância, o desenho cria os personagens da imaginação da criança e aos poucos é capaz de transportar para o mundo da criação literária. Basta haver incentivo a essa produção para o potencial se desenvolver e dar forma aos primeiros trabalhos de um futuro escritor ou desenhista. Como toda criança de mente fértil e criatividade admirável, Ronnald Kelps dedicou parte da infância à produção de desenhos que recriavam vivências e deixavam no papel as primeiras impressões do menino. Aos poucos, os roteiros ganharam forma na confecção manual de gibis. Os personagens se multiplicaram e viveram grandes aventuras. Hoje somam mais de três mil peripécias escritas em contos, crônicas, animações infantis, romances, novelas e claro, gibis.

Com a visão amadurecida pela idade – 21 anos – a militância política e a alta capacidade de comunicação – Ronnald cursa o quarto período de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo – a produção literária ganha ares de reflexão através da expressão poética e de olhar crítico do jornalista em formação. Cultivando muitos gêneros literários ao mesmo tempo, Ronnald Kelps acredita estar mais próximo da realização pessoal e profissional e um fator é garantido: sua produção é abrangente e caminha a todo vapor.

Ensaios em Foco conversou com o jovem escritor sobre os primeiros passos rumo ao universo literário e suas principais impressões sobre esse mundo maravilhoso de escritores, poetas, jornalistas e claro, leitores em potencial.

Ensaios em Foco – Quando você começou a escrever, como foi o despertar para a literatura e como você descobriu a poesia?

Ronnald Kelps - Aprendi a ler e escrever com cinco anos de idade, e nessa época, eu narrava histórias criadas por mim mesmo rimando-as, mas não registrava nada. O primeiro trabalho que salvei e tenho até hoje, foi o “Pangaré Mascarado’’ (uma espécie de literatura de capa e espada) que inicialmente eu redigia em forma de gibi. Anos depois o reeditei como conto, mas foi ao adaptá-lo para série de super herói que finalmente o aprovei. O “Pangaré Mascarado” é de 1996, quando eu tinha nove anos de idade. Na época, tudo que eu criava era através do desenho. De imaginação muito fértil, tudo que eu imaginava ia pro papel, com as falas dos personagens e as narrações que nesse tempo eram todas rimadas. De minha primeira apresentação teatral inclusive, que foi na peça de Santa Luzia, no festejo em Honra a padroeira daquela comunidade, no natal de 1997, fiz uma nova edição. Logo depois do “Pangaré Mascarado” veio “Ronnald e os monstros do espaço”, “O super esperança”, “Borboleta unicórnio”, “Carteiro Mulher” e “Cavalo Falante”... e ai... Não parei mais. Sou um escritor prolífico, tenho ao todo mais de cinco mil folhetins entre todos os gêneros, (incluindo as pequenas narrações). Poesia mesmo (que é atualmente a minha grande verve) só comecei a escrever de verdade aos onze anos de idade. Antes eu já até titubeava alguns versinhos, mas nada que poderia ser chamado de poesia. Naquele mesmo ano houve um mini concurso de poesias lá na escola. Era a minha primeira poesia, onde eu falava em forma de cordel sobre o clássico do futebol maranhense Sampaio Correa e Moto Clube de São Luis. E eu fiquei em primeiro lugar.

Ensaios em Foco – Você sempre participou do meio literário, desde criança. É um poeta que todos os anos concorre no Poemará e é considerado figurinha carimbada nos eventos literários da capital. Quem mais incentiva suas produções? Vale citar família, amigos em especial, professores, outros escritores e artistas.

Ronnald Kelps – É difícil citar nomes porque a gente acaba sendo injusto com alguém. Porém em toda essa empreitada posso afirmar que certas façanhas não teriam sido possíveis sem o apoio, a amizade, o suporte técnico, os comentários às vezes até bem humorados, de alguns amigos como Dias Miranda, Ribamar Feitosa, Mauro Ciro, Fernando Ramos, Alberico Carneiro, Nauro Machado, Luis Augusto Cassas, Chico Poeta, Expedito Carvalho, Paulo Melo Sousa, Bioque Mesito, entre outros... Além, é claro, de meus pais. Agradeço muito a Deus por conhecer e ter acesso a todas essas pessoas e há tantas outras que eu poderia mencionar aqui, mas levaria a noite inteira para isso. Tenho certeza que estão certos de que não esqueci de nenhum deles.
Ensaios em Foco – A realização de concursos literários gera a oportunidade de reconhecimento de muitos talentos e abre muitas portas aos premiados. Qual foi o primeiro concurso literário que você participou e o primeiro em que foi premiado?

Ronnald Kelps – Oficialmente foi o 15° Festival de poesias da UFMA, realizado em 2001, no Palacete Gentil Braga. Nele participei com um poema de minha autoria intitulado CATACLISMO, o qual eu mesmo fui o intérprete. Alguns dos jurados apontaram minha poesia como possível menção honrosa, mas acabei ficando numa espécie de semifinal para o descontentamento da platéia, em parte formada por família e amigos, que aguardavam o primeiro titulo oficial. Antes, já havia participado de tantos outros e vencidos alguns deles. Já o primeiro concurso literário em que fui premiado, foi justamente na edição seguinte do mesmo evento, o 16° Festival de Poesias da UFMA, realizado no ano de 2002 no Teatro João do Vale, recém reinaugurado. Apostei minhas fichas em uma poesia minha chamada VOLIVEIS, com a qual fui premiado na condição de Hours Concours. Resultado considerado espetacular à época.

Ensaios em Foco – Quando você está em processo de criação das histórias, incluindo as poesias, qual o critério de criação que você utiliza: tema, forma, inspiração...

Ronnald Kelps – Já escrevi sobre todos os temas que você possa imaginar, do grande amor à guerra no Iraque, de genial Beethoven ao corrupto cantarolão Roberto Jéferson, do homem da pedra à nanotecnologia, do triunfalismo da propaganda neoliberalista à atual crise econômica do capitalismo... já me disseram que minha principal inspiração é a questão político-social, já ouvi também que só escrevo para conquistar as mulheres mais rápido, e até que escrevo para ganhar dinheiro. Mas na verdade para eu escrever é uma necessidade, seja lá qual for o tema. Com relação à forma, faço a estratégia do maior poeta da língua portuguesa vivo, Ferreira Gullar. Não sou nem totalmente conservador nem tampouco muito radical com as formas. Acredito que aqueles que irão ser uma referência no futuro, serão aqueles que souberem beber das águas do passado, modificando aos poucos sua estética.

Ensaios em Foco – Sua produção abrange bem mais que a poesia. Você tem em mente quantos poemas e textos em prosa já escreveu?

Ronnald Kelps – Poemas, sonetos, poesias e rai cais, escrevi pouco mais de dois mil. Estão reunidos nos analectos poéticos de Ronnald Kelps – que vão do volume I ao XIV . Textos em prosa, crônicas, animações infantis, gibis, novelas, romances e séries, somam quase três mil. Auto ajuda são dois. Meu romance predileto é “Sabiás da Terra”, que escrevi entre 2005 e 2008. Atualmente, estou me dedicando ao conto “A Marquesa Corsária”, que é uma segunda fase de uma outra trama minha, “Caravela Pirata”.

Ensaios em Foco - Há desejo em reuni-los em um livro ou mesmo uma coletânea?

Ronnald Kelps – Brevemente, o DAC/PROEX/UFMA estará publicando quatro poesias minhas em uma coletânea de poetas maranhenses. Vez ou outra jornais locais publicam um artigo, um poema de minha autoria. A edição do mês de abril (mês do meu aniversário) do semanário Guesa Errante, encartado ao Jornal Pequeno, será um especial sobre minha trajetória. Mas claro que desejo ter minhas próprias publicações. Um dia, com fé em Deus, a gente chega lá.

Ensaios em Foco – Como futuro comunicólogo, destaque a importância da leitura no processo de educação para que haja um maior incentivo nas produções literárias e na formação de novos autores - como foi com você?

Ronnald Kelps – Apesar da grande importância que a leitura e a preservação do conhecimento como um todo tem na formação da pessoa enquanto ser social e repleto de potencialidades, nossos governantes, não estão muito interessadas nesse processo que deveria ser natural. Em São Luis do MA, por exemplo, uma cidade que respira poesia, só possui dois eventos voltados à produção poética e literária, que são o Poemará e o concurso cidade de são Luis. Do qual pretendo participar este ano. Enquanto não banirmos de vez essa gente que só quer saber de explorar nossos bolsos e ocultar nossos talentos, não serão conhecidos novos autores, a menos que ganhem seu espaço aos poucos e aos trancos e barrancos. Como eu, você e tantos outros.

Ensaios em Foco – Qual a sua opinião a respeito do cenário poético atual - nacional e maranhense. Cite, por favor, se suas produções sofrem ou sofreram influências de seus autores preferidos e quais são eles.

Ronnald Kelps – Há quem diga que a poesia morreu. Ao contrário, está mais viva do que nunca antes. A poesia é inclusive das literaturas, a que exige mais responsabilidade. E o poeta maranhense possui um papel de destaque neste processo, porque nossa terra é conhecida como a dos poetas. Nossa poesia é referencia para todo o Brasil e o mundo. Temos os grandes Josué Montello, Gonçalves Dias, Ferreira Gullar, Humberto de Campos, (...) atualmente figuram nomes como Luis augusto Cassas, Dias Miranda e Nauro Machado. Meu autor preferido, é Ferreira Gullar, estou sempre atento a todos, mas de modo particular a este maranhense de uma produção tão curta quanto genial.

Ensaios em Foco – Por fim, por que a escolha pelo curso de jornalismo e se possível, conceda ao blog uma poesia inédita ou que seja uma das suas preferidas (se é que é possível gostar mais de uma que de outra) com uma pequena reflexão em torno da sua escolha pelo tema.

Ronnald Kelps – O jornalista tem que ter uma cultura admirável e o poeta faz esse saber chegar às entranhas que o homem comum não pode alcançar. Poesia e jornalismo são duas das minhas grandes paixões. Além é claro, da militância, da catequese, da família... Assim, sempre me sinto um ser cujo espírito está em elevação, muito próximo da máxima realização. Vamos finalizar então esta entrevista como uma das minhas produções preferidas, a poesia LABAREDAS, um resgate do lirismo para espairecermos desse tumultuado mundo cheio de BBB’s e populismo demagógico. Fiquem com ela:

LABAREDAS

A luz intensa devasta-me quintais
que eu soletro no prelúdio de mim
porque nada e ninguém na penumbra
são verbos do talvez!

A luz intensa devora pronomes
plantados na Décima Sinfonia
e Beethoven dedilha crepúsculos
para o solfejo do sempre

E estas ruas, se fossem minhas,
não morderiam perdidos meninos,
não acatariam a origem das suplicas
de homens e mulheres deteriorados,
deterioradas.

A luz intensa decodifica tambores,
esculpe labaredas, coreografa violinos,
grita à meia-noite do mogno
e vem explodir-se, triunfante,
nos adjetivos de mim
tão ciosos do azul da liberdade!

(Ronnald Kelps)