sexta-feira, 8 de maio de 2009

RESENHA EM FOCO

CHAGAS, José. Da arte de falar bem. São Luís. Instituto Geia, 2004.


“Crônicas de saudade e bem-querer”: quando o ofício do poeta vem do dom de bem falar

Por Talita Guimarães*
Um poeta não vive apenas da poesia expressa em versos. Definitivamente não. Um poeta vive e produz em função de um incômodo e transmite sua visão de mundo através de um poetizar que pode estar muito bem colocado na prosa. Prova disso é constatar que há quem consiga relatar a poesia da infância, o conto de um aniversário ou a saudade de um momento vivido com amigos de modo fascinante em um texto repleto de sentimento. Melhor que isso é dar ao leitor o prazer de encontrar toda essa poesia reunida em um livro de crônicas, com relatos comoventes e encantadores feitos pelas mãos de um poeta-cronista que sabe cultivar a arte de falar bem.
O que mais chama a atenção em “Da arte de falar bem” cujo nem o subtítulo escapa da poesia do inconfundível José Chagas – Crônicas de saudade e bem-querer – é a presença do relato do cotidiano feito sob a ótica do olhar poético e otimista de quem sabe tirar das coisas o que elas têm de melhor. Logo de início, uma apresentação comovente escrita por Sebastião Moreira Duarte, fala de Chagas, a obra e como surgiu a idéia de reunir em um livro de crônicas os textos do poeta publicados em jornais e soltos no tempo. Falar bem é uma arte que, expressa através da poesia, mostra que Antônio Carlos Secchin – escritor, membro da Academia Brasileira de Letras - tem razão em dizer que toda a matéria do mundo alimenta o poeta.
José Chagas consegue colocar nas crônicas todo o seu sentimento de saudade e desejo pelas coisas mais simples da vivência cotidiana que se percebidas com sutileza mostram-se inspiradoras. Coisas como o convívio com a infância e a tentativa de compreendê-la depois de adulto, contada docemente na primeira crônica do livro – “Velha crônica para hoje”.
Em seus textos, o poeta reflete sobre a amizade; viaja ao passado para contar sobre sua vida política; lembra de discursos emocionados feitos para amigos e por amigos; resenha artigos de outros autores; indica lugares de seu gosto e explica com toda a poesia de sua alma e bom humor de suas palavras o porquê da escolha; reza; agradece; emociona; enaltece. Deixa ao leitor um conjunto das crônicas mais poéticas que se possa imaginar. Faz de nós, pobres mortais, capazes de enxergar a vida e as coisas sob o olhar da poesia. Alimenta-nos com uma matéria refinada e deliciosa. Faz de mim leitora grata, quase poetisa. Aliás, ao poeta, fica meu muito obrigada em forma de feito raro, inspirado na arte de falar bem, espalhar o bem, sentir-se bem:

Cada página é um presente
Cada palavra, um afago
Cada instante, livre no mundo da literatura
Entre infindáveis leituras
Simplesmente eterno.
Afinal, é o próprio Chagas quem nos ensina: "...ninguém existe só em razão de um corpo destinado a se fazer cadáver, mas por força da obra ou dos feitos que o eternizam".

*Acadêmica do 4°período de Jornalismo, autora do livro infantil Vila Tulipa. Ganhou “Da arte de falar bem” em seu aniversário de 19 anos e não se cansa de ler as crônicas “Velha Crônica para Hoje”, “Saída do Labirinto” e “Aniversariar e fazer anos”.

Um comentário:

laura caldas disse...

Ótimo!!!