quinta-feira, 12 de março de 2009

Opinião em foco


Discípulos do Cristo ou escravos da lei?...

Por Jorge Leão*
A declaração do bispo católico, em Olinda, Pernambuco, semana passada, sobre o caso da menina que foi violentada, e precisou interromper a gravidez, causou-me uma profunda reflexão.
O que, neste caso específico, foi mais importante para a declaração do bispo? A menina, cruelmente usada por um desequilibrado, ou a sua visão teológica sobre o caso? Pelo teor de suas declarações, ficou claro que a sua opção foi por suas convicções doutrinárias.
A excomunhão da igreja me parece ser outra coisa grave. É como se os homens que se incumbem de ser "representantes de Deus na terra" tivessem o poder de julgar, além do bem e do mal. Afastar o médico e a família da comunhão é algo doloroso, para quem é católico fervoroso. Mas, para quem avalia a questão pelo âmbito laico, fica a interrogação: o que estamos fazendo em nome de Deus, leva de fato em consideração a pessoa humana?
Isso, certamente, colocaria em xeque a própria arrogância do bispo, que nada mais é do que o porta-voz de uma visão clericalista que insiste em permanecer julgando o pecado alheio, e não adentrar fundo nas questões humanas. O aborto, neste caso para poupar a vida daquela indefesa criança de apenas nove anos de idade, é considerado pela igreja como pecado grave, pois interrompe a vida. E no caso desta menina, não se avalia o ato de morte que foi o estupro? Um atentado contra a dignidade da pessoa, de uma criança, que levará esse trauma por toda vida. O aborto já tinha sido praticado, pois a vida daquela menina foi certamente interrompida pela violência cruel a que foi submetida. Isso não foi levado em consideração pelas declarações do bispo.
Devemos considerar o estado de coisas que temos diante de nós. Parece que o amor é o último critério a ser convocado para alguma análise mais humana. Lembro-me da passagem em que Jesus é defrontado por um grupo de fariseus com pedras nas mãos para apedrejar a mulher que tinha sido pega em flagrante adultério (Cf. Evangelho de Jesus segundo João 8, 1-11). Todos aguardavam ansiosos a posição do Mestre. Eles o interrogam para pô-lo a prova: "na lei de Moisés devemos apedrejar essa mulher, e tu, o que dizes?" Era incontestavelmente uma prova de seu amor pela humanidade que estava em jogo. Ele permanece em silêncio, inclinado ao chão. Persistindo na interrogação, Jesus então responde: "Quem nunca pecou pode pegar a primeira pedra e atirar na mulher". Foi o suficiente para que todos se retirassem, a começar pelos mais velhos...
"Ninguém te condenou?", perguntou Jesus à mulher, "pois eu também não te condeno, vai e não tornes a pecar". Essa passagem do Evangelho pode nos ajudar muito a um debate mais profundo no caso da menina de Olinda. O que pesou na decisão de Jesus? O pecado da mulher ou a oportunidade de reconciliá-la consigo mesma e com Deus pelo amor, que se manifesta no acolhimento do perdão? Jesus foi enfático, o amor é maior que a lei de Moisés. E mais uma vez, não parece ter sido esse o caminho traçado mediante as declarações do bispo católico.
No caso da menina, não havia pecado nela, pois ela foi vítima do maior pecado, que é não amar. O estupro é uma prova concreta de anulação do amor. O amor é um ato de doação, não de coação. Só se ama quando há entrega livre e espontânea, para que o corpo seja morada do amor, e que Deus abençoe cada gesto de entrega por amor. Isso, me parece, também não foi levado em consideração pela visão do bispo. Por isso, precisamos reavaliar nossos dogmas e nossas “verdades” sobre Deus, antes que a lei tome conta de vez de nossa humanidade, pouco lembrada em momentos como esses...
Até o momento, o que se observa é a perplexidade pelo caso, coisa comum diante de uma mídia de impacto puramente televisivo e sensacionalista. Mas, o que se espera de fato é que o autor da violência seja julgado e condenado, para que a família da criança possa, minimamente, conduzir a criação dessa vida, que não pode mais ser interrompida, muito menos afastada da comunhão do amor de todos que a cercam, embora sua família encontrando-se supostamente afastada da “comunhão” da igreja católica apostólica romana...
*Professor de Filosofia do Instituto Federal do Maranhão e membro do Movimento Familiar Cristão

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