sexta-feira, 27 de março de 2009

Meio Ambiente em foco

Meio Ambiente e Diversidade Cultural*

Amazônia é discutida em coletânea de pesquisadores do Maranhão e Rio de Janeiro
Pesquisadores lançam livro na próxima segunda-feira, 30/03, às 19h, na UFMA


O livro “Amazônia: desenvolvimento, meio ambiente e diversidade sociocultural”, uma coletânea de professores e pesquisadores do Maranhão e do Rio de Janeiro, será lançado nesta segunda-feira, dia 30 de março, às 19h, no auditório B do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Campus do Bacanga, em São Luís.

O trabalho é resultado de dois anos de pesquisas realizadas pela UFMA e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), pelo Projeto Procad-Capes "Amazônia e os paradigmas do desenvolvimento", organizado pelos professores Sérgio Figueiredo Ferretti (UFMA) e José Ricardo Ramalho (UFRJ) e com surpervisão editorial do professor Marcelo Sampaio Carneiro (UFMA).

Segundo a antropóloga e professora Maristela de Paula Andrade (UFMA), os autores se debruçam sobre realidades empíricas distintas para pensar o papel do Estado e de empresas nos processos de desenvolvimento e mudança social na Amazônia. “Eles se perguntam sobre a ação oficial, a parceria entre interesses empresariais e o Estado Brasileiro e a movimentação de segmentos sociais em busca de reafirmação de direitos sobre territórios e recursos fundamentais a sua reprodução social”.

De acordo com a coletânea, em um mundo globalizado e ambientalizado, tendo a Amazônia como foco importante das preocupações com a vida no planeta, muitos segmentos sociais de pequenos produtores passaram a assumir a co-gestão de parcelas consideráveis do território, hoje protegido pela criação de unidades de conservação (UCs) e terras indígenas (TIs), em quase 50% de sua extensão. “Pensados sempre como obstáculos ao desenvolvimento, tornaram-se agora aliados e protagonistas dos projetos que propõem outro tipo de desenvolvimento”, diz a introdução da obra, escrita pelos pesquisadores Sérgio Ferreti, Neide Esterci e José Ricardo Ramalho, o primeiro da UFMA e os dois últimos da UFRJ.

O livro também se volta à análise de festas e rituais presentes em lugares de culto afro-brasileiro no Maranhão e de seu tratamento por uma das vertentes formadoras do pensamento sociológico e antropológico - os estudos de folclore. Esses trabalhos permitem perceber um dos aspectos da resistência cultural das populações tradicionais frente às políticas que as mantêm na invisibilidade.

AULA INAUGURAL - Antes do lançamento da coletânea, será ministrada a aula inaugural de mais uma turma do Mestrado em Ciências Sociais da UFMA. O professor convidado é André Botelho, da UFRJ, que tratará do tema “Sociologia da ação coletiva: questões conceituais”. A aula inaugural está marcada para começar às 17h, no mesmo local.

SERVIÇO
O quê? Lançamento de Livro intitulado "Amazônia: desenvolvimento, meio ambiente e diversidade sociocultural", organizado pelos professores Sérgio Figueiredo Ferretti (UFMA) e José Ricardo Ramalho (UFRJ)
Quando? 30 de março, segunda-feira, às 19h
Onde? Auditório B do Centro de Ciências Humanas, na UFMA – Campus do Bacanga (São Luís-MA)
Entrada gratuita

Mais informações: (98) 8821-3981 (98) 8414-1684
*Fonte: Professora Flávia Moura

CAMPANHA EM FOCO!!!!!


Por um jornalismo além do lead ...

Apesar da atual luta dos jornalistas brasileiros estar direcionada à regulamentação da profissão, um outro fator relevante vem ocupando espaço nas discussões entre acadêmicos de comunicação, professores e profissionais. Trata-se da crescente displicência com a qual os fatos e informações vêm sendo tratados pela mídia. E a gravidade decorre da ausência de responsabilidade social, que configura a perda da ética entre os agentes das práticas midiáticas – os comunicólogos e os veículos de comunicação.

Antes de pensar a ética jornalisticamente – tanto como requisito para exercer a profissão quanto pauta a ser trabalhada em reportagens – é preciso que o estudante de jornalismo analise as próprias concepções éticas dentro do contexto social em que está inserido, verificando as atitudes que tomaria diante de situações aparentemente corriqueiras. E aí vale citar circunstâncias que costumam passar despercebidas pela banalidade com que são tratadas, como por exemplo a quantidade de pedintes que entram nos coletivos durante o dia.

Muitos de nós, já se acostumaram a vê-los como personagens que fazem parte do cenário do transporte coletivo. Tanto que há gente que nem sequer pára para ouvi-los e que vão logo indicando com o dedo que não querem ler o papel ou segurar os doces ofertados junto a um bilhete. Como uma espécie diferenciada de pregoeiros, esses “personagens” costumam trazer em folhetos ou em textos visivelmente decorados, histórias das mais variadas - que vão do rapaz que pede ajuda para comprar as balas que costuma revender nos ônibus aos casos de doentes em estado grave que precisam tomar remédios caríssimos ou pagar por cirurgias fora do Estado. Em comum, todos pedem qualquer quantia em dinheiro como um ato de caridade ou “ajuda ao próximo” . Até aí, tudo aparentemente normal. Quem tem algum trocado disponível, ajuda. Quem gosta do doce, compra e todos se sentem “felizes” em fazer a boa ação do dia. Mas será que alguém reconhece que ali naquele dinheiro que não lhe fará tanta falta e está sendo dado por livre e espontânea vontade está inserido um tributo de desigualdade social? E aí cabe a informação, porque se trata do famoso imposto da informalidade: a esmola.

Em suma, essas pessoas que pedem ajuda nos ônibus compõem uma camada da sociedade que está desamparada pelo governo de algum modo, vítimas de alguma falha oriunda do processo educacional que pode ter culminado na saúde e vice-versa. O que se sabe de fato é que são pessoas cujas histórias acabam comovendo quem as ouve e criando um sistema que cresce por necessidade – leia-se sobrevivência - mas também por comodismo, e o pior, oportunismo de quem não precisa estar pedindo doação, mas pede por desrespeito ao cidadão que não lhe negará ajuda.

O sentimento de desconfiança da população cresce na mesma proporção em que aumenta o número de pedintes, pois surge a questão: a esmola dada de bom grado acomoda quem a recebe porque sempre haverá a garantia de que uma história comovente dará lucro. E se por um lado, esse pensamento faz algum sentido, por outro torna egoísta quem pode ajudar em um momento cujo auxílio seria imprescindível. Afinal, quem vai descer do ônibus e acompanhar o suposto pai de família desempregado até uma bomboniere para garantir que a ajuda comprou as balas que serão revendidas na próxima viagem? Ou mesmo vai procurar saber quem são os pais da criança que pediu dinheiro no ônibus para ajudar a sustentar a família com muitos irmãos menores? Quem tem real tempo e disposição de verificar se esse dinheiro teve o destino esperado? Ora, se não costumamos fazer isso com os impostos que o governo nos cobra, embutidos em todos os bens e serviços que pagamos...

A questão que fica, independente da escolha entre ajudar ou não - assunto aparentemente longe dos processos comunicacionais - leva a duas questões de debate interligado e de interesse jornalístico: a indústria da esmola e o papel do jornalista diante do tratamento ético dessa realidade social.

Se como cidadãos, usuários do transporte coletivo, ficamos na dúvida na hora de comprar a bala, ler o papel entregue pela criança raquítica, ouvir o apelo de quem diz – mesmo que perceptivelmente decorado – ter um ente querido muito doente, ou ser inválido para trabalhar, como futuros jornalistas podemos voltar nosso olhar para o papel que a profissão impõe e assumir a responsabilidade social de tratar essa realidade com ética, uma vez que somos detentores do poder de comunicar e esclarecer os fatos em larga escala para a sociedade.

Desse modo, cabe tanto aos estudantes de comunicação quanto aos profissionais atuantes no meio, resgatar a importância da contribuição que uma reportagem de tratamento ético sobre questões sociais pode exercer. A repercussão de uma matéria bem pesquisada, que aponte a situação vivida pela população e esclareça os fatos indicando as causas e motivos daquela realidade que se visa mudar, torna a população capaz de compreender o meio em que vive. E uma vez esclarecidas em torno da máquina governamental, dos seus direitos e deveres, as pessoas podem deixar de lado a dúvida e partir para uma ação mais participativa, seja por parte de uma cobrança efetiva do governo ou por ações isoladas que rendem resultados muito positivos, como a formação de ONG’S, ações sociais, trabalho voluntário, etc.

O que vale nesse contexto é ser o jornalista da visão ética e responsável, que usufrui do benefício da profissão e do conhecimento adquirido para construir uma sociedade melhor, por meio da comunicação e dos esclarecimentos advindos da informação veiculada com compromisso social. Por tudo isso, devemos saber conciliar o lado técnico da prática jornalística, muitas vezes mecanizado pelos eternos produtores de lead’s com seu básico noticiar a sangue frio o “quem-disse-o-quê-quando-onde-e-porquê?”, para dar ênfase ao aspecto de maior relevância - quando se trata de possibilitar a formação de opinião e ação - que é o “com qual desdobramento?”, cuja análise permite a interpretação dos fatos e leva a conclusão e opinião sobre eles.

Portanto, quando deparares tu, foca ou jornalista, com um personagem de uma história dessas, não fique na dúvida sobre dar ou não os poucos centavos que lhe restam na carteira. Visualize a realidade e guarde aquele retrato para a sua próxima pauta. Escreva-a, reporte-a com seriedade e encontre um meio de publicá-la. Essa será a sua ajuda para que a situação incômoda gerada por um sistema alimentado pela dúvida mude ou tenha pelo menos, reais chances de mudar.
Talita Guimarães é acadêmica do 4° Período de Jornalismo da Faculdade São Luís

quinta-feira, 12 de março de 2009

Opinião em foco


Discípulos do Cristo ou escravos da lei?...

Por Jorge Leão*
A declaração do bispo católico, em Olinda, Pernambuco, semana passada, sobre o caso da menina que foi violentada, e precisou interromper a gravidez, causou-me uma profunda reflexão.
O que, neste caso específico, foi mais importante para a declaração do bispo? A menina, cruelmente usada por um desequilibrado, ou a sua visão teológica sobre o caso? Pelo teor de suas declarações, ficou claro que a sua opção foi por suas convicções doutrinárias.
A excomunhão da igreja me parece ser outra coisa grave. É como se os homens que se incumbem de ser "representantes de Deus na terra" tivessem o poder de julgar, além do bem e do mal. Afastar o médico e a família da comunhão é algo doloroso, para quem é católico fervoroso. Mas, para quem avalia a questão pelo âmbito laico, fica a interrogação: o que estamos fazendo em nome de Deus, leva de fato em consideração a pessoa humana?
Isso, certamente, colocaria em xeque a própria arrogância do bispo, que nada mais é do que o porta-voz de uma visão clericalista que insiste em permanecer julgando o pecado alheio, e não adentrar fundo nas questões humanas. O aborto, neste caso para poupar a vida daquela indefesa criança de apenas nove anos de idade, é considerado pela igreja como pecado grave, pois interrompe a vida. E no caso desta menina, não se avalia o ato de morte que foi o estupro? Um atentado contra a dignidade da pessoa, de uma criança, que levará esse trauma por toda vida. O aborto já tinha sido praticado, pois a vida daquela menina foi certamente interrompida pela violência cruel a que foi submetida. Isso não foi levado em consideração pelas declarações do bispo.
Devemos considerar o estado de coisas que temos diante de nós. Parece que o amor é o último critério a ser convocado para alguma análise mais humana. Lembro-me da passagem em que Jesus é defrontado por um grupo de fariseus com pedras nas mãos para apedrejar a mulher que tinha sido pega em flagrante adultério (Cf. Evangelho de Jesus segundo João 8, 1-11). Todos aguardavam ansiosos a posição do Mestre. Eles o interrogam para pô-lo a prova: "na lei de Moisés devemos apedrejar essa mulher, e tu, o que dizes?" Era incontestavelmente uma prova de seu amor pela humanidade que estava em jogo. Ele permanece em silêncio, inclinado ao chão. Persistindo na interrogação, Jesus então responde: "Quem nunca pecou pode pegar a primeira pedra e atirar na mulher". Foi o suficiente para que todos se retirassem, a começar pelos mais velhos...
"Ninguém te condenou?", perguntou Jesus à mulher, "pois eu também não te condeno, vai e não tornes a pecar". Essa passagem do Evangelho pode nos ajudar muito a um debate mais profundo no caso da menina de Olinda. O que pesou na decisão de Jesus? O pecado da mulher ou a oportunidade de reconciliá-la consigo mesma e com Deus pelo amor, que se manifesta no acolhimento do perdão? Jesus foi enfático, o amor é maior que a lei de Moisés. E mais uma vez, não parece ter sido esse o caminho traçado mediante as declarações do bispo católico.
No caso da menina, não havia pecado nela, pois ela foi vítima do maior pecado, que é não amar. O estupro é uma prova concreta de anulação do amor. O amor é um ato de doação, não de coação. Só se ama quando há entrega livre e espontânea, para que o corpo seja morada do amor, e que Deus abençoe cada gesto de entrega por amor. Isso, me parece, também não foi levado em consideração pela visão do bispo. Por isso, precisamos reavaliar nossos dogmas e nossas “verdades” sobre Deus, antes que a lei tome conta de vez de nossa humanidade, pouco lembrada em momentos como esses...
Até o momento, o que se observa é a perplexidade pelo caso, coisa comum diante de uma mídia de impacto puramente televisivo e sensacionalista. Mas, o que se espera de fato é que o autor da violência seja julgado e condenado, para que a família da criança possa, minimamente, conduzir a criação dessa vida, que não pode mais ser interrompida, muito menos afastada da comunhão do amor de todos que a cercam, embora sua família encontrando-se supostamente afastada da “comunhão” da igreja católica apostólica romana...
*Professor de Filosofia do Instituto Federal do Maranhão e membro do Movimento Familiar Cristão