terça-feira, 28 de abril de 2009

CRÍTICA EM FOCO

Persépolis: quando a arte supera o terror da guerra

Por Talita Guimarães


“Uma animação em preto e branco cujo enredo está centrado no relato de uma jovem iraniana que cresce em meio à revolução islâmica e assiste de perto aos horrores da guerra política e religiosa no Irã.”


Essa seria uma descrição concisa, quase simplória, do que é o longa metragem “Persépolis”. Adaptado para o cinema e indicado a inúmeros prêmios, entre eles o Oscar de Melhor Filme de Animação e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, e tendo arrebatado ainda dois prêmios do Público no Festival de Roterdã e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “Persépolis” é melhor definido como a narrativa autobiográfica de uma menina iraniana que cresce aprendendo desde cedo o que é uma guerra de cunhos religioso, político e ideológico e o que ela é capaz de mudar na vida das pessoas.


Marjane, a personagem apresentada inicialmente ao público pela figura adulta da protagonista, está em um saguão de aeroporto e após ter seu passaporte vistoriado, vai aguardar pelo voo em uma cadeira solitária. A partir de então, acende um cigarro e entre uma baforada e outra, mescla suas lembranças de infância com uma narração, que beira a melancolia, de suas impressões sobre a revolução política que culmina no exílio do líder monarca e na tomada de poder do chefe religioso que dá início a república populista teocrática islâmica., em 1979. Dessa forma, o espectador conhece, paralelamente ao contexto histórico do país do oriente médio, a personagem desde a menininha de oito anos e espírito revolucionário, passando pela jovem que tenta viver a adolescência desfrutando das mesmas descobertas e mudanças que os jovens de uma sociedade normal até a formação da mulher que entre muitas indas e vindas entre Teerã e a França, perde-se entre paixões mal resolvidas, envolvimento com punks e um desejo incontrolável de mudar o cenário do país de origem e poder orgulhar-se de sua nacionalidade.

Apesar do contexto forte e da possibilidade de uma narrativa crescente, “Persépolis” - a história real de Marjane Satrapi, adaptada dos quadrinhos da própria Marjane para o desenho animado - decepciona pela ausência de intensidade, pois falta ao enredo um clímax que anime o espectador a acreditar na mudança de atitude da personagem principal e na relevância de sua história de vida ser contada nos cinemas de forma tão singular. Um outro aspecto que deve ser levado em consideração, é a linguagem utilizada pela protagonista. Marjane é sim uma mulher que luta pela independência e possui um caráter muito forte, no entanto sua indignação com o sistema constantemente dá lugar ao uso de palavras de baixo escalão, como frequentes palavrões e expressões depreciativas - os personagens, em um contexto geral soltam palavrões durante várias cenas, mas Marjane exclama mais sonoramente durante uma cena em que, aos oito anos de idade, delira estar falando com Deus e o questiona quanto as ações dos homens do regime. Fora isso, a personagem tem várias chances de crescer, mas sempre se deixa levar pela fraqueza e por uma depressão que a afasta de seu grande potencial para a revolução. Perde-se muito mais reunindo-se a jovens rebeldes que desconsideram os estudos e entre romances inconsequentes que a fazem sofrer do que envolvida em questões mais pertinentes e que com algum efeito gerem uma mudança significativa na sociedade que ela tanto reclama.

Por fim, quem acaba sendo a autora de frases louváveis e ensinamentos incontestáveis é a avó de Marjane, uma senhora sábia para quem a protagonista sempre recorre nos momentos mais difíceis. Uma sequência interessante é projetada quando Marjane sai de uma festa dizendo que é francesa - renegando claramente suas origens - e é perseguida pela própria consciência, que se apresenta na figura da avó. Marjane discute consigo mesma em uma viela escura e acaba soltando a frase “Não passamos de fanáticos aos gritos que lutam uns contra os outros” em uma reação de preconceito e vergonha contra a própria origem, numa tentativa fracassada de justificar sua atitude no bar.

No entanto, não é por falta de boa produção ou poesia, que o filme de 95 min deixa a desejar. Pelo contrário, “Persépolis” mostra-se arrojado, de uma narrativa ousada com desenhos e tons, que apesar do preto e branco, transparecem vivacidade e movimento na tela. Aliás, a tonalidade escolhida para colorir o longa, contextualiza o público com o clima de guerra, que ocasiona tanto destruição material - há cenas de bombardeio em que Marjane-menina acorda assustada com o barulho e é levada pelos pais para um refúgio nos subsolos do prédio onde mora - quanto uma quebra de ideais, famílias, crenças e projetos de vida.

Marjane é muito mais vítima de uma série de desencontros do que uma heroína. Apesar de ter sido uma criança cujas ações e pensamentos contestavam o sistema e brigavam por uma revolução e uma mudança urgente, a personagem não cresce no sentido de usufruir de seu potencial revolucionário para protagonizar um movimento em prol de mudanças no cenário de seu país. No filme, aos primeiros vestígios do idealismo da Marjane adolescente, os pais a enviam para estudar na França, afastando-a do Irã e dos perigos de se contrapor declaradamente ao governo. Na tentativa de protegê-la, acabam podando seu espírito jovem de revolução se sobressair. O resultado não é animador, uma vez que Marjane não consegue fugir aos conflitos psicológicos de uma vida permeada pelo medo de uma guerra e a insegurança de viver sob olhares ameaçadores que não permitem um movimento de liberdade ou o direito de ser um cidadão satisfeito em seu próprio país.


Assim, “Persépolis” mostra que a história de Marjane Satrapi é mais um caso que exemplifica a situação de pessoas que se sentem como “estrangeiros em seu próprio país”. Mas se por um lado, a protagonista da animação não se mostra heroína, a Marjane da vida real não foge à realidade e a indignação provocada por ela, de modo que é autora de quatro livros da série que intitula o filme e percorre o mundo divulgando sua história e convencendo platéias por meio da arte, que a guerra nunca traz benefícios, pelo contrário apenas gera medo e ocasiona perdas crescentes. Ou recorrendo às sábias tiradas da avó, entende-se por fim que “É o medo que nos faz perder a nossa própria consciência”. E é a isso que a protagonista da vida real combate, atualmente.

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