domingo, 19 de julho de 2009

JORNALISMO EM FOCO


Sobre a responsabilidade ética dos jornalistas*

- O que é ética profissional e qual a importância da deontologia no mercado de trabalho da comunicação social.

Por Saara Sousa** e Talita Guimarães**
Partindo do princípio que “ética é uma reflexão crítica da moralidade” (BARBEIRO; LIMA, 2005, p. 19), entende-se primeiramente que se trata de uma percepção atrelada ao juízo de valor sobre as normas que regem a moral de uma sociedade. Nesse sentido, lê-se que ética e moral são inerentes ao respectivo processo histórico-cultural de uma sociedade, portanto são passíveis de mudanças e de interpretações pessoais.
Considerando que a moral é um conjunto de normas elaboradas em consenso com aquilo que se julga correto ou tradicional e deve valer para todos os indivíduos, é preciso notar que a ética se torna necessária quanto reflexão sobre esses valores ditos morais, uma vez que muitos questionamentos relativos aos chamados bons costumes podem surgir sob circunstâncias diferentes e exigir um exame mais específico de acordo com a situação. Dentro desse contexto, pode-se afirmar que a ética é uma observação de caráter crítico concebida por todas as pessoas em dada circunstância, no entanto, sob olhares pessoais e principalmente, sob manifestação espontânea. Assim, Heródoto Barbeiro pontua, em seu livro “Manual de Telejornalismo”, que não pode haver pressão em torno da análise ética, pois a coercitividade é de ordem moral. E a ética se estabelece como um balizador das ações humanas quando é formulada, a exemplo da deontologia, com a participação de todos a fim de firmar o compromisso com as ações julgadas como coerentes ou adequadas.
Trazendo toda essa questão para o campo de atuação dos jornalistas, percebe-se que se tem aí uma profissão que exige, em sua prática diária, o exercício da ética no trato das informações que serão repassadas a sociedade. Ética no âmbito deontológico, delimitada primeiro pelo código da profissão e segundo pelas concepções do jornalista de acordo com as circunstâncias inesperadas que o código pode não vir a prever. Nesse sentido, cabe ao comunicólogo uma grande responsabilidade. Primeiro porque o jornalista lida com hierarquia de informações, o que pressupõe escolha de acordo com a relevância e a ordem do dia; segundo porque deve estar atento ao grande fluxo de acontecimentos que chegam ao seu conhecimento como tarefa para selecionar, determinar pauta e apurar conteúdo e relevância; terceiro porque quando sai em busca da apuração, o jornalista deve ter o cuidado de não se envolver com o fato a ponto de misturar as informações reais com as suas impressões pessoais ou com o grau de relação com a fonte. Nesse sentido, a atuação do jornalista está toda envolta em escolhas, regidas tanto pela rotina profissional quanto pela reação pessoal diante do fato que será noticiado. Sendo assim, a responsabilidade sobre o tema e a forma de abordagem, pesa sob o jornalista quando há o compromisso com a busca pela verdade, mas também com a preocupação do impacto social que a notícia pode causar uma vez veiculada.
Nesse contexto, a atitude ética é indispensável e deve estar sempre intrínseca ao processo de produção e difusão das matérias, desde os critérios de noticiabilidade até o trabalho de campo, de coleta de informações, conversa com as fontes, busca por detalhes e por dados que componham o mais próximo a totalidade do acontecimento real.
Quando aliada à responsabilidade, a ética capacita o jornalista para exercer a profissão com a dignidade que o jornalismo impõe: informando os fatos para a sociedade da forma mais verossímil possível com a realidade. Mas o compromisso ético do jornalista não é uma responsabilidade firmada apenas entre o profissional e o público. Pelo contrário, a ética deve reger todas as ações do jornalista, principalmente porque ele também faz parte da sociedade, logo é um cidadão.
Nesse sentido, verificando as relações entre jornalistas, percebe-se que há um tratamento ético especificado para os colegas de profissão também. Respeito mútuo é uma questão de ética, principalmente quando o colega atua em um outro veículo jornalístico. Independente da linha editorial, faz-se necessário destacar que a atuação do jornalista deve ser a mesma em qualquer empresa que ele venha a trabalhar e isso equivale ao comportamento regido pelo código de ética. Um exemplo recente, que vai contra o comportamento esperado de um comunicólogo, e que suscita ao debate foi a troca de críticas entre dois funcionários de veículos de comunicação concorrentes. Foram eles Boninho e Britto Júnior. O primeiro é o diretor de programação da Rede Globo, responsável por programas como “Mais Você” e “Big Brother Brasil”, o segundo é jornalista e apresentador do reality show “A Fazenda” da Rede Record. O conflito foi gerado, segundo noticiam jornais como a Folha de São Paulo, por conta da crítica de Boninho ao modo de execução do reality show que Britto Júnior apresenta. Como a crítica foi publicada por meio de um site em tom de zombaria, e não diretamente ao jornalista, deu margem para que Britto Júnior respondesse ao comentário acusando Boninho de antiético. Em resposta, Boninho escreveu em seu microblog, do site Twitter, a instigante frase: “Não sou jornalista, não preciso ter ética”. Dentro dessa situação, nota-se que a falta de ética na relação entre jornalistas, ou pessoas que atuam no meio, não se restringe aos comentários ácidos ou maldosos que possam existir entre empregados de empresas rivais. O problema é muito mais conceitual, relativo à mentalidade do indivíduo em torno da prática da ética. E o reflexo nas atitudes responsáveis do profissional começam por aí, já que ética é uma percepção que deve nortear as ações de todos, independente da profissão.
Além dessa questão, é importante ressaltar ainda que os impactos de uma informação veiculada sem a preocupação social pode causar danos muito graves, uma vez que a sociedade espera da imprensa um serviço pautado no compromisso com a verdade. Tanto que quando uma notícia bombástica é revelada, há uma grande tendência a ser recebida como verdade e caso ela esteja equivocada ou leve a uma interpretação errada pode provocar transtornos e constrangimentos para muitas pessoas.
Por essa análise, faz-se mister elucidar que a ética na prática midiática deve ser um princípio norteador da atuação do profissional da comunicação. Primeiro por ser uma concepção indispensável a qualquer relação em sociedade. Segundo porque orienta o jornalista a buscar sempre a melhor abordagem do fato no sentido de produzir uma matéria que exponha a realidade, mas de forma a contribuir com a construção de uma nova sociedade. A responsabilidade ética do jornalista visa, acima de tudo, a prática do jornalismo responsável e comprometido com o crescimento favorável da sociedade.
Bibliografia
BARBEIRO, Heródoto; DE LIMA, Paulo Rodolfo. A ética. IN: ____Manual de Telejornalismo. Elsevier Editora LTDA. 2005.
*Texto elaborado para a disciplina Ética e as Práticas Midiáticas, ministrada pelo Professor Márcio Monteiro para a turma de quarto período em Jornalismo 2009.1 da Faculdade São Luís.
**Saara Sousa e Talita Guimarães são acadêmicas de Jornalismo da Faculdade São Luís.

Nenhum comentário: