sábado, 30 de maio de 2009

Do tempo que a Foca era caloura...

Filosofia: instrumento de libertação
Por Talita Guimarães*

Ao longo dos tempos, com o desenvolvimento da racionalidade, o homem manteve com o mundo uma relação de troca com o intuito de obter proveito de tudo que oferecesse utilidade e trouxesse retorno imediato e palpável. Assim, a humanidade construiu expectativas em cima de um sistema utilitarista, fortalecido com o crescimento do capitalismo e da busca desenfreada pelo lucro onde as pessoas priorizaram a importância das coisas dentro de um grau de utilidade e do suprimento de necessidades pré-estabelecidas pelo sistema.

Remando contra essa concepção surge a Filosofia, que não apresenta resultado imediato ou concreto que possa oferecer aos homens aquilo que em geral consideram lucro no contexto nutrido pelo capitalismo. Tudo o que a Filosofia propõe dá espaço à dúvida em torno da sua utilidade, quando na verdade o questionamento deve ser o início do pensar filosofia e não o “para que Filosofia?".

Quando se entende o pensar filosofia a partir dos conceitos dissociados de uma busca por resultados, o ser humano descobre que o conhecimento filosófico desperta no homem o desejo pela análise minuciosa da realidade em busca da compreensão de mundo e do princípio de tudo que hoje “conhecemos”. Para tanto é necessária a libertação dos conceitos pré-estabelecidos para o início de uma busca contínua pelo conhecimento. Nesse processo o filósofo não nos mostra a verdade, pois ele também a busca, mas nos orienta a encontrar o caminho que está dentro de nós mesmos.

Sendo assim, a filosofia não se enquadra no cenário da utilidade medida nos resultados, mas sim no convite à discussão com a intenção de questionar e estudar o que é de fato fundamental ao ser humano. Para começar basta tomar a máxima de Sócrates como ponto de partida: "Só sei que nada sei". E seguir em busca do conhecimento do que é o ser...

*Texto originalmente escrito em 2007, quando Talita cursava o primeiro período, durante a disciplina Filosofia ministrada pela Professora Joselle Couto.

domingo, 24 de maio de 2009

MÚSICA E SOLIDARIEDADE EM FOCO

Festival da Solidariedade reúne arte, consciência ambiental e mobilização social no IFMA
Campanha em prol dos desabrigados pelas enchentes mobiliza alunos e servidores do Instituto Federal do Maranhão durante tarde de apresentações culturais no campus Monte Castelo.
Por Talita Guimarães
O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão -IFMA, antigo CEFET-MA, realizou na última sexta-feira (22), o FESTIVAL DA SOLIDARIEDADE no pátio do Campus São Luís - Monte Castelo. A intenção da atividade visou chamar a atenção da comunidade acadêmica de um jeito diferente para a importância da arrecadação de donativos que serão entregues ao Exército para a distribuição entre os desabrigados pelas enchentes no interior do estado.

Arte foi a linguagem escolhida para centralizar o movimento na escola a partir do horário do almoço, quando estudantes trocam de turno, chegam de estágios ou permanecem na escola para aguardar pela educação física ou reunir equipes de trabalhos ou grupos de estudo. A escolha partiu dos professores Jorge Leão e Tânia Rego, filosofia e música, respectivamente. Como já ficou comprovado que o Instituto Federal do Maranhão, além de pólo na área de ciência e tecnologia, é também celeiro de muitos artistas, entre estudantes, professores e servidores, Jorge Leão decidiu organizar uma ação com os próprios talentos da escola e alguns convidados especiais.

Assim, abrindo a programação da tarde da sexta, houve uma edição do Sarau Musical - que apresenta durante o horário de almoço a contextualização histórica de algum movimento musical - com a participação do cantor e compositor Jô Santos, que é pai da aluna Talissa Guimarães da 1ª série do curso de Eletrotécnica e da ex-aluna da instituição Talita Guimarães, que o acompanhou na percussão e é ainda escritora cujo primeiro livro foi publicado pela escola em 2007.


Durante uma hora e meia de sarau, Jô prendeu a atenção de alunos e servidores com uma explanação contextualizada sobre a história da Bossa Nova. O cantor, que completou 30 anos de carreira, percorreu o movimento musical desde seu surgimento, entre os músicos cariocas Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes, passando pela interpretação das principais composições bossa-novistas entre elas “Garota de Ipanema”, “Chega de Saudade”, “Wave” e “Desafinado”. Jô falou ainda, sobre o processo de composição na Bossa Nova e explicou ao público que o movimento inaugurou uma nova fase na música popular brasileira com a introdução de acordes dedilhados ao violão e harmonia mais trabalhada, além da mudança no tom de voz dos cantores, que adotaram a suavidade em contrapartida aos grandes cantores da época conhecidos pelo “vozeirão”. Ao fim, Jô Santos comentou um pouco sobre os movimentos que sucederam a Bossa Nova, mediante a situação histórica do Brasil, uma vez que com a ditadura militar as manifestações artísticas foram reprimidas, dando margem a criações mais ousadas em composições que usavam metáforas para falar do regime, a exemplo da música de protesto feita por nomes como Chico Buarque e Geraldo Vandré. “Mas, hoje, quando falamos em Bossa Nova, nos referimos a um movimento que não morreu, que pelo contrário, é atual pelas letras e por ser referência internacional em termos de música brasileira”, finalizou Jô Santos, por volta das 13h30, quando os alunos retornaram às aulas.


O Festival retomou a programação às 16h30, no horário de intervalo dos estudantes, com a apresentação do Coral Corpo e Voz, formado por servidores e alunos do instituto. Regido pela professora de música Tânia Rego, o coral apresentou as canções “Pega no Ganzê” de Telma Chan, “Canto do povo de um lugar” de Caetano Veloso e “Cio da Terra” de Milton Nascimento e Chico Buarque.



A professora Tânia classificou a proposta do festival como positiva, “Pois reuniu o momento de cultura e lazer ao de mobilização social pelas vítimas das enchentes”, disse lembrando ainda da importância da doação. Sobre o coral, destacou a evolução do trabalho que vem sendo desenvolvido desde o segundo semestre do ano passado, quando o “Corpo e Voz” foi formado. “Pelo pouco tempo de formação, já foi desenvolvido um trabalho muito bacana entre a comunidade acadêmica”, avaliou.

A tarde contou com a participação especial do Professor de Violão Raimundo Nonato Privado, da Escola de Música do Maranhão (EMEM), que se apresentou a convite da professora Tânia, com quem formou um afinado dueto sax e violão e encantou a turma na execução de clássicos como “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barro e “Samba em Prelúdio” de Baden Powell e Vinícius de Moraes.





Para Manuelle Serêjo, estudante do curso de Eletrotécnica, o festival foi interessante pela maneira como abordou a temática ambiental em questão e ressaltou a importância da mobilização. “Esse tipo de atividade é importante em todos os lugares, mas principalmente na escola porque é o lugar que nos prepara para o mundo. E é principalmente sobre as coisas que acontecem a nossa volta que devemos estar atentos e sempre que pudermos, ajudando a melhorar”, opinou a estudante.
E como não podia faltar, a programação incluiu a participação da Banda Móbile, formada pelos ex-alunos Pedro, Fernando e Alessandro passeando pelo bom repertório da música nacional, entre eles Cássia Eller, Nando Reis, Lulu Santos, Cidade Negra, Paulinho Moska, Jota Quest e Legião Urbana.




A banda acompanhou também o aluno João Felipe, que além de participar do coral do instituto, aproveitou para cantar e mostrar um pouco de seu talento na gaita e na guitarra.


O professor Jorge Leão também se uniu aos meninos da Móbile para uma saideira e até mesmo o professor Paulo Leão, que estava assintindo ao festival, foi convidado a tocar guitarra para acompanhar a música “Toda Forma de Poder”, sucesso dos Engenheiros do Hawai.


Para Pedro, baixista da Móbile, a iniciativa do festival é interessante pelo fato de trabalhar a promoção da causa através da cultura, aproveitando os talentos da própria instituição que apesar de focar no ensino tecnológico tem muitos alunos e servidores com potencial para as artes. “Acho que é muito válido todo tipo de iniciativa que visa ajudar e amparar quem necessita. Toda e qualquer mudança que visa a melhoria, por menor que possa parecer, já é uma ajuda.Tirando o fato que é muito legal ver o cefet, uma escola técnica, promovendo eventos culturais”, comentou Pedro, que estudou no Cefet entre os anos de 2004 e 2006.

O encerramento do dia de festival teve ainda o estudante André Bandeira, do segundo ano de Desing de Produto, declamando a poesia “Touro Encantado” de Ferreira Gullar. A Móbile fechou a programação da sexta por volta das 19h30, tocando “Pais e Filhos”, que segundo o vocalista Alessandro “É uma música que nunca escapa ao repertório da banda”.



O professor Jorge Leão informou que o festival continuará durante a próxima semana com mais atrações culturais no campus Monte Castelo, chamando a atenção da comunidade para a arrecadação em prol dos desabrigados. Lembrando que a meta do IFMA é arrecadar pelo menos 10 toneladas de donativos que serão encaminhados ao Exército Brasileiro para a distribuição entre as vítimas das enchentes no interior do Maranhão.

A sociedade em geral está convidada a aderir a campanha do Instituto Federal do Maranhão, entregando doações no Campus Monte Castelo, localizado na Avenida Getúlio Vargas, n° 04, antigo CEFET-MA. Para maiores informações sobre a arrecadação basta entrar em contato através dos telefones 3218 9061 e 3218 9110.

domingo, 17 de maio de 2009

MÚSICA E SOLIDARIEDADE EM FOCO

Jô Santos fala sobre carreira na Bossa Nova e a história do movimento que completou cinqüenta anos em 2008, durante Sarau Musical para estudantes e servidores do IFMA

A participação do cantor abrirá o FESTIVAL DA SOLIDARIEDADE do IFMA, promovido pela instituição federal na intenção de mobilizar a comunidade acadêmica e a sociedade em geral para a arrecadação de donativos, que serão enviados aos desabrigados pelas enchentes no interior do Maranhão. A programação cultural começará a partir das 12h e seguirá por toda a tarde com apresentações de alunos, da professora de música Tânia Rego e ainda um vídeo para debate sobre ética e meio ambiente.

Por Talita Guimarães

Com 30 anos de carreira em um movimento musical legitimamente brasileiro, Jô Santos apresentará suas composições e um pouco dessa história da música no Sarau Musical do IFMA, dia 22/05/2009, a partir das 12h no refeitório do Campus São Luís – Monte Castelo. O Sarau é uma ação do Projeto Rádio Escola, desenvolvido por estudantes da instituição sob orientação do Professor Jorge Leão, e nessa edição contará com um representante da Bossa Nova para falar sobre o movimento e sua contribuição para a música brasileira.
Natural de São Luís – MA, Jô Santos manteve seu primeiro contato com a Bossa Nova após mudar-se em 1976 para o Rio de Janeiro. Na capital carioca, o menino de apenas 16 anos, pretendia aprimorar seus estudos e aprender a tocar violão. Acompanhando as missas, Jô aprendeu os primeiros acordes do instrumento, de modo que rapidamente passou a compor o grupo jovem que preparava os cânticos da missa na Paróquia São Jaime, no bairro carioca Lins de Vasconcelos.

O talento para a música cresceu à medida que Jô acrescentou ao seu repertório composições de mestres da Bossa Nova, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Baden Powell e João Gilberto. Aos poucos, o rapaz se interessou pela música do movimento musical cujas canções, executadas suavemente ao piano ou violão, falavam de amor, vida, poesia, comportamento, sentimentos e buscavam inspiração nas praias e noites cariocas.

Na década de 80, Jô Santos retornou a São Luís e intensificou sua participação no cenário musical da cidade realizando shows com o também cantor Roberto Rafa em casas noturnas e teatros. Produziu ainda, várias apresentações, com destaque para: “ARRASTÃO” (1989), e “CANÇÃO DESCALÇA” (1993), nos anos em que considera a época em que a MPB se fez pura e cristalina.

Em “Tempero da Saudade”, seu primeiro CD lançado de forma independente em 2003, Jô apresenta ao público o lado compositor em 12 faixas autorais, sendo que a faixa-título apresenta uma legítima bossa em homenagem a Tom Jobim. Variando estilos, como samba, rock, música sacra, bossa nova, pop, e baladas, Jô tempera, ainda, o álbum com a sonoridade maranhense através da batida forte do tambor de mina na música “Uma prece a São Luís”, e seu lado crítico na guarânia “Carta a Che”.

A Bossa Nova como estilo, nasceu aos poucos, entre encontros de universitários, reuniões de fãs clubes do jazz norte americano que chegava ao Brasil nas vozes de Frank Sinatra, Dick Farney e Lúcio Alves e talvez, principalmente na vontade dos artistas brasileiros produzirem música brasileira, independente da produção norte americana que abastecia o país no pós-guerra.

Uma vez fã dos ícones do movimento, tríade da Bossa Nova – Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto - e adepto do estilo, Jô Santos segue a trinta anos, acompanhado de seu violão apelidado Germano, percorrendo palcos e bares com a intenção de levar seu cantar
BRASIL, inspirado na Bossa, para apreciadores da boa música brasileira.

SERVIÇO:
O quê: FESTIVAL DA SOLIDARIEDADE IFMA - atrações culturais em campanha para auxílio aos desabrigados nas enchentes do Maranhão.
Quando: 22.maio.2009, a partir de 12h
Onde: Refeitório do IFMA no Campus São Luís - Monte Castelo.
Av. Getúlio Vargas, n°04. Monte Castelo
Para quê: Arrecadação de donativos: alimentos não perecíveis e água potável, aberto a toda a sociedade.

sábado, 9 de maio de 2009

Ao Mestre, com carinho

Eternidade musical

Por Talita Guimarães*

Obra deixada por Mestre Antônio Vieira compõe legado rico em cultura popular de qualidade, com indiscutível caráter de patrimônio imortalizado pelo preciosismo de sua produção.

Assim como em outubro de 2008, o Ensaios em Foco homenageou a imortalidade da obra de Machado de Assis para a literatura brasileira, com o especial Eternidade Literária, agora, o Ensaios cumpre com a palavra de publicar um especial dedicado ao Mestre Antônio Vieira, ícone da cultura popular maranhense que nos deixou no dia 7 de abril de 2009, mas encantou o Maranhão com seu tom e há pouco tempo, ganhou o Brasil, com quase noventa anos de presença contagiante e obra inestimável.

Passado pouco mais de um mês do falecimento do Mestre Vieira, e às vésperas do seu aniversário em 9 de maio, quando completaria 89 anos de idade, o Ensaios percorreu a produção musical de Antônio Vieira à procura de captar em sua obra, a essência da alma de menino que conquistou prêmios pelo Brasil e ganhou notoriedade a partir das composições nas vozes dos maranhenses Rita Ribeiro e Zeca Baleiro.

Com uma produção extensa, que ultrapassa a marca de 327 canções, Antônio Vieira entrou para o cenário musical por pura paixão pela arte de compor, cantar e valorizar a cultura de sua terra. E talvez esse amor ao Maranhão tenha sido um dos principais fatores que tornaram sua obra única e rica. E é fato que Vieira compunha por prazer, sem a pretensão de fazer-se famoso ou mesmo cobrar reconhecimento dos outros.

