sábado, 9 de maio de 2009

Ao Mestre, com carinho

Eternidade musical

Por Talita Guimarães*

Obra deixada por Mestre Antônio Vieira compõe legado rico em cultura popular de qualidade, com indiscutível caráter de patrimônio imortalizado pelo preciosismo de sua produção.

Assim como em outubro de 2008, o Ensaios em Foco homenageou a imortalidade da obra de Machado de Assis para a literatura brasileira, com o especial Eternidade Literária, agora, o Ensaios cumpre com a palavra de publicar um especial dedicado ao Mestre Antônio Vieira, ícone da cultura popular maranhense que nos deixou no dia 7 de abril de 2009, mas encantou o Maranhão com seu tom e há pouco tempo, ganhou o Brasil, com quase noventa anos de presença contagiante e obra inestimável.

Passado pouco mais de um mês do falecimento do Mestre Vieira, e às vésperas do seu aniversário em 9 de maio, quando completaria 89 anos de idade, o Ensaios percorreu a produção musical de Antônio Vieira à procura de captar em sua obra, a essência da alma de menino que conquistou prêmios pelo Brasil e ganhou notoriedade a partir das composições nas vozes dos maranhenses Rita Ribeiro e Zeca Baleiro.

Com uma produção extensa, que ultrapassa a marca de 327 canções, Antônio Vieira entrou para o cenário musical por pura paixão pela arte de compor, cantar e valorizar a cultura de sua terra. E talvez esse amor ao Maranhão tenha sido um dos principais fatores que tornaram sua obra única e rica. E é fato que Vieira compunha por prazer, sem a pretensão de fazer-se famoso ou mesmo cobrar reconhecimento dos outros.

A humildade com que costumava contar suas experiências musicais, nos grupos em que tocou, com os maestros e instrumentistas que conheceu e recebeu elogios, mostra que a força de sua obra esteve simplesmente no seu amor pela cultura e na crença de que a música torna as pessoas melhores. De fato, quem conheceu o mestre pode afirmar que não houve exemplo melhor de vivacidade musical e fôlego para tamanha produção do que Seu Vieira.

Pois bem, vamos à sua obra: Antônio Vieira começou a compor cedo, aos 16 anos. “Mulata bonita” foi o ponto de partida para uma produção longa, que refletiu simplicidade de letra e prezou pelas pequenas histórias e causos do cotidiano maranhense, do qual Vieira sempre foi atento admirador. Aliás, a obra do mestre retrata o apego a cultura, desde o conhecimento de sua raiz fincada na verdadeira cultura popular, passando pela frequente necessidade de conservar a memória das manifestações tipicamente maranhenses - e um exemplo disso é seu livro em parceria com Lopes Bogéa, “Pregões de São Luís” - chegando ao painel regional nas composições que ensinam modos de ser do maranhense e suas receitas, como na letra de “Banho Cheiroso”, em que Vieira brinca com a fórmula e os ingredientes do banho espécie “espanta maus espíritos” vendido no Mercado Central de São Luís.

Nesse sentido, as composições sempre mantiveram o olhar regional do Mestre, justamente na intenção de produzir cultura popular que por mérito falasse de cultura maranhense. Por não ser pretensiosa, e principalmente por Vieira ter vindo de uma geração que não via grandes ganhos em termos financeiros para manter-se de música e arte, a produção do mestre foi se acumulando em seus cadernos e nas folhas soltas de esboços que ele guardava em cofos - cestas de palha também típicas do artesanato maranhense. Entre intervalos, a cada aposentadoria que saía - trabalhou como Sargento do Exército, comerciante, diretor administrativo de hospital, vendedor de telefones entre outras profissões “normais” - Vieira reunia-se aos seus amigos do cenário musical em encontros onde tocavam samba, choro e até marchinhas. Ora acompanhando no pandeiro outros músicos, ora cantando suas letras, o mestre foi conquistando espaço e reconhecimento. Integrou o quinteto “Anjos do Samba”. Firmou parceria musical com Pedro Giusti nas composições “Papagaio de Papel” e “Menino Travesso”, premiadas em primeiro e segundo lugar, respectivamente, em um festival realizado em São Luís . Formou ainda o trio JB, ao lado dos músicos Othon Bastos e Jorge Barros.

Apesar disso tudo, Mestre Vieira só entrou em estúdio em 1986, e para gravar apenas uma de suas canções quando “Na cabecinha de Dora” integrou a coletânea “Velhos Moleque “ produzida por Chico Saldanha, Ubiratan Sousa e Giordano Mochel. Ainda assim, não foi nessa participação que a obra do mestre ganhou a notoriedade devida para a produção de um álbum próprio. Pelo contrário, foi só após Rita Ribeiro - cantora maranhense - gravar em 1997, as canções “Tem quem queira” e “Cocada” no disco de estréia que levou seu nome e foi produzido pelo conterrâneo Zeca Baleiro e pelo paulista Mário Manga, através da gravadora Velas, que as composições do mestre, já aos 77 anos, começaram a ganhar repercussão nacional. O que foi viabilizado graças ao Prêmio Sharp - hoje Prêmio TIM - de 1998 que indicou “Cocada” ao prêmio de Melhor Canção.

Assim, somente em 2001, a gravadora independente Elo Music através da produção de Zeca Baleiro lançou o primeiro álbum do Mestre Antônio Vieira, intitulado “O samba é bom”. O cd reuniu 18 canções entre sambas, valsas, boleros e ritmos regionais como baralho e carimbó maranhense. Gravado ao vivo nos dias 19 e 20 de janeiro de 2001 no Teatro Artur Azevedo, foi o registro mais que merecido de uma verdadeira celebração da cultura maranhense em reconhecimento ao talento e à contribuição de Seu Vieira. E contou ainda com as participações especiais de Elza Soares, Sivuca e Rita Ribeiro.

Para aumentar a amplitude das canções do mestre, em 2003 “Tem quem queira” e “Cocada” entraram na trilha sonora da novela “Da Cor do Pecado” exibida pela Rede Globo, cuja protagonista interpretada pela atriz Tais Araújo era Preta, uma maranhense adepta do Tambor de Crioula que representava a cultura do estado e despertava a paixão de um ambientalista carioca interpretado por Reynaldo Giannechini.

Apesar de toda essa repercussão nacional e do primeiro álbum de um artista cuja vida caminhou lado-a-lado a uma extensa produção ter ocorrido apenas aos 82 anos da vida musical que começou aos 16, considerar o reconhecimento da obra de Antônio Vieira como tardio não foi de todo um lamento que preocupou o mestre. “Meu tempo era esse mesmo”, disse em entrevista aos repórteres Dafne Sampaio e Sérgio Seabra para o site Gafieiras.com. Ao lado de Riachão, compositor baiano da mesma geração, Seu Vieira foi considerado ícone da cultura popular a nível nacional apenas após suas composições ganharem o país nas interpretações dos conterrâneos Rita Ribeiro e Zeca Baleiro. Mas assim, o mestre teve, finalmente o direito de eternizar em áudio uma pequena parcela do que compõem um legado rico para o patrimônio imaterial maranhense.

Mas esse especial não fica por aqui. Ainda há muito o que falar sobre o Mestre que ensinou ao Brasil o quanto a arte torna o ser humano querido e seu legado eterno. Em 2003, A Mineradora Vale patrocinou o registro fonográfico das composições de Antônio Vieira em um projeto importante denominado “Documentação e Registro Fonográfico da obra musical do Mestre Antônio Vieira”. Esse material contém um livro com ensaio biográfico, um encarte com as mais de trezentas composições do mestre, e um documentário com depoimentos e histórias contadas pelo próprio Vieira. Um kit completo para entender, conhecer e valorizar a cultura popular maranhense produzida por quem soube aliar talento, poesia, simplicidade e sensibilidade ao preciosismo de uma arte leve, retrato
do cotidiano.

*Acadêmica do quarto período de Jornalismo da Faculdade São Luís. Conheceu o Mestre Vieira em 2007, quando no primeiro período da faculdade, registrou em documentário uma entrevista inédita onde o mestre contou sobre seu percurso musical e as experiências na produção do livro "Pregões de São Luís".

3 comentários:

José Neres disse...

Excelente trabalho, Talita. Boa pesquisa bom texto e uma homenagem merecida ao velho Mestre que tanto contribuiu para os momentos de alegria de quem admira a boa música. Um dos melhores shows a que eu fui foi de Antônio Vieira com Chico César. Um espertáculo! Tenha uma boa semana...

Anônimo disse...

Adorei a matéria.
Ficou muito boa Talita.

S.Sousa

Talita Guimarães disse...
Este comentário foi removido pelo autor.