terça-feira, 23 de junho de 2009

JORNALISMO, JORNALISTAS E SOCIEDADE EM FOCO

Então acharam que nosso ofício não requer conhecimento específico... então disseram que qualquer um pode ser jornalista... então decidiram que o diploma não é necessário... Para aqueles que ouviram essa série de devaneios e agora não sabem se posicionar, segue abaixo um pequeno resumo sobre o nadinha de conhecimento que aprendemos na faculdade de comunicação e que segundo pensam nossos ministros, não é nem preciso estudar para saber... Ao fim, peço ao prezado leitor(a) que não deixe de comentar sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal em REVOGAR, ANULAR, INVALIDAR a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão.
BARROS FILHO, Clóvis. Objetividade Aparente e Objetividade como Estratégia. In:____ Ética na Comunicação. 4ª ed. São Paulo: Summus, 2003. p. 21-61.
Por Talita Guimarães*

Para falar sobre objetividade como um critério considerado indispensável à prática jornalística, o professor universitário Clóvis Barros Filho em seu livro “Ética na Comunicação”, descreve o desenvolvimento da comunicação através da profissionalização do informar, percorrendo desde o surgimento da concepção de objetividade, cujo fim era estabelecer um padrão para o exercício do jornalismo ideal, até seus desdobramentos ocasionados pela evolução do pensamento ideológico e da vertente interpretativa da profissão.

Inicialmente, o texto “Objetividade Aparente e Objetividade como Estratégia” expõe as questões que caracterizam a objetividade informativa, tais como conceitos, paradigmas, a quem de fato interessa ser objetivo e para quem interessa que o texto seja objetivo. Nesse sentido, Barros Filho analisa a capacidade da redação jornalística alcançar a objetividade vislumbrada como uma representação do jornalismo ideal, uma vez que dentro do percurso histórico da profissão há uma oscilação perceptível na adoção do critério dentro da construção do texto.

Segundo o autor, a objetividade jornalística surge com a “evolução do espaço ideológico” sob influência do Positivismo Filosófico de Auguste Comte, vertente filosófica que alcança o nível de cultura dominante quando enfatiza a necessidade de um estudo que represente a realidade tal como ela é, sendo que esse conhecimento só será alcançado se o método de pesquisa for científico, racional, preciso e claro, objetivo. Dentro desse contexto, surgem as distinções entre fato e juízo de valor, real e valoração humana do real e acontecimento a ser estudado e opinião. Totalmente concernentes ao jornalismo como prática profissional a serviço da sociedade, essas questões entrelaçaram-se não só com os interesses econômicos ligados à eficácia ou à rentabilidade dos veículos, mas principalmente à legitimação de um produto, e aí surge a necessidade de convencer os receptores da credibilidade da notícia. O texto fala inclusive, que a adoção dessa ditame positivista tem a intenção de modificar a prática jornalística do ponto de vista da qualificação da profissão para o público.
Mas se por um lado, a objetividade foi englobada por interesses econômicos, por outro modificou estruturalmente a redação dos textos. Da necessidade de viabilizar a leitura facilitando a apreensão imediata do substância dos fatos, surgem as técnicas do lead e da pirâmide invertida, que sintetizam logo nos primeiros parágrafos do texto as principais informações. Uma vez obrigados a aderir à racionalidade no trato das informações, os jornalistas começaram também a serem pressionados pelo crescimento da concorrência entre os veículos, de modo que fatores como tempo e a celeridade na produção e difusão das matérias tornaram-se inseparáveis às redações. Barros Filho aponta como consequência desse processo, o fato da prática da objetividade tornar-se conveniente aos repórteres, pois a frieza no trato das informações “eximia-os” de responsabilidade ética e até jurídica. Nesse contexto, faz-se presente o argumento da Teoria do Espelho, da verdade mostrada “nua e crua”.
Quanto a evolução da representação do jornalismo objetivo, o texto fala que houve um desprestígio da objetividade jornalística com o desenvolvimento da prática. O autor analisa que o surgimento do jornalismo interpretativo causou polêmica pela “quebra do espelho”, na inserção da interpretação via juízo de valores, já que agora os jornalistas queriam expor “o fato sobre o fato” alegando que o leitor ficava confuso e mal informado com a oferta de uma série de informações isoladas e sem impressão interpretativa.
Entretanto, a televisão, pela própria condição, impõe o uso da objetividade primeiro pela questão do tempo, a transmissão das informações tinha que ser precisa e objetiva, e segundo porque a objetividade era uma estratégia, já que ser visto como objetivo elevava o status de “fonte informação” junto ao público. Como discurso, Barros Filho considera a objetividade como “impossível ideal-típica” e como “ideal-típica como intenção ou procedimento”, avaliando as distinções entre as formas que o critério assume. O primeiro detém-se na impossibilidade de existência da objetividade absoluta, que tal como a imparcialidade, deve ser considerada como um modelo abstrato mas ainda assim uma tendência, pela permanência da informação jornalística.
Nesse sentido, o autor discorre sobre informação e verdade, factualidade, legibilidade, checabilidade e imparcialidade, além do valor da informação. Já no segundo item, o texto apresenta a objetividade como um procedimento que parte do jornalista, a partir da sua concepção deontológica quanto a importância de produzir um jornalismo responsável com a informação difundida. Há ainda, o caráter intencional da objetividade, quando o autor pondera que a informação deve ser tratada com uma objetividade pauta na deontologia, de modo que a difusão dessa informação tenha real utilidade para as pessoas que irão recebê-la.

Por fim, o autor critica o modo como as técnicas do lead e da pirâmide invertida formam um novo tipo de leitor, apelidado de “leitor de manchete” ou “leitor de banca”. Em linhas gerais, Clóvis Barros Filho em “Objetividade Aparente e Objetividade como Estratégia” descreve como ocorre a construção do texto objetivo com base na integração entre os critérios de noticiabilidade, a deontologia e o nascimento de novas formas de jornalismo, entre elas a crescente distinção entre informativo, interpretativo e opinativo e ainda a prática do New Journalism, ou Jornalismo Literário.
*Acadêmica do quarto período de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Faculdade São Luís. Produziu esse resumo para a disciplina de Teorias do Jornalismo, cujo plano de ensino percorreu desde as primeiras teorias sobre a atuação do jornalista na sociedade até os mais novos conceitos do exercício profissional, entre eles Jornalismo Literário e Jornalismo Público. Estudou autores e teóricos da comunicação, tais como Barbie Zelizer, Adelmo Genro, Luiz Martins, Robert Park, Clóvis Barros Filho, Felipe Pena, Gaye Tuchman, Jay Rosen, Nelson Traquina, José Marques de Melo, Philip Schlesinger, entre outros. E NÃO ADMITE QUE NÃO SEJA PRECISO TER CONHECIMENTO ESPECÍFICO PARA ATUAR COMO JORNALISTA. APÓIA O DIPLOMA E CONTINUARÁ ESTUDANDO JORNALISMO PARA MELHOR ATUAR NA SOCIEDADE.

2 comentários:

Jessica Alves disse...

Oi Thalita! Muito bom o seu texto. expressa bem tudo aquilo que deveria ser levado em conta no Supremo tribunal antes de tomar uma decisão de tal porte. Sou TOTALMENTE CONTRA a não obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Jornalismo é uma profissão e deve ser levada como tal, para q de fato seja exercida com ética e credibilidade. Se Deus quiser estarei cursando em breve. Bjos! Parabéns!

Talita Guimarães disse...

Olá Jéssica!

bem-vinda ao "Ensaios..." e obrigada por comentar.
Pois bem, quando o STF tomou essa decisão, uma de nossas maiores preocupações, como jornalistas - focas ou profissionais - é o rumo que as faculdades de comunicação vão tomar a partir da não obrigatoriedade do diploma. O retrocesso está no apoio declarado dos ministros a falta de qualificação, o que configura muitos passos para trás em termos de educação e formação intelectual. Ficamos temerosos pela mudança na grade curricular das faculdades, que pode tender ao ensino basicamente técnico, e também pelo desestímulo que os jovens podem sofrer em seguir uma carreira pela formação acadêmica.

Fico feliz que você esteja consciente da importância do nosso diploma e convido-a a visitar-nos mais vezes, a fim de conhecer melhor a prática do jornalista e debater sobre essa profissão de suma importância para a sociedade.

Grande abraço,

Talita Guimarães