terça-feira, 28 de abril de 2009

CRÍTICA EM FOCO

Persépolis: quando a arte supera o terror da guerra

Por Talita Guimarães


“Uma animação em preto e branco cujo enredo está centrado no relato de uma jovem iraniana que cresce em meio à revolução islâmica e assiste de perto aos horrores da guerra política e religiosa no Irã.”


Essa seria uma descrição concisa, quase simplória, do que é o longa metragem “Persépolis”. Adaptado para o cinema e indicado a inúmeros prêmios, entre eles o Oscar de Melhor Filme de Animação e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, e tendo arrebatado ainda dois prêmios do Público no Festival de Roterdã e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “Persépolis” é melhor definido como a narrativa autobiográfica de uma menina iraniana que cresce aprendendo desde cedo o que é uma guerra de cunhos religioso, político e ideológico e o que ela é capaz de mudar na vida das pessoas.


Marjane, a personagem apresentada inicialmente ao público pela figura adulta da protagonista, está em um saguão de aeroporto e após ter seu passaporte vistoriado, vai aguardar pelo voo em uma cadeira solitária. A partir de então, acende um cigarro e entre uma baforada e outra, mescla suas lembranças de infância com uma narração, que beira a melancolia, de suas impressões sobre a revolução política que culmina no exílio do líder monarca e na tomada de poder do chefe religioso que dá início a república populista teocrática islâmica., em 1979. Dessa forma, o espectador conhece, paralelamente ao contexto histórico do país do oriente médio, a personagem desde a menininha de oito anos e espírito revolucionário, passando pela jovem que tenta viver a adolescência desfrutando das mesmas descobertas e mudanças que os jovens de uma sociedade normal até a formação da mulher que entre muitas indas e vindas entre Teerã e a França, perde-se entre paixões mal resolvidas, envolvimento com punks e um desejo incontrolável de mudar o cenário do país de origem e poder orgulhar-se de sua nacionalidade.

Apesar do contexto forte e da possibilidade de uma narrativa crescente, “Persépolis” - a história real de Marjane Satrapi, adaptada dos quadrinhos da própria Marjane para o desenho animado - decepciona pela ausência de intensidade, pois falta ao enredo um clímax que anime o espectador a acreditar na mudança de atitude da personagem principal e na relevância de sua história de vida ser contada nos cinemas de forma tão singular. Um outro aspecto que deve ser levado em consideração, é a linguagem utilizada pela protagonista. Marjane é sim uma mulher que luta pela independência e possui um caráter muito forte, no entanto sua indignação com o sistema constantemente dá lugar ao uso de palavras de baixo escalão, como frequentes palavrões e expressões depreciativas - os personagens, em um contexto geral soltam palavrões durante várias cenas, mas Marjane exclama mais sonoramente durante uma cena em que, aos oito anos de idade, delira estar falando com Deus e o questiona quanto as ações dos homens do regime. Fora isso, a personagem tem várias chances de crescer, mas sempre se deixa levar pela fraqueza e por uma depressão que a afasta de seu grande potencial para a revolução. Perde-se muito mais reunindo-se a jovens rebeldes que desconsideram os estudos e entre romances inconsequentes que a fazem sofrer do que envolvida em questões mais pertinentes e que com algum efeito gerem uma mudança significativa na sociedade que ela tanto reclama.

Por fim, quem acaba sendo a autora de frases louváveis e ensinamentos incontestáveis é a avó de Marjane, uma senhora sábia para quem a protagonista sempre recorre nos momentos mais difíceis. Uma sequência interessante é projetada quando Marjane sai de uma festa dizendo que é francesa - renegando claramente suas origens - e é perseguida pela própria consciência, que se apresenta na figura da avó. Marjane discute consigo mesma em uma viela escura e acaba soltando a frase “Não passamos de fanáticos aos gritos que lutam uns contra os outros” em uma reação de preconceito e vergonha contra a própria origem, numa tentativa fracassada de justificar sua atitude no bar.

No entanto, não é por falta de boa produção ou poesia, que o filme de 95 min deixa a desejar. Pelo contrário, “Persépolis” mostra-se arrojado, de uma narrativa ousada com desenhos e tons, que apesar do preto e branco, transparecem vivacidade e movimento na tela. Aliás, a tonalidade escolhida para colorir o longa, contextualiza o público com o clima de guerra, que ocasiona tanto destruição material - há cenas de bombardeio em que Marjane-menina acorda assustada com o barulho e é levada pelos pais para um refúgio nos subsolos do prédio onde mora - quanto uma quebra de ideais, famílias, crenças e projetos de vida.

Marjane é muito mais vítima de uma série de desencontros do que uma heroína. Apesar de ter sido uma criança cujas ações e pensamentos contestavam o sistema e brigavam por uma revolução e uma mudança urgente, a personagem não cresce no sentido de usufruir de seu potencial revolucionário para protagonizar um movimento em prol de mudanças no cenário de seu país. No filme, aos primeiros vestígios do idealismo da Marjane adolescente, os pais a enviam para estudar na França, afastando-a do Irã e dos perigos de se contrapor declaradamente ao governo. Na tentativa de protegê-la, acabam podando seu espírito jovem de revolução se sobressair. O resultado não é animador, uma vez que Marjane não consegue fugir aos conflitos psicológicos de uma vida permeada pelo medo de uma guerra e a insegurança de viver sob olhares ameaçadores que não permitem um movimento de liberdade ou o direito de ser um cidadão satisfeito em seu próprio país.


Assim, “Persépolis” mostra que a história de Marjane Satrapi é mais um caso que exemplifica a situação de pessoas que se sentem como “estrangeiros em seu próprio país”. Mas se por um lado, a protagonista da animação não se mostra heroína, a Marjane da vida real não foge à realidade e a indignação provocada por ela, de modo que é autora de quatro livros da série que intitula o filme e percorre o mundo divulgando sua história e convencendo platéias por meio da arte, que a guerra nunca traz benefícios, pelo contrário apenas gera medo e ocasiona perdas crescentes. Ou recorrendo às sábias tiradas da avó, entende-se por fim que “É o medo que nos faz perder a nossa própria consciência”. E é a isso que a protagonista da vida real combate, atualmente.

sábado, 25 de abril de 2009

JORNALISMO EM FOCO


Por Talita Guimarães

BOURDIEU, Pierre. A Influência do Jornalismo.In:____Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

Discutir os rumos da sociedade tendo em vista a influência que o jornalismo exerce sobre a visão de mundo das pessoas é uma pauta constante entre profissionais e estudantes de comunicação social. Entretanto, é necessário partir do princípio que o exercício da profissão está ligado intimamente à construção de um conhecimento ora coletivo ora individual baseado nas informações que a mídia produz e repassa diariamente às pessoas, e é fato que as considerações ligadas a esse debate requerem um olhar analítico sob a formação dos jornalistas e do universo que propicia esse fenômeno conhecido como poder do jornalismo.

Em “A influência do Jornalismo”, o pensador francês Pierre Bourdieu, analisa estruturalmente a problemática que envolve a prática jornalística e o peso de seu predomínio sobre a sociedade e principalmente sua relação com as outras áreas de atuação e construção do conhecimento. Bourdieu não estuda o “poder do jornalismo” de modo isolado. Pelo contrário, aponta primeiro os mecanismos da prática jornalística como fatores responsáveis pelo exercício de um jornalismo capaz de influenciar, de modo que é preciso apreender quem são os jornalistas , para quais “grupos” eles trabalham, qual é a base da sua formação e ainda como ocorre a relação do campo jornalístico com a sociedade, conferindo a essa relação a existência de um campo de forças que também exerce pressão sob a área de comunicação social.

Primeiramente, Bourdieu mostra que existem forças externas às redações, que refletem no exercício do jornalismo a vontade de anunciantes, do público, e do mercado em geral. Os jornais podem ser classificados em dois pólos: “comercial” e “intelectual”, onde o primeiro é guiado pela busca de lucro através da prática jornalística de modo que a concentração de anunciantes rege sua receita e isso incide diretamente na produção dos jornalistas. O segundo pólo trabalha com o olhar voltado para a produção de informação mais autônoma, e portanto mais perto da objetividade e independente do lucro ou interferência direta de grupos ligados ao jornal. Essa divisão ocorre por força da pressão vinda do mercado e decorrente da ausência de autonomia dos veículos de difusão, uma vez que para manterem-se operando precisam de pelo menos uma parcela da receita gerada por meio da publicidade e da ajuda estatal.

Nesse sentido há espaço para um antagonismo entre jornalistas “puros” ,que seguem os valores da prática profissional inseparáveis à deontologia, e os “comerciais” que vivem em função da audiência do sensacionalismo e da receita gerada em seus jornais. Entretanto, Pierre Bourdieu considera que em comparação aos outros campos, o jornalismo sofre mais intensamente com a incidência do lado “comercial”. E há, ainda, que pensar a prática do jornalismo como uma atividade sujeita a reprovações, que podem causar graves quedas devido a sociedade creditar muita verdade ao que é produzido pela mídia. Portanto, sob esse aspecto, percebe-se que o autor aponta a constituição desse campo como possuidor sim de limites e restrições como qualquer outra área de atuação.

Dentre as propriedades do campo jornalístico, Bourdieu destaca a busca pelo furo como um modo da concorrência trabalhar uma em função da outra em busca pelo que há de mais novo a ser noticiado. Assim, a conquista da clientela é o maior objetivo das empresas dado o critério índice de audiência. Essa mesma concorrência incide de forma paradoxal sob o desfavorecimento da autonomia dos veículos, já que uma empresa vigia as ações da outra e acabam pautando uma a outra, pois o tema é relevante e “ não há como não falar nele”. Esse processo é denominado pelo autor como “uniformidade” já que todos os jornais acabam pautando as mesmas temáticas, mesmas notícias.

Pierre Bourdieu analisa ainda, a intromissão do jornalismo nos outros campos e vice-versa. Alerta para os efeitos da interferência dos profissionais que mantém vínculo com o jornalismo e outras áreas e como esse laço afeta e influencia no exercício da prática jornalística. Essa relação nasce entre os chamados “jornalistas-intelectuais”, por exemplo atuantes na cultura, da tentativa de fugir das pressões de seu campo e trazer para o outro experiências diferenciadas. No entanto, quando se trata de produção cultural, na situação de vender um produto, esse profissional exerce influência sobre o editor e acaba configurando uma escolha direcionada ao produto mais vendável em detrimento do requintado.

Por tudo isso, Pierre Bourdieu busca demonstrar o que há por trás do rótulo “quarto poder” dado ao jornalismo e entende que esse poder pode ser revertido ao tratamento com ética e a uma influenciar mais positivo para a sociedade, se os jornalistas romperem responsavelmente com o sistema que os aprisiona e forem em busca da pratica baseada nos princípios éticos que o verdadeiro jornalismo impõe. Desatrelado de grupos, interesses ou mesmo comercialização ou espetacularização da notícia, matéria perecível e imprescindível à prática jornalista.

Texto produzido para a disciplina Teorias do Jornalismo, ministrada pela Professora Gisélia Castro, à turma de quarto período de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, da Faculdade São Luís.

domingo, 19 de abril de 2009

EDUCAÇÃO E SAÚDE EM FOCO

Estudantes de Eletrotécnica do Instituto Federal do Maranhão apresentam trabalho sobre Fitoterapia em semana de saúde

Por Talita Guimarães

O Instituto Federal do Maranhão (antigo CEFET-MA) realizou entre os dias 14 e 16 desse mês, a Semana de Saúde do Campus Monte Castelo, em São Luís, com o tema “Vida Saudável: uma conquista diária”. Dentre as atividades da semana, foram realizadas palestras direcionadas aos servidores e alunos do IFMA e ainda exposições, oficinas e ginástica laboral.


Durante os três dias de atividades, os alunos também tiveram oportunidade de apresentar um pouco do aprendizado da sala de aula na área de ciências da saúde, mostrando que apesar dos cursos técnicos possuirem direcionamento para as disciplinas a fins, a interdisciplinaridade é uma estratégia de ensino que traz o educando para dentro de outras áreas do conhecimento tão importantes quanto as específicas do curso.

A turma 103 do curso técnico em Eletrotécnica, sob orientação do professor de Biologia Luiz Henrique - Lula - expôs na manhã da quarta-feira (15/04) um estande sobre a prática da Fitoterapia. Para apresentar o trabalho, os alunos visitaram o Herbário Ático Seabra, da Universidade Federal do Maranhão, e trouxeram algumas plantas e ervas medicinais para a exposição na Semana de Saúde.


Alunos do curso de Eletrotécnica apresentando trabalho na Semana de Saúde. Alvo: alunos e servidores do IFMA.

Manuelle Serejo, da turma 103, organiza plantas medicinais do Herbário da UFMA

Os estudantes explicaram para alunos e servidores do campus Monte Castelo em que consiste a Fitoterapia - prática medicinal que utiliza vegetais em preparações farmacêuticas - como as pessoas podem reconhecer as plantas e seu caráter medicinal e ainda apontaram exemplos e indicação de uso dos vegetais. Ao fim das exposições orais, alunos e servidores ainda puderam experimentar chás de hortelã e erva mate.

Servidora do Instituto experimenta chá de hortelã

A Semana de Saúde ainda contou com apresentação de trabalhos das turmas de Desing de Produto, Alimentos, entre outras, vacinação, exames de glicemia, aplicação de flúor e a apresentação cultural do coral "Corpo e Voz". A organização foi uma ação da Coordenação de Assistência ao Educando (CAE), com o objetivo de conscientizar a comunidade escolar da importância dos cuidados com a saúde, através de práticas saudáveis de alimentação, ginástica e difusão de informações para uma melhor qualidade de vida.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

REFLEXÃO EM FOCO pOr: foca estreante


TEMPO


Por Saara Sousa*



CANTE o que não dá pra FALAR

PINTE o que não dá CANTAR

ESCREVA o que não se pode PINTAR

ENFRENTE o que obstante não se pode MUDAR...


Não dá para parar, na vida real as coisas acontecem e acontecem, não é como a ficção. Na vida real você segue em frente, muda, acostuma, enfrenta. E com tudo isso, agarramo-nos no que todos, sem exceção - crentes e descrentes se agarram - o TEMPO. Ah! Esse velho de barbas negras, olhos cinza e voz rouca e canta, dança e sapateia em cima de nós. Os seguimos ou ele nos segue. Quem sabe? Só se sabe que está ali, cá e acolá. Lento e frio. Monstruosamente calculista e sarcástico. E como borracha, ele simplesmente te apaga, apaga seus erros, sonhos, medos... Reconstrói o que num momento atrás destruiu. Não passa, só para te provocar, ele para! Há quem diga que isso é impossível, O TEMPO não para! Já disse o cantor, será? Quem aí dirá que o tempo nunca PAROU? Rá ! Parou sim, naquele sorriso, naquele olhar, no grito e no sonhar.Ah! O TEMPO, companheiro, o desejo certo de continuar, a certeza ilusória do sobreviver, do esperar, da paciência mãe de apenas assistir ao desfecho sedutor do TEMPO.

Viva e aprenda, o professor é de graça e as experiências são suas, minhas, únicas, todas...Nada que surpreenda. Não, não mais agora. A toda hora uma surpresa, quando brigados, o lado fraco deseja não mais se surpreender com as trapaças da vida, e o tempo chega e ajeita, mistura e separa as dores, as alegrias os amores. Mas se minha falta de palavras não corroesse minhas sinceridades sobre o que sinto, não seria tão difícil dizer o que eu REALMENTE quero. Ah! Como eu o quero, muito em grandes proporções. Onde vende? Eu perguntei! Ninguém sabe, todos querem mais e menos, em momentos diferentes, em situações diferentes. Esse maltrapilho enganador faz-nos acreditar que realmente apaga... Ei, ainda estão aqui, não estão aí? Aqui estão as lembranças, a memória, sua grande vilã e as vezes parceiras. Ele vem, passa e faz tudo parecer recomeçar, daí você acorda boba e vê que tudo ainda está lá, vivas e únicas as marcas, as lembranças e deseja fielmente que se vão, mas não vão. E se sente traída, que belo companheiro esse nosso que nos faz acreditar e depois nos chicoteia com a verdade de que o tempo pode passar, mas tudo na sua vida pode ficar até mesmo o que você quer desesperadamente que se vá. Ah! O TEMPO, vilão ou herói? Amigo ou inimigo? Diz você, o poeta já disse. Não somos escravos dele, ele é que está ao nosso dispor. Fazemos com ele o que bem entender, porque ele é só meu, seu e também quando deixarmos nosso!


*Acadêmica do 4 período de Jornalismo da Faculdade São Luís.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

LUTO



É com muito pesar, que o Ensaios em Foco informa o falecimento de um dos maiores ícones da cultura popular maranhense: Mestre Antônio Vieira.

Vítima de um acidente vascular cerebral na última quinta-feira (02), Vieira esteve internado durante a última semana na unidade de tratamento intensivo do Hospital UDI em São Luís, mas não resistiu. E veio a falecer na manhã de ontem (07).

O Ensaios em Foco teve a chance de conhecer o Mestre e conversar sobre sua obra a dois anos atrás, e desse encontro guarda uma admiração muito grande pelo artista fantástico que Antônio Vieira foi.


Seguem abaixo os links com mais informações sobre o falecimento do Mestre Antônio Vieira e sua biografia.










O Ensaios em Foco, através da foca Talita Guimarães, está ainda consternado pela perda e por isso não postará hoje. Entretanto firma o compromisso de escrever um texto especial sobre a forte impressão que guardou do Mestre.


"Nesse momento, não consigo ser jornalista. Ainda estou caminhando nesse ofício, e uma tristeza dessa me faz parar um pouco, por algumas horas. Não omitirei o fato, mas também não conseguirei passar por ele com a objetividade que o jornalismo impõe. Perdoem-me os amigos do "Ensaios". Mas todo o apreço que tinha pelo artista que nos deixou, não mede a dor que sinto por tê-lo visto a duas semanas atrás e não ter parado para apertá-lhe a mão sempre firme e contar que planejava desenvolver uma pesquisa sobre sua contribuição para o registro dos "Pregoeiros de São Luís"." (Talita Guimarães)



EM BREVE, ESPECIAL: "Ao Mestre, com carinho."

quinta-feira, 2 de abril de 2009

ARTIGO EM FOCO


Classificação indicativa: onde há bom senso, não precisa censura.

