sábado, 11 de julho de 2009

POSICIONAMENTO EM FOCO

“Agora é a hora de pirar”*

- Considerações sobre a vida acadêmica dos estudantes de jornalismo, o blog como meio de prática profissional e a necessidade de diploma para o exercício da profissão
Por Talita Guimarães**

O Ensaios em Foco se aproxima do seu aniversário de um ano. Durante esses dez primeiros meses, o blog manteve a proposta de possibilitar o exercício do jornalismo a estudantes de comunicação. Pelo fato de nossos redatores serem “focas” - jovens jornalistas ou iniciantes na profissão - a mídia escolhida foi o blog por se tratar de um espaço livre, sem a necessidade de grandes conhecimentos em manutenção de páginas e domínios na web.

Em termos de conteúdo, nosso olhar esteve voltado principalmente para a prática do conhecimento que aprendemos na faculdade, com o diferencial de poder expor o que produzimos para que outros colegas sintam-se motivados a treinar seus conhecimentos, profissionais possam estar por aqui deixando um pouco de experiência e orientando nos melhores caminhos e outros jovens, ainda escolhendo suas profissões, possam conhecer mais sobre a vida acadêmica dos estudantes de comunicação. Possibilitar o diálogo entre aprendizes, profissionais e ainda prestar serviço à sociedade é o foco do “Ensaios...” em blog, uma vez que através das matérias, reportagens, notas e textos estivemos difundindo informações, produzindo e ajudando a construir conhecimento. Nossos leitores, seguidores, amigos e entrevistados têm comentado sobre nosso trabalho, têm estado próximo da nossa prática, têm se encontrado por aqui como agentes das ações que noticiamos e como leitores em potencial, que constroem junto conosco uma sociedade mais democrática, bem informada e justa. Se parece pretensioso afirmar tudo isso, creia você, leitor que nossa intenção é a melhor possível e se ainda não alcançamos todos os objetivos que levam à essa construção, estamos estudando e treinando para isso.

Nosso foco primeiro é aprimorar nosso ofício, começando na hora certa e aproveitando o tempo e a condição que nos é dada. Porque como diz o título do texto, frase do amigo e também acadêmico de jornalismo Max de Medeiros, “agora é a hora de pirar”. Se à primeira vista parece uma afirmação boba, descontextualizada, quase esdrúxula, percebam que dentro do universo que é apresentado pelo conhecimento específico de uma grade curricular do curso de jornalismo, não é pouco o que se precisa saber, de início, para atuar como um profissional competente. Quando Max diz “pirar”, resume de forma bem humorada e entusiasmada o que é estar estudando jornalismo. Porque é fato que a formação acadêmica dá ao indivíduo a chance de conhecer a profissão. Em todos os casos, possibilita adentrar aos tramites do profissão, ajuda a definir uma área de afinidade para então começar a traçar um perfil profissional. No jornalismo não é diferente, mas por se tratar de uma profissão que trata a informação em larga escala e dá a oportunidade de trabalhá-la de várias formas, sob vários formatos e mídias, não é para menos que os apaixonados pelo curso enlouqueçam diante de tantas maravilhosas oportunidades. Fora o fardo da imparcialidade e da luta para tratar sobre todos os assuntos com o máximo de isenção possível, fora a incansável batalha pela informação que às vezes é negada do grande público por questões de conveniência.

Na academia se não se aprende, prática que infelizmente nem sempre vale para todos, descobre-se a importância da ética, toma-se ciência da profundidade teórica de uma apuração, conhece os casos que levaram a erros graves e se discute soluções, procedimentos. É na academia que escrevemos, rascunhamos, esboçamos nossos primeiros textos verdadeiramente jornalísticos, conforme a técnica rege . Permitimo-nos errar porque há quem nos conserte, quem transforme nosso equívoco em conhecimento. E tudo isso, em três ou quatro anos de piração, entre trabalhos, provas, aulas, debates, congressos e elaboração de projetos, é que leva à suada glória do levar o conhecimento, democratizar a informação, reconhecer ações, divulgar o que é bom e trabalhar com gente, sobre gente, para gente. O que nos é mostrado e ensinado na academia pode até ser apenas uma preparação ou uma apresentação teórica do que é o mercado, mas com toda a certeza é o melhor caminho para a conquista da competência pela imposição via conhecimento de causa. E cabe a cada acadêmico encontrar-se dentro do seu curso e aproveitar o momento que lhe é concedido para aprender a ser um bom profissional.

Levantando um saldo do que já foi feito por aqui, vemos que pelo “Ensaios em Foco” também passaram colaboradores e parceiros literários. Também houve espaço para literatura e opinião. Foi democrático em publicar textos de estudantes do ensino médio e professores. Permitiu-se compor em parceria com autores fora do jornalismo, considerando que a escrita é uma ferramenta eficiente que pode e deve ser utilizada por todos. E se agora falamos nesse tom é por considerar, mediante recente decisão do Supremo Tribunal Federal em revogar o diploma para exercício do jornalismo, que há diferenças entre quem escreve e o que se escreve. Não se trata de uma escala de valores qualitativa, mas sim uma classificação dentro do que se pode produzir de texto mediante o objetivo de seu conteúdo.

Informar é o dever primeiro do jornalista. A notícia é a nossa matéria-prima. Mas é preciso considerar que informar engloba ensinar, instruir, orientar, confirmar, enfim, comunicar. Abre um leque de possibilidades e oportunidades. E é aí que mora o perigo, porque informar pressupõe responsabilidade com o que será dito e é óbvio que quem se propõe a dar uma informação é um alguém que tem, ou deve ter, algum conhecimento sobre algo e é um alguém que sabe, ou deve saber, que esse conteúdo vai chegar as pessoas e causar algum impacto cumprindo alguma finalidade. Nesse sentido cabe lembrar que quem escreve, produz para o público e não para si. Dessa forma, deve estar ciente de que a linguagem utilizada deve ser clara e de fácil entendimento, para que o receptor entenda a mensagem e seja capaz de construir um conhecimento em cima da informação recém-adquirida. Por essa análise, entendemos que entre os vários setores da sociedade existem linguagens, expressões e significados específicos, conhecidos apenas pelos indivíduos atuantes na área. São termos técnicos, nomes de procedimentos e até jargões profissionais distantes da grande massa. E que por serem específicos não têm necessidade de serem tratados no dia-a-dia. No entanto, quando se faz necessária a divulgação para toda a sociedade , são passíveis de tradução para o melhor entendimento. Precisam ser explicados de forma a aproximá-los das pessoas. Dentro desse contexto, percebemos que a democratização da informação só é possível via “tradução”, e aqui se trata de transpor um termo específico pouco conhecido para um sinônimo que o expresse com melhor clareza. A partir dessa “tradução” é que se inicia o processo de informar com eficácia, viabilizando a construção do conhecimento.

Não podemos desconsiderar o fato de que cada profissional, sendo exímio conhecedor do assunto, seja capaz de redigir com clareza sobre sua área de conhecimento, mais específica. Não se prega aqui a desvalorização da escrita de um advogado ou um médico, por exemplo, nem se desmerece a colaboração de seus artigos, afinal esses profissionais podem sim ter conteúdo para escrever bons textos. Contudo, é preciso ressaltar que as especificidades de cada profissão ainda dominam e não chegam ao grande público com a eficiência que era de se esperar. Um médico bom articulista, bom orador, que se faça entender com facilidade pode ser feito raro, uma vez que ele não é preparado para isso. O mesmo acontece entre os outros profissionais que atacam de colaboradores entre os jornalistas. Sendo assim, quem perde é o público, é a sociedade que recebe uma enxurrada de material técnico que não lhe serve na prática, nem tem como servir.

O que se quer lembrar aqui e acredito que essa seja uma preocupação compartilhada pelo Brasil a fora, entre jornalistas indignados com a dispensa do diploma e a infeliz afirmação de que qualquer um pode exercer a profissão sem causar danos a sociedade é que EXISTE UMA PROFISSÃO DEDICADA À CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO COLETIVO EM TORNO DE TODAS AS ÁREAS DA SOCIEDADE. EXISTE UM PROFISSIONAL HABILITADO PARA “TRADUZIR” AS ESPECIFICIDADES DAS OUTRAS PROFISSÕES PARA O GRANDE PÚBLICO. E EXISTE UMA FORMA ESPECÍFICA DE SE FAZER ISSO. Essa profissão é o jornalismo, esse profissional é o jornalista e a garantia da habilitação é o diploma.

Mais do que tudo isso, o jornalismo tem suporte para operar muitas ações dentro da sociedade, uma vez que sua base é a comunicação. E por mais que digam que o jornalismo não acaba com o fim da exigência do diploma, não se pode ser ingênuo o suficiente para acreditar que a não exigência de uma formação acadêmica não seja um retrocesso no cenário de luta pela educação e pela prestação de um serviço de qualidade.
Por isso, peço, como idealizadora do”Ensaios em Foco”, escritora e futura jornalista por formação, que os prezados leitores não esqueçam que por trás do diploma, daquele desejado canudo e agora “dispensável” há muita preparação, muito empenho, muita dedicação, horas de leitura, horas na frente de um computador digitando, escrevendo, revisando, pesquisando e preocupando-se com a importância de estar bem informado e preparado para então partir para a atuação séria, para a produção do texto que você acompanha todos os dias atentamente pelos telejornais, jornais impressos, revistas, sites e outros meios de comunicação e difusão da informação. Afinal, é por vocês e pela nossa sociedade, que eu e outros tantos estudantes de jornalismo estamos aproveitando à exaustão essa hora certa de “pirar”.
* Frase de Max de Medeiros, acadêmico de Jornalismo, Relações Públicas e Rádio e Tv, todas habilitações em Comunicação Social.
**Talita Guimarães está de férias da faculdade de Jornalismo, mas enquanto aguarda pelo início do quinto período, continua levantando pautas para o blog "Ensaios em Foco" e participará do curso "Simplificando o Direito para Jornalistas" visando maior e melhor preparação sobre as áreas do conhecimento que compõem a sociedade e interessam a todos.

3 comentários:

Raquel P² disse...

SOBRE A LEI CRIADA PELA NÃO OBRIGATORIEDADE DO DIPLOMA DE JORNALISTAS.

Bom, sei q foi sacangem o q o STF fez,+ precisament Gilmar Mendes. Porém se pararmos p/pensar vms v q, o q eles fizeram, foi apenas passar pro papel, ou melhor, legalizar, akilo q vem ocorrendo desde sempre - que é o kso de pessoas não habilitadas excercerem a função de Jornalistas - então, nós como futuros Jornalistas, temos + eh q lutar pelo q eh nosso por direito, msm q n sejamos apoiados por leis, e sempre fazer o melhor. Pq "sempre haverá uma empresa ou um concurso que exigirá o diploma, entre um Jornalista por formação e um outro ñ habilitado, concerteza a entidade optará pelo profissional habilitado", foram essas palavras q me fizeram refletir e ñ desistir, proferidas pelo profº Delfim Guterres, a qm agradeço por me convencer a ñ trank o curso. Portanto, cabe a nós mostrar a sociedade q cada profissional deve ter sua formação respeitada por direito...Como? fazendo valer o tempo q passamos na faculdade,(sem esqcer os coletivos superlotados e ainda por cima atrasados, engarrafamentos, chuvas, profºs pegando no pé, dores d kbça por causa das provas e trabalhos, cansaço...enfim, tdo akilo d bom e ruim q passamos durante 4 anos), pondo em prátik nossos conhecimentos adquiridos... dá a ela um jornalismo digno e verdadeiro, akele q os "jornalistas encostados" ñ poderão dá.
Então,vms enfrent e mostrar a tds q essa "lei" ñ vai nos desistimular e sim nos dá forças p/continuarmos na luta e vencendo cada obstáculo encontrado em nossa carreira!!!

flaviano disse...

Talita, também não a reconheci naquele dia. Obrigado pela visita no meu blog. Gostei muito do seu texto sobre a sua vida acadêmica e seus anseios profisionais.Também achei um desreipeito aquele episódio do STF. Mas isso fortalecerar mais o posicionamento de vcs em relação a exigirem mais respeito a categoria dos profissionais do jornalismo.
Nos visite no Maranharte. abraços.

Talita Guimarães disse...

Olá, Raquel!
Olá, Flaviano!

Obrigada por visitarem e comentarem!
Pois bem, sobre a lei e a tal justiça brasileira... Vemos que continua truncada como sempre, cheia de falhas e aberturas para interpretações que favorecem grupos em detrimento de outros.
No entanto,acompanhando o caso pelo Portal Imprensa (http://portalimprensa.uol.com.br) soube da Proposta de Emenda Constitucional protocolada essa semana pelo deputado Paulo Pimenta. A chamada PEC pode tramitar no senado a favor dos jornalistas por formação, restaurando a exigência do diploma via emenda na lei. Vamos acompanhar e aproveitar o momento para conhecer mais sobre o universo jurídico. Uma boa pedida para nós, Raquel, é o Curso "Simplificando o Direito para Jornalistas" que será oferecido pelo Complexo Damásio de Jesus entre os dias 14 e 16 de julho(ver postagem Qualificação em Foco).
No mais, não há dúvidas de que conhecimento de causa gera posicionamento. O que nos resta é mesmo fortalecer nossas bases e continuar lutando pela valorização da educação e do aperfeiçoamento profissional.

Abraços em todos,
e continuem nos visitando!

Talita Guimarães