domingo, 30 de agosto de 2009

RESENHA E OPINIÃO EM FOCO

Sobre uma oração nova e diferente...
Por Talita Guimarães

Quando um autor resolve falar de religião é inevitável que a apresentação do enredo de seu livro dividirá opiniões. Foi assim com Dan Brown em “O Código da Vinci”, publicado em 2003 e polemizado em demasia por apresentar supostos relatos históricos de que Jesus teria casado com Maria Madalena e dado origem a uma linhagem sagrada. Mesmo que todos soubessem que a narrativa de Brown é enquadrada no gênero ficção, muitos insistiram em implicar com o livro e pior, uma grande parcela de leitores sentiu sua religiosidade abalada, entre os relatos convincentes de “O Código da Vinci” e o que haviam aprendido nas aulas de religião. No meio disso tudo, uma questão se faz presente: religião é um assunto delicado e ao mesmo tempo tão complexo para o entendimento das pessoas que é preciso ter cautela quando não se tem a intenção de gerar polêmica, no entanto a polêmica gera audíência... então, pedimos aos leitores que depois façam um breve exercício sobre essa nova problematização. Em todo o caso, o que se vê é que até mesmo na hora de opinar sobre o tema, as pessoas não costumam tomar cuidado com o que vão dizer para não dar brechas a discussões fervorosas.

Tem sido assim pelo mundo, mas a pouco tempo, um livro em especial chamou a atenção e após conversas com alguns leitores e após ter lido também, o “Ensaios em Foco” sentiu a necessidade de escrever suas impressões da leitura juntando a isso um pouco da resenha da história. Para quem não leu, não contamos o final, mas deixamos a dica para que leia e tire suas conclusões sobre o que sentir após “A Cabana”, do canadense William P. Young.
Pois bem, quando William P. Young resolveu escrever “A Cabana”, optou por um enredo permeado de conceitos sobre religião, mas não ficou nisso, foi mais adiante propondo o encontro do protagonista de sua história com ninguém menos que Deus, Criador do Universo. Aqui, teríamos assunto para levantar muitas questões e já dividir opiniões entre ler ou não a história. Contudo, se as resenhas indicativas do livro o classificaram como “oração”, prometendo “respostas surpreendentes” e sugerindo que o livro fosse “dado de presente a todas as pessoas que você ama”, uma análise pós leitura pode confirmar que tudo isso pode ser levado a sério. Aqui, o “Ensaios em Foco” opina: em primeiro lugar, sim, “A Cabana” pode soar como oração. A propósito, uma bela e nova oração. Em segundo lugar, sim, também traz respostas surpreendentes. E em terceiro lugar, é um bom presente a quem se ama.
Agora, se essa resenha parece defender o livro antes mesmo de apresentar argumentos sobre sua qualidade, uma explicação é necessária. Você, leitor, pode chegar a essas mesmas conclusões após lê-lo, mas pode também frustrar-se com a narrativa floreada e cheia de metáforas e personificações. Tudo dependerá da forma como você irá interpretar o que encontrar no texto do teólogo William P. Young e isso também pode estar ligado a sua religiosidade e experiência de vida. Pois bem, dado o aviso, vamos então à história.
Mackenzie Allen Phillips, o protagonista, é um homem atormentado pela morte misteriosa da filha caçula em um passeio no qual a menina é sequestrada e os indícios de que teria sido morta brutalmente são grandes, apesar do corpo nunca ser encontrado. Deprimido e amargurado, Mack vive em constante torpor durante anos (chamado no livro de Grande Tristeza) e confronta seu conhecimento religioso com o que acontece de ruim em sua vida. Quando chega ao ponto de duvidar da existência de Deus e questionar seus propósitos, o protagonista recebe um misterioso bilhete assinado pelo Criador, convidando-o a visitar a cabana, cenário da tragédia contra a menina. A princípio, Mack fica receoso, depois resolve ir ao local conferir o que o aguarda. Nesse ponto, o enredo parece levar ao desenrolar do crime como um possível encontro com o assassino e a descoberta do corpo da criança, mas bem aqui o mistério toma outra rumo. Como uma boa e sincera oração, “A Cabana” traz em um texto delicado e bem escrito a incrível experiência do homem que se encontrou com Deus. No plano da leitura superficial, quem decidir devorar a história pela avidez no desenrolar do crime ou do mistério concebido pelos padrões humanos e os relacionamentos ditados por regras sociais, é capaz de se decepcionar em buscar respostas prontas ou coisas como um Deus de barba branca ou a descoberta surpreendente de como Ele julga os homens. “A Cabana”será incompreendida se lida superficialmente ou como um romance policial. Longe de institucionalizado, o livro não concebe respostas com base em igrejas, tampouco as apresenta como em um guia. As declarações vem durante a conversa e é preciso despir-se de conceitos engessados para mergulhar na profundeza das questões pontuadas no livro. A leitura atenta e feita pelo coração revelará as respostas que cabem a cada um. Principalmente porque, com sensibilidade, a narrativa desconstrói mitos e apresenta um novo olhar sobre a fé da humanidade e o modo como as pessoas se relacionam entre si e com Deus.
É com extremo conhecimento religioso e profunda espirituosidade, que o autor relata a forma transformadora com que a fé é capaz de curar a alma. Young testa a sensibilidade do leitor em perceber que os propósitos de Deus estão acima dos conceitos mundanos, por isso por ora parecem imperceptíveis e incompreensíveis. Em Mack, o autor coloca todas as dúvidas e tormentos da humanidade, toda a dor e angústia de quem está bem adequado ao “sistema”, guiando pela estrada que lhe é ensinada, mas desorientado com o ilógico chacoalhar da carruagem. E é por não compreender como tudo é capaz de dar errado apesar da boa intenção, que Mack é convidado a conhecer a Santíssima Trindade dentro do lugar que mais lhe causa angústia, para que perceba que Deus e o verdadeiro amor podem ser aflorados onde menos se espera. Nesse trecho, a história deixa de pertencer ao mundo real e às preocupações humanas com justiça e condenação, para adentrar ao universo do conhecimento sobre sentimentos, relacionamentos e o real sentido de acreditar em Deus. O cenário da cabana sombria também muda e ganha ares de lar feliz e acolhedor.
Assim, o cultivo do amor e do perdão mostram-se como o mote principal do livro e é a partir de uma série de perguntas bem próximas dos tormentos e incompreensões dos homens, que Deus (personificado em uma mulher negra e gorda - Mack tinha dificuldade em aceitar a figura do homem como pai por ter tido traumas na infância - e ótima cozinheira - em uma referência ao amor de Deus como alimento da alma) vai esclarecendo sobre seu amor incondicional e o modo como ele é capaz de agir na vida das pessoas.
Em “A Cabana”, o autor apresenta a figura da Santíssima Trindade de forma diferenciada como relata em entrevista concedida a jornalista Márcia Abos de O Globo, “Deus é uma negra, o Espírito Santo uma chinesa e Jesus um jovem do Oriente Médio. Todos pregam a igualdade e a liberdade”. Aliás, as personificações no livro levam o leitor a um estranhamento, quando Jesus é apresentado como um homem feio (segundo palavras do próprio Mack) e narigudo e o Espírito Santo atende pelo nome de Sarayu e é uma mulher cheia de luz e movimentos que ficam a cargo da imaginação.
Sobre imaginação, o livro pede o exercício, mas o facilita com descrições de cenário e movimentos. E é a cargo da imaginação que ele desconstrói nosso lado Mack e tenta extrair de nós a fé que nos moverá ao melhor entendimento sobre a humanidade, a religião e o que Deus espera dessa relação. Em suma, o amor está associado a presença de Deus na vida das pessoas e vice-versa. Se há um relacionamento harmonioso, há amor e Deus.

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