Por Talita Guimarães*
Pensando nos exageros cometidos pelas emissoras de televisão na produção de novelas, o Ministério Público em parceria com a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) elaborou em 2006, um manual de 61 páginas sobre a necessidade da implantação da classificação indicativa na programação dos canais de TV abertos. Nesse aspecto a intervenção de uma medida do governo para enquadrar a programação televisiva de acordo com horário e conteúdo seria aplicável apenas às produções audiovisuais do gênero entretenimento – novelas, filmes, programas de auditório, etc. – na intenção de informar aos pais e responsáveis minutos antes do programa ir ao ar, qual a temática abordada e o público recomendado de acordo com a faixa etária. Assim, sabendo de antemão se a novela ou o filme, por exemplo, trariam cenas de violência ou sexo sob uma abordagem inadequada para crianças e adolescentes, pais e responsáveis poderiam decidir pela permanência dos filhos na sala.
Diferentemente da censura que o governo impôs aos jornalistas brasileiros durante a ditadura militar – no qual todo tipo de informação ou crítica era inconcebível e a população tinha de ser privada do conhecimento sobre o regime e suas duras ações – a portaria 264/07 prevê que a classificação indicativa para programas de audiovisual exibidos pelas emissoras de TV, não afeta o núcleo jornalístico das emissoras. Mesmo assim, em um país cuja relação entre o governo e a imprensa registra um perturbador histórico de censura configurado pelo controle estatal sob a informação veiculada pela mídia, falar na volta da interferência de alguma política pública na programação televisiva é quase como tocar em uma cicatriz mal curada.
Tanto que mesmo tratando-se de uma medida sócio-educativa - como o maior controle dos pais pelo conteúdo o qual seus filhos têm acesso por meio da televisão – a decisão do Ministério Público foi polemizada pelos profissionais do meio. Mas se por um lado, a decisão pareceu interferir na liberdade de expressão, o questionamento sobre a volta de uma censura meio disfarçada obrigou emissoras e seus respectivos produtores de TV a fazerem uma releitura sobre a programação e o porquê da real necessidade de uma ação desse gênero
Tudo isso a fim de verificar os impactos da recepção dos programas na sociedade, sobretudo na formação de opinião e na promoção de debates. Afinal, quando a liberdade de expressão está comprometida pela livre veiculação de qualquer tipo de mensagem sem a mínima preocupação se o público que irá recebê-la é de fato o público-alvo, dono de um discernimento necessário para a recepção da mensagem, torna-se imprescindível a revisão da produção sob a ótica da responsabilidade social do conteúdo divulgado.
Passados três anos desde que a medida entrou em vigor no Brasil, o conteúdo da programação televisiva se atenuou apenas no sentido da classificação indicativa ter redistribuído os horários dos programas de acordo com a intensidade do conteúdo abordado. O padrão dos ícones que indicam a idade recomendada é o mesmo utilizado por todos os canais, assim como a portaria da classificação indicativa determina, no entanto as novelas e os programas cuja determinação vigora não deixaram de pautar as temáticas cujos debates geram polêmica pela abordagem e tampouco passaram a se preocupar com o conteúdo que veiculam.Ainda é possível assistir a novela das oito e notar com clareza o apelo sexual, a apologia ao crime e a incitação à violência. Os programas de auditório ainda debatem problemas familiares com exploração do sensacionalismo e ainda espetacularizam fatos e notícias. Independente de estarem “adequados” ao horário, levam ao público conteúdo de péssima qualidade e são protegidos pela lei desde que não ofendam diretamente a integridade de ninguém. Mas ao passo que não ofendem nem denigrem – o que às vezes até acontece – também não acrescentam em nada na construção do conhecimento de mundo do telespectador. Apenas oferecem baixaria no horário que a lei permite.
Ainda que essa medida não tenha afetado os jornalistas das emissoras – profissionais cuja palavra censura é uma ofensa – a classificação indicativa falha quando não é trabalhada em conjunto. A iniciativa do governo em definir um horário para que os programas sejam exibidos com base no público de acordo com as pesquisas de audiência por horário e idade, é válida quanto primeiro passo para uma melhoria nos conteúdos trabalhados no meio de comunicação de maior alcance da sociedade brasileira. Mas para ter um resultado significativo depende de uma ação mais efetiva do governo juntamente com a sociedade e a imprensa.Não basta lançar a portaria, indicar os ícones e horários e esperar que pais e responsáveis estejam em frente ao aparelho de TV na hora certa para mandar as crianças irem dormir. Cabe às produtoras o bom senso para a produção de um conteúdo de qualidade, pautado no compromisso com a formação cultural do telespectador, pois uma novela, por exemplo, pode falar sobre violência e levantar o debate na sociedade sob várias abordagens. Não é preciso banalizar nem escandalizar para dar notoriedade a um tema. É sim necessário ter inteligência para torná-lo pauta para discussão entre as diferentes camadas sociais e as diferentes idades. Nesse sentido, o agendamento da mídia, praticado pelo jornalismo no levantamento de debates, pode ser usado como estratégia para educar e dar condições a pais e filhos formarem opinião juntos, assistindo ao mesmo programa.
Levando-se em consideração, ainda, que a idade não é de modo algum um critério taxativo. Principalmente porque não define a maturidade do indivíduo. Portanto, não adianta que um menino de 12 anos, cuja mente não foi conscientizada para um debate sobre uso de drogas, possa assistir a uma novela que narra o cotidiano dos morros e dos traficantes com seu poderio superior ao da polícia só porque a indicação recomenda que a partir dessa idade é liberado que não tem problema.
A aplicação da classificação indicativa por pura adequação da lei, não resolve a problemática do conteúdo de teor inadequado para determinada idade veiculado livremente nos horários que o MJ ou a ANDI julgam adequados. Pelo contrário, torna-se medida paliativa quando não levada adiante pela sociedade e adotada como um termômetro. Uma espécie de controlador benéfico capaz de dar aquele “click” na consciência do produtor ao selecionar um tema para seu próximo programa ou cena de novela. Afinal de contas, um projeto traçado com bom senso e responsabilidade elimina a possibilidade de censura e ainda alcança bons índices de resultado naquele público que atinge. Um exemplo disso são os programas da TVE BRASIL, sempre adequados aos horários - não por uma questão de se preocupar com o sexo ou com a violência que não pode aparecer na programação matinal – mas por ser uma emissora comprometida com a educação e com a valorização de temas ricos em conteúdo e abordados com seriedade e inteligência.
Por essa análise, percebe-se que responsabilidade social está atrelada diretamente à ética profissional, pois trabalhar com bom senso é saber que o que é relevante para sociedade depende muito mais do desdobramento que se dá a um tema do que ao tema propriamente dito.
*Acadêmica do 4º período de Jornalismo da Faculdade São Luís