domingo, 7 de junho de 2009

JORNALISMO CULTURAL EM FOCO

Profissionais e estudantes de comunicação discutem rumos do Jornalismo Cultural na Imprensa Maranhense


Para falar de cultura, entretenimento, indústria, linha editorial, interesses políticos e a atuação do jornalista em meio a esse contexto, seis jornalistas maranhenses compareceram à Faculdade São Luís na última quinta, e levantaram questões pertinentes em um papo descontraído com os futuros colegas, hoje estudantes de comunicação.


Texto e fotos por Talita Guimarães


A Faculdade São Luís, através da turma do quinto período de Jornalismo, promoveu na última quinta-feira (04), das 19h às 22h, a I Maratona de Jornalismo Cultural com a presença de profissionais maranhenses atuantes nas editorias de cultura dos veículos da capital: televisão, rádio, jornal impresso, internet e assessorias de comunicação.

O evento contou com a presença dos jornalistas Paulo Pellegrini (Rádio Universidade FM), Ingrid Assis (Jornal O Estado do Maranhão), Zema Ribeiro (Comunicação da Cáritas Brasileira), Eduardo Júlio, Liliane Moreira (Clara Comunicação) e José Raimundo Rodrigues (TV Difusora) em um debate sob mediação do acadêmico Daniel Cordeiro (no centro da foto falando ao microfone), do quinto período de Jornalismo da instituição.



Com o tema Jornalismo Cultural na Imprensa Maranhense, os profissionais iniciaram a rodada de debates conceituando cultura a fim de tornar claro aos estudantes quais pautas cabem a esse segmento de jornalismo e quais podem ser os tipos de abordagem quando se trata de coberturas culturais.

Para Zema Ribeiro (na foto abaixo, à esquerda, falando ao microfone observado por Ingrid Assis), jornalista que já atuou na Assessoria de Comunicação da Secretaria de Estado de Cultura e mantém um blog sobre cultura constantemente pautado pela mídia maranhense, “ a cultura é muito mais que eruditismo ou tambor de crioula. É um pleonasmo de tudo que o homem faz e transforma a natureza”, expôs considerando a importância de não rotular cultura com extremismos erudição ou popular.

Lembrando que vários teóricos desenvolveram linhas de estudo voltadas para a abertura do conceito de cultura, entre eles Nestor Garcia Canclini, estudioso dos fenômenos culturais na comunicação, Ingrid Assis iniciou sua fala analisando que “o homem por si só sente necessidade de definir as coisas, mas a cultura não pode ser fechada em um conceito, porque é muito ampla”. A jornalista, que editou o Suplemento Galera de O Estado do Maranhão e atualmente está a frente do Na Mira encartado às sextas, no mesmo jornal, ponderou “não dá pra definir simplesmente, já que a arte está presente em tudo. Um grafite em um muro é arte. Até um copo pode servir de instrumento de inspiração para o pop art, por exemplo”.

Já Eduardo Júlio, que foi editor do caderno cultural Impar do Jornal O Imparcial, defendeu o equilíbrio baseado no “diálogo e complemento”, levando em conta que não deve haver distinção entre erudito e popular. Assim como Paulo Pellegrini, coordenador de programação da Rádio Universidade FM, ressaltou que o “equilíbrio é a tônica das páginas do impresso”.

A questão dos veículos maranhenses destinarem pouco espaço à cultura popular foi levantada pelo jornalista José Raimundo Rodrigues e gerou bastante debate em torno do interesse da mídia local pela cultura regional, quando se sabe que constantemente há muito espaço e até a promoção de eventos com artistas de outros estados. “São raros os profissionais que dão valor a cobertura da cultura local”. E aproveitou para pontuar a ligação dos meios de comunicação de massa com grupos políticos e a preferência por um tipo de cobertura em detrimento de outras, a respeito do Marafolia, por exemplo. “Os meios de comunicação de massa estão umbilicalmente ligados a grupos políticos”, frisou.


Nesse ponto, Liliane Moreira (foto à esquerda), que atualmente trabalha na Clara Comunicação mas já atuou na Assessoria de Comunicação do Marafolia, destacou que há interesse entre as gravadoras e a mídia, em promover a cultura local, mas o apelo comercial das empresas de comunicação não cede espaço para essa divulgação. Como Assessora do carnaval fora de época promovido pelo Sistema Mirante, Liliane lembrou do episódio em que em contrapartida ao Marafolia, o caderno Impar sob editoria do então Eduardo Júlio publicou a provocativa matéria “Para quem não gosta de axé: outras opções durante os três dias de Marafolia”, em que o jornalista listava uma série de eventos que estariam acontecendo na cidade paralelos à micareta. “Na época, eu odiava o Eduardo”, Liliane fala em tom de brincadeira, mas criticando o modo como as linhas editoriais geram rivalidade entre os jornalistas e acabam tirando dos profissionais a autonomia para cobrir mais do que a linha editorial permite. “Eu mesma queria ter visitado os eventos da matéria do Eduardo, mas não pude porque estava cobrindo o Marafolia”, acrescenta.


Ainda sobre o episódio, Eduardo Júlio (foto ao lado) explicou que a linha de O Imparcial trabalha com um “jornalismo combativo” que tenta “cavar o muito que acontece na cidade para que nada passe despercebido” e comentou que assim como o jornal se opôs ao Marafolia, mostrando outras opções na agenda cultural da cidade, o jornal O Estado do Maranhão omitiu o Festival Internacional de Música do qual São Luís foi sede a alguns anos atrás com um evento de grandioso encontro de artistas brasileiros e internacionais no Aterro do Bacanga.

Quando o debate foi aberto aos comentários dos estudantes e ao levantamento de novas temáticas, a pauta passou à distinção entre cultura e entretenimento no direcionamento das matérias dentro dos cadernos de cultura dos jornais. Os jornalistas concordaram que deve haver a agenda cultural, com a programação de show’s, espetáculos e filmes em cartaz, mas para Eduardo Júlio, ainda falta o estímulo ao acompanhamento dos eventos agendados e a produção de críticas e comentários nos cadernos culturais. “Esse debate deve ser estimulado desde a faculdade, mas no mercado, infelizmente a iniciativa parte do repórter”, comenta exemplificando que as críticas publicadas hoje, partem de repórteres que vão espontaneamente aos cinemas e teatros e redigem resenhas por conta própria, acumulando funções dentro dos jornais. “O repórter se delicia com filme, disso não há dúvida, mas quando chega em casa, passa a noite escrevendo a crítica porque tem que entregar no dia seguinte e dentro da redação tem cinco ou seis pautas do jornal para cobrir”, conta.

Quanto a presença do chamado “Segundo Caderno”, que mescla variedades, com entretenimento, fofoca, resumo de novelas e afins, geralmente associados erroneamente a cultura, Eduardo Júlio é taxativo “é uma tendência entre os jornais”. No livro Jornalismo Cultural, Daniel Piza explicita a presença desse caderno que ganha espaço pela popularidade, mas que por outro lado pouco tem a ver com o conteúdo cultural que é veiculado em suplementos literários/dominicais assinados na maioria das vezes por professores sem a técnica do texto jornalístico.

Nesse sentido Paulo Pellegrini chama a atenção para a diferenciação entre entretenimento e cultura e explica como a confusão começa e desemboca no caderno de cultura: “Dentro dos jornais, principalmente impressos, todo tipo de pauta que não cabe às editorias especializadas - tipo cidade, política, esporte, economia, polícia - vai parar em cultura. Nessa leva, horóscopo virou cultura, tv, novela, palavras-cruzadas e tirinhas se confundiram com a cobertura das sete artes - cinema, teatro, música, literatura, pintura, escultura e dança - que constituem a essência do caderno cultural”. Pellegrini lembrou que nesse contexto, o profissional da comunicação tem de acatar ao regimento do veículo, mesmo que contra vontade, porque “nessa ciranda o jornalista é apenas um funcionário”. Entretanto, defende o exercício responsável da profissão falando aos estudantes que “nem por isso o jornalismo está enfraquecido, já que se deve levar em consideração que a vida em sociedade impõe limites e essa amarra também cabe ao jornalista, como ser social”.

Encerrando essa rodada, o professor Pedro Sobrinho (foto) comentou sobre como a mídia pode realizar uma cobertura mais ampla da cultura, sem ter de prejudicar uma manifestação local em função de um evento com artistas de fora. Usou como exemplo a imprensa pernambucana que valoriza muito o maracatu, da cultura regional, mas dá conta também de eventos culturais em escala nacional e internacional.


Com base no comentário do Professor, o jornalista Zé Raimundo, apresentador do Maranhão TV, programa de cultura popular maranhense há 25 anos ininterruptos no ar, afirma categoricamente que não há espaço para a cultura local na imprensa maranhense. E toma como exemplo a divulgação de um dvd em que a produção de seu programa reuniu material sobre Tambor-de-Crioula com a participação de 22 grupos folclóricos e a mídia local ignorou. “Esse material foi levado por uma emissora francesa de televisão fechada e foi veiculado durante seis meses em Miami e Nova York, sendo que em São Luís, a matéria que o jornal O Imparcial fez, nunca foi publicada”, desabafa e acrescenta que há, por parte da classe universitária um desconhecimento total da cultura. “Essa riqueza está caindo no esquecimento por falta de mídia, de interesse.”, finaliza.

A última rodada de discussões girou em torno da legitimidade da cultura dita popular se enquadrar no perfil de qualidade e merecimento de divulgação e ainda sobre a hibridização, para não dizer descaracterização, pela qual as manifestações populares passam em virtude da indústria cultural, da valorização do espetáculo em detrimento do ritual e do desafio dos jornalistas conciliarem a linha editorial dos veículos em que trabalham com a cobertura responsável e compromissada com o leitor, e não com aquilo que o dono do jornal quer que você escreva.

Finalizando, os seis jornalistas convidados agradeceram a oportunidade de debater tais questões com os futuros colegas de profissão e deixaram como conselho que os estudantes aproveitem o momento de formação acadêmica para discutir mais questões relacionadas à teoria e à prática no mercado profissional local lembrando sempre de levar adiante o compromisso com o exercício responsável do jornalismo, independente de linha editorial, politicagem ou interferência no que comprometa o lado social da profissão. “Não se atentem só aquilo que o professor passar, não leiam só a xerox, ousem!”, aconselhou Zema Ribeiro.

“O jornalista se impõe pelo embasamento que carrega para defender sua pauta, para discutir com o editor a relevância de seu texto ser publicado na íntegra”, finaliza Ingrid Assis.

Nenhum comentário: