sábado, 25 de abril de 2009

JORNALISMO EM FOCO


Por Talita Guimarães

BOURDIEU, Pierre. A Influência do Jornalismo.In:____Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

Discutir os rumos da sociedade tendo em vista a influência que o jornalismo exerce sobre a visão de mundo das pessoas é uma pauta constante entre profissionais e estudantes de comunicação social. Entretanto, é necessário partir do princípio que o exercício da profissão está ligado intimamente à construção de um conhecimento ora coletivo ora individual baseado nas informações que a mídia produz e repassa diariamente às pessoas, e é fato que as considerações ligadas a esse debate requerem um olhar analítico sob a formação dos jornalistas e do universo que propicia esse fenômeno conhecido como poder do jornalismo.

Em “A influência do Jornalismo”, o pensador francês Pierre Bourdieu, analisa estruturalmente a problemática que envolve a prática jornalística e o peso de seu predomínio sobre a sociedade e principalmente sua relação com as outras áreas de atuação e construção do conhecimento. Bourdieu não estuda o “poder do jornalismo” de modo isolado. Pelo contrário, aponta primeiro os mecanismos da prática jornalística como fatores responsáveis pelo exercício de um jornalismo capaz de influenciar, de modo que é preciso apreender quem são os jornalistas , para quais “grupos” eles trabalham, qual é a base da sua formação e ainda como ocorre a relação do campo jornalístico com a sociedade, conferindo a essa relação a existência de um campo de forças que também exerce pressão sob a área de comunicação social.

Primeiramente, Bourdieu mostra que existem forças externas às redações, que refletem no exercício do jornalismo a vontade de anunciantes, do público, e do mercado em geral. Os jornais podem ser classificados em dois pólos: “comercial” e “intelectual”, onde o primeiro é guiado pela busca de lucro através da prática jornalística de modo que a concentração de anunciantes rege sua receita e isso incide diretamente na produção dos jornalistas. O segundo pólo trabalha com o olhar voltado para a produção de informação mais autônoma, e portanto mais perto da objetividade e independente do lucro ou interferência direta de grupos ligados ao jornal. Essa divisão ocorre por força da pressão vinda do mercado e decorrente da ausência de autonomia dos veículos de difusão, uma vez que para manterem-se operando precisam de pelo menos uma parcela da receita gerada por meio da publicidade e da ajuda estatal.

Nesse sentido há espaço para um antagonismo entre jornalistas “puros” ,que seguem os valores da prática profissional inseparáveis à deontologia, e os “comerciais” que vivem em função da audiência do sensacionalismo e da receita gerada em seus jornais. Entretanto, Pierre Bourdieu considera que em comparação aos outros campos, o jornalismo sofre mais intensamente com a incidência do lado “comercial”. E há, ainda, que pensar a prática do jornalismo como uma atividade sujeita a reprovações, que podem causar graves quedas devido a sociedade creditar muita verdade ao que é produzido pela mídia. Portanto, sob esse aspecto, percebe-se que o autor aponta a constituição desse campo como possuidor sim de limites e restrições como qualquer outra área de atuação.

Dentre as propriedades do campo jornalístico, Bourdieu destaca a busca pelo furo como um modo da concorrência trabalhar uma em função da outra em busca pelo que há de mais novo a ser noticiado. Assim, a conquista da clientela é o maior objetivo das empresas dado o critério índice de audiência. Essa mesma concorrência incide de forma paradoxal sob o desfavorecimento da autonomia dos veículos, já que uma empresa vigia as ações da outra e acabam pautando uma a outra, pois o tema é relevante e “ não há como não falar nele”. Esse processo é denominado pelo autor como “uniformidade” já que todos os jornais acabam pautando as mesmas temáticas, mesmas notícias.

Pierre Bourdieu analisa ainda, a intromissão do jornalismo nos outros campos e vice-versa. Alerta para os efeitos da interferência dos profissionais que mantém vínculo com o jornalismo e outras áreas e como esse laço afeta e influencia no exercício da prática jornalística. Essa relação nasce entre os chamados “jornalistas-intelectuais”, por exemplo atuantes na cultura, da tentativa de fugir das pressões de seu campo e trazer para o outro experiências diferenciadas. No entanto, quando se trata de produção cultural, na situação de vender um produto, esse profissional exerce influência sobre o editor e acaba configurando uma escolha direcionada ao produto mais vendável em detrimento do requintado.

Por tudo isso, Pierre Bourdieu busca demonstrar o que há por trás do rótulo “quarto poder” dado ao jornalismo e entende que esse poder pode ser revertido ao tratamento com ética e a uma influenciar mais positivo para a sociedade, se os jornalistas romperem responsavelmente com o sistema que os aprisiona e forem em busca da pratica baseada nos princípios éticos que o verdadeiro jornalismo impõe. Desatrelado de grupos, interesses ou mesmo comercialização ou espetacularização da notícia, matéria perecível e imprescindível à prática jornalista.

Texto produzido para a disciplina Teorias do Jornalismo, ministrada pela Professora Gisélia Castro, à turma de quarto período de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, da Faculdade São Luís.

Nenhum comentário: