sábado, 13 de junho de 2009

LITERATURA EM FOCO

De Machado para Lygia, a chance de desdobrar um conto*

Por Talita Guimarães

Um dos mais importantes contos de Machado de Assis, “Missa do galo” é considerado um clássico da literatura brasileira. Escrito no final do século XIX, o narrador de forma tensa e intimista, faz um relato sobre a conversa entre um jovem de dezessete anos e uma senhora chamada Conceição. Em plena noite de natal, o jovem aguarda sozinho na sala de visitas da casa em que está hospedado, pelo horário de ir à Missa do Galo. De repente surge na sala a esposa do escrivão que o hospeda, uma mulher simpática que inicia um diálogo despretensioso com o rapaz. Durante o tempo em que os dois conversam para passar o tempo, a cena mostra-se amena e cortês, assim como as atitudes de um em relação ao outro. O conto é narrado pelo rapaz como lembrança de muito tempo passado, no qual o narrador afirma logo no início que nunca pode entender essa conversa tida com Conceição.

Já, no conto “Missa do Galo”, de Lygia Fagundes Telles, escrito no século XX, a escritora através de relações intertextuais com o conto machadiano revela que a conversa amena entre os personagens pode esconder um interesse mútuo, onde os dois, tomados por uma situação inesperada, sentem-se diferentes um na presença do outro, como se estivessem envolvendo-se em um possível romance. A partir desse ponto, Lygia reconta a narrativa de Machado sob a ótica da multiplicidade característica da obra do autor, na qual lacunas são postas entre os acontecimentos, dando espaço a novas interpretações e adaptações.
Em sua paráfrase, a autora aponta os pensamentos dos personagens como se ambos estivessem sentindo-se atraídos, mas preferissem esconder ou esperar que o outro tomasse alguma iniciativa. Ao fim, nada acontece e a narração de Lygia mostra-se decepcionada com o resultado do texto de Machado, que ela, em sua adaptação não altera.
Fazendo-se um cotejo entre os dois textos, constata-se que ambos possuem uma relação direta em seus temas, uma vez que Lygia Fagundes Telles parafraseia Machado de Assis de um modo bastante autêntico. A partir da introspecção, peculiar a autora, a versão século XX do conto de Machado apresenta todo o cenário criado pelo autor e adiciona à história o olhar de um terceiro personagem, narrador, que mescla o enredo original com comentários onipresentes. Além dessa visão, Lygia propõe a continuidade das obras de Machado, já que o autor dá ao leitor um legado que beira a liberdade para comentários que recriem e reformulem seus textos.
*Texto originalmente produzido durante o segundo período de Jornalismo, para a disciplina Laboratório de Produção de Textos II, ministrada pela Profa Elaine Araújo. Durante essa cadeira, as produções foram semanais, de parâmetros entre textos, resenhas, fichamentos e análises aos comentários de filmes e livros.

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