sábado, 27 de junho de 2009

PARCERIA EM FOCO

Sobre uma instituição dos sonhos...*

por André Mendes* e Talita Guimarães**

O mundo não pára de girar. A sociedade se mantém em constante movimento. Tudo muda a todo instante de alguma forma. Conceitos, padrões, normas, leis, tecnologias, atitudes. Da imperceptível embalagem de um produto a toda uma reforma no ingresso de estudantes nas universidades do país. Da reforma ortográfica às variações nas taxas de juros. Assim, a História ensinada nas escolas precisa ser atualizada a cada período letivo. E nesse sentido não há discussão: a vida estará sempre sujeita a mudanças, boas ou más, certas ou erradas, aceitáveis ou questionáveis, exatas ou duvidosas.

Dentro desse contexto, sabemos que mudar é, muitas vezes, um processo natural e até necessário. E que compreende a capacidade de perceber o que está adequado e o que precisa ser transformado. Mudar pressupõe a análise de uma realidade com olhos atentos a totalidade, para perceber quais elementos precisam de reparo. E é preciso notar que a mudança em si não é necessariamente uma substituição de tudo por algo completamente novo. Há uma série de níveis a percorrer, que vão do simples ajuste a uma reforma total ou mudança radical. Dentro de todo esse processo é bom ressaltar que quem determina o grau de mudança é a necessidade da alteração. Em alguns casos, mudar significa inovar, transformando o que já existe em algo potencialmente melhor.

No mais, todo processo de mudança guarda desconfiança, medo e incerteza. Quando somos pegos de surpresa, o impacto da mudança pode ser maior que a própria transformação em si. Quando sabemos que a modificação visa melhorias, geramos expectativas em cima dos resultados e sempre estamos expostos a decepções. Nesse sentido podemos entender que há vários modos de mudar, e muitas consequências e reações diferentes para cada tipo de mudança.

E para exemplificar que esse processo acontece a todo momento e em todos os lugares, vamos escolher uma área da sociedade que clama por alteração, pois sendo a base, reflete em todos os outros campos de interesse social, a educação. Pois bem, em um contexto geral a educação foi pauta de muitas mudanças em 2009. Logo em janeiro, a reforma ortográfica para os países de Língua Portuguesa entrou em vigor, assustando estudantes, contrariando professores e tendo de ser aceita por toda a comunidade lusófona. Questionamos, procuramos mais informações, nos adequamos - ou estamos tentando ainda. Foi uma mudança grande porque seu campo de abrangência atingiu muitas pessoas, mas em suma, detalhes da nossa ortografia foram alterados.

Em março, o Ministro da Educação Fernando Haddad apresentou ao país o novo formato de ingresso ao ensino superior. Uma mudança radical, de debate importante, pois modifica o vestibular estruturalmente e tem plano de ação para já entrar em vigor em outubro desse ano. E aí, a adequação a essa mudança ocorrerá a toque de caixa entre concluintes do ensino médio, escolas e cursos pré-vestibulares. Trazendo todas essas perspectivas sobre mudanças para o nosso contexto, vemos que o então CEFET-MA também já não é o mesmo. Hoje somos Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, ou simplesmente IFMA. Convivemos em nosso dia-a-dia como alunos, professores, servidores, ex-alunos e famílias de alunos, com mudanças na estrutura de nossa escola. Consideramos que toda essa nova instituição que se ergue trará melhorias significativas se os objetivos forem alcançados. Mas será que estamos cientes de que os objetivos só serão alcançados se nós, e a ênfase não é exagerada porque somos nós que formamos a instituição que queremos, nos empenharmos em atingí-los? O CEFET-MA, que muitos insistem em continuar chamando de Escola Técnica, sempre foi visto com grande orgulho pela sociedade maranhense. Talvez por isso, nossos pais ainda o chamem pelo nome que se fez grande: pela famosa e contagiante banda de música que despertava admiradores por onde passava, pelo desempenho nas modalidades esportivas que sempre se destacavam nas competições pelo país afora, pelo teatro, cujo palco alimentou sonhos de plateias sob a forma de magníficos espetáculos. Por tudo que a simples menção de um nome faz lembrar em várias gerações.

Mas como tudo, essa realidade mudou. A instituição cresceu, e é certo que também passou por dificuldades, mas algumas coisas, entre tantas que poderiam ficar, permaneceram e talvez nunca mudem: a determinação, dedicação e coragem de seus alunos. Estes, ao ingressarem no antigo CEFET, hoje IFMA, quase sempre sofriam um choque por nem sempre encontrar na realidade as expectativas de seus sonhos, alimentados pelas lembranças de seus pais e da eterna escola técnica.

Hoje, a instituição enfrenta o maior de seus desafios: mudar novamente. Mas mudança não significa jogar o passado e seus erros fora, nem trocar de nome, nem mesmo se restringir a fazer grandes reformas materiais e de infra-estrutura. A mudança que esperamos, pelas quais instituimos sonhos vai muito além e se inicia com a mais difícil de todas elas: a mudança de pensamento, a partir da revisão de valores.

Agora é a hora de renovarmos a maneira como analisamos a responsabilidade da instituição, a forma como professores, alunos e servidores se relacionam. É o tempo de investirmos na transparência de nossas relações em comunidade, de fugirmos da desgastante retórica e implantarmos de uma vez por todas a ação, de percebermos que estamos longe de um processo educativo pleno, mas que é possível, com dedicação e coragem, jogarmos fora o ego que o poder do conhecimento nos traz e promovermos o diálogo e o trabalho coletivo de nosso colaboradores.

Junta-se a isso, nosso dever de destacar as responsabilidades inerentes aos alunos nesse processo de mudança, relembrando-os que representam a identidade de qualquer instituição de ensino. Sendo assim, seus valores, opiniões, expressões artísticas, científicas e culturais são os medidores da qualidade dos serviços do instituto. É indispensável que todos aprendam a se mobilizar, organizando-se politicamente, reivindicando seus direitos e discutindo ideias com os novos membros que anualmente ingressam nesse mundo de oportunidades e renovam sua forma de pensar. Estamos diante da visita que tanto desejamos. A chance de mudar está batendo na porta, mas abri-la e deixá-la entrar é fácil e no nosso caso, inevitável. O desafio, que determinará a concretização da mudança como positiva, é saber transformar a visita em amigo, desses que ficam permanentemente conosco e mesmo quando parecem não serem mais novidade mostram a nós que os ensinamentos são válidos e servem para prosseguir implementando melhorias e ajustando o que está errado com coerência e consciência. Mas para tanto, exigem ação participativa. Alunos, servidores, professores e famílias integrados, trabalhando juntos pela construção da escola que queremos. Cabe tanto às nossas ações pessoais, no dia-a-dia de estudo, concentração e trabalho quanto nas coletivas: alunos reivindicando direito a aprendizado, servidor lutando por melhores condições de trabalho e professores valorizando sua profissão com um trabalho compromissado.

Vale lembrar, que assim como as atitudes positivas partem de nós, a consciência em torno dos nossos erros também é um bom começo para a efetivação da mudança que queremos. Portanto, devemos parar de reclamar e de pensar que mudança é só reivindicação de direito e reparar primeiro em nossas ações e em como a partir delas estamos interferindo na construção da nova escola. Assim, daremos o primeiro passo, aparentemente isolado, para iniciar a reconstrução do ambiente em que vivemos.

Sonhar também é importante. Querer muito que a escola melhore é fundamental, mas temos que lembrar que o sentimento de mudança não move o mundo. Sentimento por sentimento, vontade por vontade não altera nada. Não move nem um grão de areia, quanto mais montanhas. Sendo assim, devemos perceber que o IFMA não se erguerá com a força e consistência que queremos se não estivermos participando efetivamente desse processo de reconstrução. E aí, há espaço para ações de todas as partes interessadas: alunos - a razão de ser do instituto; professores - os profissionais responsáveis pela orientação e o direcionamento à construção do conhecimento; servidores - peças fundamentais a manutenção da estrutura administrativa e funcional da escola; famílias - base e elo com a comunidade e ex-alunos - parte da escola que agora atua na sociedade, levando o nome da instituição por onde passa. Assim, devemos ter a certeza de que as mudanças nunca param e que como diria Auguste Comte, precursor do Positivismo Filosófico, “progredir é conservar melhorando”.

Da Escola Técnica ao IFMA: um percurso centenário de mudanças
De Escola de Aprendizes Artífices do Maranhão, Liceu Industrial de São Luís, Escola Técnica Federal de São Luís, Escola Técnica Federal do Maranhão, Centro Federal de Educação Tecnológica até Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia há um percurso centenário. Poucos têm conhecimento de que o atual IFMA já recebeu todas essas denominações e foi criado por um decreto estabelecido pelo então Presidente da República Nilo Peçanha. Dentro do histórico da instituição, somam muitas mudanças, melhorias e reformulações de sistema. A transição da nomenclatura Escola Técnica para CEFET foi resultado da mudança institucional datada de 1989, e foi lei assinada pelo Presidente José Sarney em virtude da instalação de grandes indústrias no estado do Maranhão. Para suprir a necessidade profissional desse processo industrial, a escola ofereceu à comunidade cursos técnicos profissionalizantes a nível médio e implantou aos poucos cursos de ensino superior na área tecnológica. Todo o processo que constitui a transformação em IFMA começou em dezembro de 2007 com o anúncio do Ministro da Educação sobre o novo formato de educação da rede federal de ensino. Desde então, o Ministério do Planejamento enviou o projeto do novo formato à Casa Civil, que junto aos CEFET’S através da catalogação feita pela chamada pública e do grau de aceitabilidade da transformação, escreveu o projeto de lei que foi assinado pelo Presidente Lula no dia 29 de dezembro de 2008. Dentro do CEFET-MA, foram realizadas inúmeras reuniões com o conselho diretor, os corpos discente e docente e os servidores para avaliar os benefícios da mudança e a opinião dos mesmos. Por fim uma assembléia geral realizada em fevereiro de 2008 votou e aprovou por 144 votos contra 19 a implantação do IFMA. Desse modo a modificação prevê desde o slogan da instituição até o projeto político pedagógico e a quantidade de cursos oferecidos. O número de vagas também deverá aumentar assim como a abrangência da rede federal com a agregação das escolas agrotécnicas.




Percurso centenário


Infográfico retirado do Portal do Ministério da Educação: http://portal.mec.gov.br/redefederal/reordenamento.php



* Texto originalmente publicado no jornal semanal do Projeto Rádio-Escola veiculado dentro do Instituto Federal do Maranhão (IFMA)

*André Mendes é aluno do IFMA e pesquisador do Projeto Rádio-Escola

*Talita Guimarães é ex-aluna do IFMA e atual estudante de Jornalismo.

Nenhum comentário: