sexta-feira, 27 de março de 2009

CAMPANHA EM FOCO!!!!!


Por um jornalismo além do lead ...

Apesar da atual luta dos jornalistas brasileiros estar direcionada à regulamentação da profissão, um outro fator relevante vem ocupando espaço nas discussões entre acadêmicos de comunicação, professores e profissionais. Trata-se da crescente displicência com a qual os fatos e informações vêm sendo tratados pela mídia. E a gravidade decorre da ausência de responsabilidade social, que configura a perda da ética entre os agentes das práticas midiáticas – os comunicólogos e os veículos de comunicação.

Antes de pensar a ética jornalisticamente – tanto como requisito para exercer a profissão quanto pauta a ser trabalhada em reportagens – é preciso que o estudante de jornalismo analise as próprias concepções éticas dentro do contexto social em que está inserido, verificando as atitudes que tomaria diante de situações aparentemente corriqueiras. E aí vale citar circunstâncias que costumam passar despercebidas pela banalidade com que são tratadas, como por exemplo a quantidade de pedintes que entram nos coletivos durante o dia.

Muitos de nós, já se acostumaram a vê-los como personagens que fazem parte do cenário do transporte coletivo. Tanto que há gente que nem sequer pára para ouvi-los e que vão logo indicando com o dedo que não querem ler o papel ou segurar os doces ofertados junto a um bilhete. Como uma espécie diferenciada de pregoeiros, esses “personagens” costumam trazer em folhetos ou em textos visivelmente decorados, histórias das mais variadas - que vão do rapaz que pede ajuda para comprar as balas que costuma revender nos ônibus aos casos de doentes em estado grave que precisam tomar remédios caríssimos ou pagar por cirurgias fora do Estado. Em comum, todos pedem qualquer quantia em dinheiro como um ato de caridade ou “ajuda ao próximo” . Até aí, tudo aparentemente normal. Quem tem algum trocado disponível, ajuda. Quem gosta do doce, compra e todos se sentem “felizes” em fazer a boa ação do dia. Mas será que alguém reconhece que ali naquele dinheiro que não lhe fará tanta falta e está sendo dado por livre e espontânea vontade está inserido um tributo de desigualdade social? E aí cabe a informação, porque se trata do famoso imposto da informalidade: a esmola.

Em suma, essas pessoas que pedem ajuda nos ônibus compõem uma camada da sociedade que está desamparada pelo governo de algum modo, vítimas de alguma falha oriunda do processo educacional que pode ter culminado na saúde e vice-versa. O que se sabe de fato é que são pessoas cujas histórias acabam comovendo quem as ouve e criando um sistema que cresce por necessidade – leia-se sobrevivência - mas também por comodismo, e o pior, oportunismo de quem não precisa estar pedindo doação, mas pede por desrespeito ao cidadão que não lhe negará ajuda.

O sentimento de desconfiança da população cresce na mesma proporção em que aumenta o número de pedintes, pois surge a questão: a esmola dada de bom grado acomoda quem a recebe porque sempre haverá a garantia de que uma história comovente dará lucro. E se por um lado, esse pensamento faz algum sentido, por outro torna egoísta quem pode ajudar em um momento cujo auxílio seria imprescindível. Afinal, quem vai descer do ônibus e acompanhar o suposto pai de família desempregado até uma bomboniere para garantir que a ajuda comprou as balas que serão revendidas na próxima viagem? Ou mesmo vai procurar saber quem são os pais da criança que pediu dinheiro no ônibus para ajudar a sustentar a família com muitos irmãos menores? Quem tem real tempo e disposição de verificar se esse dinheiro teve o destino esperado? Ora, se não costumamos fazer isso com os impostos que o governo nos cobra, embutidos em todos os bens e serviços que pagamos...

A questão que fica, independente da escolha entre ajudar ou não - assunto aparentemente longe dos processos comunicacionais - leva a duas questões de debate interligado e de interesse jornalístico: a indústria da esmola e o papel do jornalista diante do tratamento ético dessa realidade social.

Se como cidadãos, usuários do transporte coletivo, ficamos na dúvida na hora de comprar a bala, ler o papel entregue pela criança raquítica, ouvir o apelo de quem diz – mesmo que perceptivelmente decorado – ter um ente querido muito doente, ou ser inválido para trabalhar, como futuros jornalistas podemos voltar nosso olhar para o papel que a profissão impõe e assumir a responsabilidade social de tratar essa realidade com ética, uma vez que somos detentores do poder de comunicar e esclarecer os fatos em larga escala para a sociedade.

Desse modo, cabe tanto aos estudantes de comunicação quanto aos profissionais atuantes no meio, resgatar a importância da contribuição que uma reportagem de tratamento ético sobre questões sociais pode exercer. A repercussão de uma matéria bem pesquisada, que aponte a situação vivida pela população e esclareça os fatos indicando as causas e motivos daquela realidade que se visa mudar, torna a população capaz de compreender o meio em que vive. E uma vez esclarecidas em torno da máquina governamental, dos seus direitos e deveres, as pessoas podem deixar de lado a dúvida e partir para uma ação mais participativa, seja por parte de uma cobrança efetiva do governo ou por ações isoladas que rendem resultados muito positivos, como a formação de ONG’S, ações sociais, trabalho voluntário, etc.

O que vale nesse contexto é ser o jornalista da visão ética e responsável, que usufrui do benefício da profissão e do conhecimento adquirido para construir uma sociedade melhor, por meio da comunicação e dos esclarecimentos advindos da informação veiculada com compromisso social. Por tudo isso, devemos saber conciliar o lado técnico da prática jornalística, muitas vezes mecanizado pelos eternos produtores de lead’s com seu básico noticiar a sangue frio o “quem-disse-o-quê-quando-onde-e-porquê?”, para dar ênfase ao aspecto de maior relevância - quando se trata de possibilitar a formação de opinião e ação - que é o “com qual desdobramento?”, cuja análise permite a interpretação dos fatos e leva a conclusão e opinião sobre eles.

Portanto, quando deparares tu, foca ou jornalista, com um personagem de uma história dessas, não fique na dúvida sobre dar ou não os poucos centavos que lhe restam na carteira. Visualize a realidade e guarde aquele retrato para a sua próxima pauta. Escreva-a, reporte-a com seriedade e encontre um meio de publicá-la. Essa será a sua ajuda para que a situação incômoda gerada por um sistema alimentado pela dúvida mude ou tenha pelo menos, reais chances de mudar.
Talita Guimarães é acadêmica do 4° Período de Jornalismo da Faculdade São Luís

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