segunda-feira, 31 de agosto de 2009

FOCA EM FOCO

Quando chega a minha vez...

Por Talita Guimarães*

Não havia data mais aguardada ou desejada quando criança. Mal suportava saber que faltariam meses até um aniversário meu. Toda a expectativa em torno do 31 de agosto criava um clima tão bom e festivo que eu, criança, imaginava que coisas fantásticas poderiam acontecer.

Sempre tive festas de aniversário boas e procurei aproveitar bastante cada uma delas. Gostava também das realizadas para a minha irmã, mas ainda assim sentindo um sabor diferente das do mês de agosto.

Mas aos poucos, tudo foi mudando. Os coleguinhas da rua crescendo, mudando-se de bairro, deixando de falar com tanta freqüência até a vizinhança ser repaginada. Já não tinha mais os mesmos colegas, nem professores. Tinha mudado mais uma vez de escola, e no ano seguinte novamente, e no meio do ano de novo e de novo e de novo. Até ir estudar no CEFET e ter três anos em uma única escola.



Durante esse tempo, cresci e deixei de lado a necessidade de comemorar mais um ano com bolo, balões e até presentes. Deixava de ser criança e perdia uma pouco da expectativa em torno do último dia de agosto. Por que isso aconteceu, nunca entendi por completo, apenas associei ao fato de crescer, porque sempre achei que adultos não costumavam enxergar nem metade daquilo que eu via nitidamente. Acreditei mesmo que a criança enxergava além e que adultos esqueciam do dia em que também tinham entendido tão bem aquele mundo. Sendo assim, eu só podia estar deixando esse universo, porque perdia essa riqueza que me enchia de uma felicidade inexplicável às vésperas de um aniversário e a certeza de muitos parabéns.


De repente não fiz mais questão de nada e 31 de agosto tornou-se um dia normal. Ou quase. A sensação de algo diferente perdurava pelo fato de todos que tinham conhecimento da data a considerarem importante. Foi como se os papéis tivessem trocado de atores. Meus pais, amigos e familiares davam mais valor ao meu aniversário que eu mesma.


Pensei, mais uma vez, entender o que acontecia. Até certa idade não há a mínima preocupação com a idade que se está completando. À medida que se envelhece é que surge o desapontamento com os números e daí perde-se o desejo por comemorar. Há quem se envergonhe de não condizer fisicamente com a idade. Aparentar muitos anos à frente. Há quem não condiga com as atitudes, com a dignidade que cada ano a mais impõe.


Mas com o tempo, aprendi que na verdade a idade que conta é a da consciência de cada um. E isso independe do tempo que você já tem de vida. Está relacionado ao conhecimento e às experiências que cada um acumula e ao modo como aplica no dia-a-dia, no trato consigo e com as pessoas.


Hoje o 31 de agosto é um dia bom do ano. É certo que não tem mais toda a expectativa da infância, mas também não é um dia de sentimento indiferente. Agora a cada 31 de agosto, enxergo bem o real sentido que leva à comemoração. Simples e despercebida de muitos olhares, posso contemplar o tal dia de modo significativo. Afinal, chegar ao último dia do oitavo mês de cada ano é transpor 365 dias (e até mais em caso de ano bissexto) de luta, vitórias, tristezas, alegrias, calmaria, desânimo, força de vontade, e acima de tudo, desejo de viver dando sentido a tudo que encontrar pelo caminho.


A cada ano completado, a certeza da vitória sob muitos dias e circunstâncias. O presente é poder contabilizar todos os conjuntos de 365 dias conquistados e saber que por trás deles há muita história para lembrar, contar e sentir saudade. O passo seguinte, mérito pelo aniversário, é a chance de prosseguir e com isso descobrir que há muito mais para daqui a um ano poder lembrar, contar e continuar a construir.


Acho que por aí deve estar a magia, o “algo fantástico” da minha espera na infância. É o real sentido de me comemorar. Nesse sentido, aprendi também que aniversário muda, assim como a gente.




*Foca idealizadora do "Ensaios em Foco". Completa hoje (31 de agosto) 20 conjuntos de 365 dias (e mais alguns extras, lembrem dos bissextos...).

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