A humildade com que costumava contar suas experiências musicais, nos grupos em que tocou, com os maestros e instrumentistas que conheceu e recebeu elogios, mostra que a força de sua obra esteve simplesmente no seu amor pela cultura e na crença de que a música torna as pessoas melhores. De fato, quem conheceu o mestre pode afirmar que não houve exemplo melhor de vivacidade musical e fôlego para tamanha produção do que Seu Vieira.

Pois bem, vamos à sua obra: Antônio Vieira começou a compor cedo, aos 16 anos. “Mulata bonita” foi o ponto de partida para uma produção longa, que refletiu simplicidade de letra e prezou pelas pequenas histórias e causos do cotidiano maranhense, do qual Vieira sempre foi atento admirador. Aliás, a obra do mestre retrata o apego a cultura, desde o conhecimento de sua raiz fincada na verdadeira cultura popular, passando pela frequente necessidade de conservar a memória das manifestações tipicamente maranhenses - e um exemplo disso é seu livro em parceria com Lopes Bogéa, “Pregões de São Luís” - chegando ao painel regional nas composições que ensinam modos de ser do maranhense e suas receitas, como na letra de “Banho Cheiroso”, em que Vieira brinca com a fórmula e os ingredientes do banho espécie “espanta maus espíritos” vendido no Mercado Central de São Luís.

Nesse sentido, as composições sempre mantiveram o olhar regional do Mestre, justamente na intenção de produzir cultura popular que por mérito falasse de cultura maranhense. Por não ser pretensiosa, e principalmente por Vieira ter vindo de uma geração que não via grandes ganhos em termos financeiros para manter-se de música e arte, a produção do mestre foi se acumulando em seus cadernos e nas folhas soltas de esboços que ele guardava em cofos - cestas de palha também típicas do artesanato maranhense. Entre intervalos, a cada aposentadoria que saía - trabalhou como Sargento do Exército, comerciante, diretor administrativo de hospital, vendedor de telefones entre outras profissões “normais” - Vieira reunia-se aos seus amigos do cenário musical em encontros onde tocavam samba, choro e até marchinhas. Ora acompanhando no pandeiro outros músicos, ora cantando suas letras, o mestre foi conquistando espaço e reconhecimento. Integrou o quinteto “Anjos do Samba”. Firmou parceria musical com Pedro Giusti nas composições “Papagaio de Papel” e “Menino Travesso”, premiadas em primeiro e segundo lugar, respectivamente, em um festival realizado em São Luís . Formou ainda o trio JB, ao lado dos músicos Othon Bastos e Jorge Barros.

Apesar disso tudo, Mestre Vieira só entrou em estúdio em 1986, e para gravar apenas uma de suas canções quando “Na cabecinha de Dora” integrou a coletânea “Velhos Moleque “ produzida por Chico Saldanha, Ubiratan Sousa e Giordano Mochel. Ainda assim, não foi nessa participação que a obra do mestre ganhou a notoriedade devida para a produção de um álbum próprio. Pelo contrário, foi só após Rita Ribeiro - cantora maranhense - gravar em 1997, as canções “Tem quem queira” e “Cocada” no disco de estréia que levou seu nome e foi produzido pelo conterrâneo Zeca Baleiro e pelo paulista Mário Manga, através da gravadora Velas, que as composições do mestre, já aos 77 anos, começaram a ganhar repercussão nacional. O que foi viabilizado graças ao Prêmio Sharp - hoje Prêmio TIM - de 1998 que indicou “Cocada” ao prêmio de Melhor Canção.

Assim, somente em 2001, a gravadora independente Elo Music através da produção de Zeca Baleiro lançou o primeiro álbum do Mestre Antônio Vieira, intitulado “O samba é bom”. O cd reuniu 18 canções entre sambas, valsas, boleros e ritmos regionais como baralho e carimbó maranhense. Gravado ao vivo nos dias 19 e 20 de janeiro de 2001 no Teatro Artur Azevedo, foi o registro mais que merecido de uma verdadeira celebração da cultura maranhense em reconhecimento ao talento e à contribuição de Seu Vieira. E contou ainda com as participações especiais de Elza Soares, Sivuca e Rita Ribeiro.

Para aumentar a amplitude das canções do mestre, em 2003 “Tem quem queira” e “Cocada” entraram na trilha sonora da novela “Da Cor do Pecado” exibida pela Rede Globo, cuja protagonista interpretada pela atriz Tais Araújo era Preta, uma maranhense adepta do Tambor de Crioula que representava a cultura do estado e despertava a paixão de um ambientalista carioca interpretado por Reynaldo Giannechini.

Apesar de toda essa repercussão nacional e do primeiro álbum de um artista cuja vida caminhou lado-a-lado a uma extensa produção ter ocorrido apenas aos 82 anos da vida musical que começou aos 16, considerar o reconhecimento da obra de Antônio Vieira como tardio não foi de todo um lamento que preocupou o mestre. “Meu tempo era esse mesmo”, disse em entrevista aos repórteres Dafne Sampaio e Sérgio Seabra para o site Gafieiras.com. Ao lado de Riachão, compositor baiano da mesma geração, Seu Vieira foi considerado ícone da cultura popular a nível nacional apenas após suas composições ganharem o país nas interpretações dos conterrâneos Rita Ribeiro e Zeca Baleiro. Mas assim, o mestre teve, finalmente o direito de eternizar em áudio uma pequena parcela do que compõem um legado rico para o patrimônio imaterial maranhense.

Mas esse especial não fica por aqui. Ainda há muito o que falar sobre o Mestre que ensinou ao Brasil o quanto a arte torna o ser humano querido e seu legado eterno. Em 2003, A Mineradora Vale patrocinou o registro fonográfico das composições de Antônio Vieira em um projeto importante denominado “Documentação e Registro Fonográfico da obra musical do Mestre Antônio Vieira”. Esse material contém um livro com ensaio biográfico, um encarte com as mais de trezentas composições do mestre, e um documentário com depoimentos e histórias contadas pelo próprio Vieira. Um kit completo para entender, conhecer e valorizar a cultura popular maranhense produzida por quem soube aliar talento, poesia, simplicidade e sensibilidade ao preciosismo de uma arte leve, retrato
do cotidiano.

*Acadêmica do quarto período de Jornalismo da Faculdade São Luís. Conheceu o Mestre Vieira em 2007, quando no primeiro período da faculdade, registrou em documentário uma entrevista inédita onde o mestre contou sobre seu percurso musical e as experiências na produção do livro "Pregões de São Luís".

sexta-feira, 8 de maio de 2009

RESENHA EM FOCO

CHAGAS, José. Da arte de falar bem. São Luís. Instituto Geia, 2004.


“Crônicas de saudade e bem-querer”: quando o ofício do poeta vem do dom de bem falar

Por Talita Guimarães*
Um poeta não vive apenas da poesia expressa em versos. Definitivamente não. Um poeta vive e produz em função de um incômodo e transmite sua visão de mundo através de um poetizar que pode estar muito bem colocado na prosa. Prova disso é constatar que há quem consiga relatar a poesia da infância, o conto de um aniversário ou a saudade de um momento vivido com amigos de modo fascinante em um texto repleto de sentimento. Melhor que isso é dar ao leitor o prazer de encontrar toda essa poesia reunida em um livro de crônicas, com relatos comoventes e encantadores feitos pelas mãos de um poeta-cronista que sabe cultivar a arte de falar bem.
O que mais chama a atenção em “Da arte de falar bem” cujo nem o subtítulo escapa da poesia do inconfundível José Chagas – Crônicas de saudade e bem-querer – é a presença do relato do cotidiano feito sob a ótica do olhar poético e otimista de quem sabe tirar das coisas o que elas têm de melhor. Logo de início, uma apresentação comovente escrita por Sebastião Moreira Duarte, fala de Chagas, a obra e como surgiu a idéia de reunir em um livro de crônicas os textos do poeta publicados em jornais e soltos no tempo. Falar bem é uma arte que, expressa através da poesia, mostra que Antônio Carlos Secchin – escritor, membro da Academia Brasileira de Letras - tem razão em dizer que toda a matéria do mundo alimenta o poeta.
José Chagas consegue colocar nas crônicas todo o seu sentimento de saudade e desejo pelas coisas mais simples da vivência cotidiana que se percebidas com sutileza mostram-se inspiradoras. Coisas como o convívio com a infância e a tentativa de compreendê-la depois de adulto, contada docemente na primeira crônica do livro – “Velha crônica para hoje”.
Em seus textos, o poeta reflete sobre a amizade; viaja ao passado para contar sobre sua vida política; lembra de discursos emocionados feitos para amigos e por amigos; resenha artigos de outros autores; indica lugares de seu gosto e explica com toda a poesia de sua alma e bom humor de suas palavras o porquê da escolha; reza; agradece; emociona; enaltece. Deixa ao leitor um conjunto das crônicas mais poéticas que se possa imaginar. Faz de nós, pobres mortais, capazes de enxergar a vida e as coisas sob o olhar da poesia. Alimenta-nos com uma matéria refinada e deliciosa. Faz de mim leitora grata, quase poetisa. Aliás, ao poeta, fica meu muito obrigada em forma de feito raro, inspirado na arte de falar bem, espalhar o bem, sentir-se bem:

Cada página é um presente
Cada palavra, um afago
Cada instante, livre no mundo da literatura
Entre infindáveis leituras
Simplesmente eterno.
Afinal, é o próprio Chagas quem nos ensina: "...ninguém existe só em razão de um corpo destinado a se fazer cadáver, mas por força da obra ou dos feitos que o eternizam".

*Acadêmica do 4°período de Jornalismo, autora do livro infantil Vila Tulipa. Ganhou “Da arte de falar bem” em seu aniversário de 19 anos e não se cansa de ler as crônicas “Velha Crônica para Hoje”, “Saída do Labirinto” e “Aniversariar e fazer anos”.

sábado, 2 de maio de 2009

PARCERIA EM FOCO

Sobre a efemeridade do ser...



Por Saulo Galtri e Talita Guimarães*
Em um mundo cujos conceitos estão todos definidos de modo que quando nascemos encontramos todas as verdades já delineadas pelos mais experientes, mais vividos, mais ditos conscientes, certas ocasiões transformam em desafio a tomada de decisão diante de questões cujas respostas parecem não condizer de todo com a realidade que em um outro plano teríamos idealizado. Basta lembrar que as vezes a situação pode fugir ao controle das regras básicas, e pôr em choque aquilo que você pensa de verdade com o que a sociedade espera que você pense e faça.

Na busca pela autoafirmação, as pessoas externam aquilo que não lhes é essencial, mas sim necessário ao convívio em sociedade. Deixam de lado verdades interiores que às vezes, pela prática cotidiana de maquiar-se com as cores do tom social, acabam sendo transformadas em mentiras intimas. Coisas que não se deve dizer, apesar da concordância em pensar. Ações que devem ser evitadas em função da reação que podem provocar. Aparências que devem sobressair e prevalecer em detrimento de detalhes que se perdem aos poucos .

No entanto, não há como não lembrar que tudo aquilo que nos é podado pela sociedade se acumula com o tempo e esse sim é um fator taxativo, determinante, porque mostra o quanto tudo de material conquistado e firmado pode ser extremamente efêmero. Bens materiais se desgastam, perdem-se, deixam de ter o mesmo valor. E os desejos, as vontades, antes tão intensas, também são passíveis de mudanças temporais e inesperadas. Nada disso é novidade, mas nossa vida em sociedade insiste em bater na tecla dos padrões de comportamento e ditadura de moda e atitude. Ainda ensinamos normas às crianças e ainda dizemos aos outros que atitudes consideramos certas para se tomar. Nos atemos muito mais a regras decoradas do que a essência do ser e a compreensão sobre a real necessidade do agir.

Todo esse processo ocorre gradativamente dentro da sociedade. A padronização se dá dentro dos grupos e instituições, sendo que a primeira etapa começa com a família. Essa instituição secular exerce papel indiscutível na formação de novos indivíduos, mas uma vez tomada pelo senso comum e pela ausência de discernimento sobre a educação de seus filhos e filhas, cai no buraco da mediocridade criando indivíduos cheios de lacunas, que não sabem agir nem pensar sem uma opinião externa anterior a sua escolha. Pior que seres dependentes, esses homens e mulheres somam uma parcela grande da sociedade, que não consegue opinar com coerência e segue a vida tropeçando constantemente nas lacunas dos outros e nas próprias dúvidas.

Dentro desse mesmo contexto há, ainda, uma outra parcela de indivíduos um tanto controversa, que mesmo consciente da efemeridade do ser e ter, age medindo as situações, dançando literalmente conforme a música. São pessoas que tem potencial para “mover o mundo” no sentido inverso à massificação de ideais e predominância de aquisições puramente supérfluas, mas que por enxergarem apenas o tamanho do desafio, deixam de considerar que os resultados podem ser maiores e mais louváveis que os louros e o suor empenhado. Esses homens e mulheres de situação e oportunismo esquecem-se que o mundo será etéreo se o fizermos assim, e isso depende de nossas ações solidificadas em conceitos construídos pelo bem comum, pelo crescimento favorável a todos e não pelo comportamento previsível que não questiona, não discute, apenas aceita, embora as vezes não concorde de todo, apenas submeta-se. Se nossa sociedade continuar na mão de pessoas assim, estaremos fadados a perda da história, do aprendizado e da formação de senso crítico. Fadados a um conjunto de seres incapazes de prover com qualidade e competência a própria existência.
Mas nem tudo está perdido, prova disso é que novas gerações se formam graças a ações aparentemente isoladas de pessoas que não desistem e apostam suas fichas na valorização do ser humano e na construção de valores sedimentados no conhecimento do homem sobre si mesmo e sobre o impacto de suas ações. Parte dessas pessoas, cujas ações louváveis estimulam outras a continuar, são nomes de nossa sociedade que lutaram por melhorias e implantaram mudanças e concepções nascidas da inconformação com o sistema preexistente. Pesquisadores, estudiosos, artistas e cidadãos comuns que sempre ganham notoriedade se seus objetivos são perseguidos e conquistados com louvor, mostrando à parte oca da sociedade que é possível mudar, que é possível melhorar e desenvolver a humanidade com mais benefícios quando se leva em consideração a essência humana, a verdade interior que muitos não conhecem direito ou negam-se a ver rendendo-se às meias verdades alheias.
Nesse sentido, o ânimo que fica está relacionado ao questionamento saudável, que tem por fim discutir o que está sendo proposto para que se mude para melhor, voltando a atenção para questões e ações mais pertinentes, mais humanas e verdadeiramente essenciais. Preencher as lacunas com a tomada de consciência é um primeiro passo para compreender que tudo passa, a sociedade muda e que aquilo que permanece é o que outrora foi construído com solidez, com a finalidade de abranger a todos da melhor forma possível, e não simplesmente a fim de suprir uma necessidade momentânea.

*Saulo Galtri e Talita Guimarães são acadêmicos do quarto período de Jornalismo da Faculdade São Luís e esboçaram esse texto no ônibus, a caminho de casa.