sábado, 15 de agosto de 2009

JORNALISMO CULTURAL EM FOCO

Sobre um povo que se identifica por preferências

Por Talita Guimarães*

Que o processo de globalização tende a uniformizar a forma de agir e pensar através de um choque entre culturas, todos já perceberam e até aderiram. Entretanto o que já pode ser tratado como um processo natural, decorrente da frequente e frenética troca de informações, experiências e conhecimentos, gera também uma certa dúvida quando a identidade de um indivíduo é colocada em cheque, principalmente porque é nesse momento que o reconhecer-se dentro de um ou outro grupo pode gerar o constrangimento do não saber se reconhecer ou pior, desconhecer sua identidade.

Se tudo isso pode parecer bobagem ou uma preocupação insignificante diante da grandiosidade da globalização e seus inúmeros benefícios, por outro lado pode ser um diferencial assombroso quando se trata de saber identificar a cultura de um povo e compreender o modo como esse povo vive em função de seus costumes e peculiaridades. Dentro do Jornalismo, conceber essa distinção é fundamental, uma vez que a partir do conhecimento da cultura e das interações sociais que a compõem, o jornalista é capaz de melhor retratar os fatos do cotidiano.
Sobre cultura e identidade cultural em termos de Brasil, não é difícil deparar com associações equivocadas que reinam no senso comum. Um exemplo clássico é o retrato “futebol, carnaval e mulata” tidos como a cara do Brasil. Por algum motivo, estrangeiros associam muito comumente ao país, esses três elementos. Primeiro pela propaganda que os próprios brasileiros fazem quando estão fora do Brasil, segundo pela mídia que costuma divulgar essas peculiaridades com grande frequência e terceiro, pela constatação óbvia de quem visita o Brasil e encontra, digamos que em abundância, no território nacional esse sentimento de amor ao futebol, regado ao samba carnavalesco e a presença inevitável das muitas mulatas brasileiras. Além disso, há também a possibilidade de relação entre os três elementos, de modo que facilmente podem ser encontrados juntos. Um exemplo básico é: um grupo de amigos se reúne para assistir ao jogo de futebol em uma tarde de domingo. Para celebrar o encontro fazem “aquela” feijoada, chamam a turma do samba e trazem as mulatas para dançar. Nada mais natural, estão lá futebol, carnaval e mulatas. Indiscutível paixão nacional. Mas se por um lado, essa festa toda é paixão compartilhada por grande parte da população brasileira, por outro não deve ser considerada como única e exclusiva forma de identificar o povo que no Brasil habita.
Dentro desse contexto, a mídia possui enorme responsabilidade diante do seu indiscutível potencial de influenciar as massas. Claro que nessa difusão, os brasileiros também têm sua parcela de culpa, já que insistem em levar daqui essa imagem festiva. Contudo, para desanuviar essa fumaça saída da fogueira paixão, costumes e identidade cultural, algumas questões conceituais podem ser esclarecidas. Em primeiro lugar, a paixão pelo futebol, pelo samba e pela mulata decorre de um processo histórico, alimentado pela condição social e o meio. Desde que chegaram ao Brasil, tanto futebol quanto carnaval, que não são legitimamente brasileiros, ganharam espaço e caíram no gosto popular. Desde então foram sendo adaptados ao modo de ser do brasileiro e hoje fazem parte da lista de preferências nacionais. E aí é fato, o Brasil tem tradição na prática do esporte com grandes títulos conquistados e um histórico de muitos craques descobertos, motivo que popularizou ainda mais o futebol. Já o carnaval é a festa que para o país durante quatro dias em uma manifestação profana de valorização às liberdades, em nome do desprendimento dos valores e do rigor do resto do ano. Nesse período, é comum perceber que as pessoas desejam ser algo que não são ou que por algum motivo não podem ser. As pessoas criam fantasias para si, vestindo-se de personagens que gostariam de ser ou despindo-se de suas vestimentas para “celebrar” o “poder ser o que quiser”. Nesse contexto, há destaque para as festas de carnaval mais tradicionais do país, realizadas nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Há grandes desfiles de escolas de samba com alegorias temáticas e todo um aparato que dá grandiosidade à festa, como por exemplo, o investimento em fantasias e profissionais das artes, como coreógrafos, artistas plásticos, músicos entre outros. A música que mais caracteriza essa manifestação é o samba, apesar de originalmente, o carnaval ter as marchinhas como trilha sonora. Quanto a mulata, designação popular à mulher negra de jeito faceiro e samba no pé, a associação é referente a presença da brasileira tanto no carnaval quanto na preferência masculina.
Apesar de todas essas considerações, associar preferências nacionais a identidade cultural ainda é um tanto controverso, uma vez que a identidade é o conjunto de elementos que caracterizam como próprio de um indivíduo ou uma comunidade, tradições e costumes genuinamente desses povos. Mas por que não dizer que preferências também podem ser incluídas na identidade? Afinal, o gosto pode dizer muito sobre o pensamento de uma sociedade. Contudo, ainda assim, considerar que vertentes nascidas em outros locais possam ser adotadas por povos distantes incluindo-se em sua identidade é um posicionamento que requer pesquisa e compreensão em torno de como esses novos elementos são incorporados a cultura local e como se relacionam com o já existente modificando-os e se modificando também.
Sendo assim, não há como negar que hoje, futebol, carnaval e mulatas sejam aspectos que lembrem o Brasil. Sim, lembram, caracterizam e identificam o povo brasileiro mundo a fora, mas isso acontece por força e obra de uma falha no processo de reconhecimento do povo sobre sua própria cultura, que é tão rica e atraente quanto as atuais preferências, na verdade impostas sem a oferta de grandes opções. A cultura brasileira, envolta entre tradições, costumes, crenças, modo do pensar, agir e manifestar-se artisticamente ainda é pouco conhecida, apesar de existir e se aflorar naturalmente. Talvez, até a conheçamos, até façamos parte de fato de sua construção, mas por ser tão intrinseca a nós, não tenhamos percebido ainda sua potencialidade e por isso não a tenhamos valorizado com o devido merecimento.
O que fica desse questionamento repentino é a descoberta de que ainda há tempo, se nós, comunicadores abraçarmos a causa e viabilizarmos a difusão da cultura brasileira em sua essência, em um processo de autoconhecimento que resultará, provavelmente em um reconhecimento inesperadamente grandioso.
*Acadêmica do 5º período do curso de Jornalismo da Faculdade São Luís.

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