terça-feira, 1 de setembro de 2009

ADAPTAÇÃO EM FOCO

DA LITERATURA PARA O CINEMA: O TORTUOSO CAMINHO DA ADAPTAÇÃO - PARTE I*

Sobre Harrys, Bellas, Basílios, Miseráveis, Códigos, enfim, os Anjos e Demônios das adaptações que levam a literatura para as telas de cinema.
Por Talita Guimarães*
Originalmente não se tem uma data definida para o início do diálogo entre cinema e literatura em termos de adaptação de roteiro. Principalmente porque especialistas concordam que a linguagem cinematográfica sempre possuiu a necessidade de ter em mãos um texto, vindo ou não da literatura, para apresentar em forma de vídeo. Desse modo, aproveitar a base literária tornou-se tão natural quanto produzir roteiros originais para o cinema. Além disso, convencionou-se levar os grandes temas da literatura para as telonas por motivos que se acumularam com o decorrer do tempo, entre eles a chance de arrematar grandes plateias arrastando milhares de leitores para as salas de projeção.
Nos últimos anos, muitos livros, entre best-sellers e clássicos da literatura mundial, ganharam suas versões para o cinema alcançando grande repercussão na mídia, com respostas de crítica e público. Entre as análises dos filmes, falou-se muito em atuação, fotografia, efeitos especiais e outros elementos que compõem as produções cinematográficas. Mas quando a palavra foi passada ao público, os debates mais acalorados giraram indiscutivelmente em torno da chamada adaptação.
Na atual conjuntura, quando se fala em levar esse ou aquele livro para o cinema, gera-se uma série de discussões que vão desde os pulos frenéticos dos fãs das famosas séries da literatura ao olhar reprovador dos mais conservadores, que sempre ficam com o pé atrás quanto a forma que a história vai tomar quando ganhar sua versão cinematográfica. Nesse sentido, adaptar um livro para o cinema tem se mostrado um caminho tortuoso, envolto em polêmicas, amor e ódio.
De todo modo, falar sobre literatura e cinema sem considerar o amplo debate que há em torno das adaptações que transpõem textos em imagens, é fechar os olhos para uma série de considerações importantes que devem ser feitas antes de simplesmente criticar essa ou aquela adaptação famosa. A princípio, conceitos elementares que envolvem a história da relação cinema-literatura podem ser levantados a fim de melhor compreender o que motiva a produção de um longa baseado em histórias de sucesso ou clássicos da literatura de um país.
Inicialmente, diríamos que um olhar mais atento sobre as formas de manifestações artísticas e os limites e objetivos de cada linguagem, tornariam os leitores e espectadores, ditos mais críticos e imensamente apegados a fidelidade, um pouco mais tolerantes com as adaptações. Primeiro porque é importante lembrar que cinema e literatura são manifestações artísticas trabalhadas em linguagens distintas, com características e modos de apresentação bem diferentes. O cinema trabalha com o audiovisual, onde é importante haver o cuidado com a composição das imagens e a qualidade do som durante a apresentação da história. Já a literatura tem o trunfo da imaginação, onde o leitor é convidado a mergulhar na história via leitura e formar por conta própria seu cenário do enredo. Nesse sentido, escritores devem ter o cuidado com a construção textual, utilizando palavras bem colocadas e narrando com clareza. No meio disso tudo, a história não perde em nada, pelo contrário, ganha e se enriquece, pois é a essência e a razão de ser das manifestações da arte. Mas, voltando a tal viagem do livro para o filme, adaptar um roteiro para o cinema engloba uma série de escolhas e cuidados, pois a preocupação principal do processo deve estar relacionada diretamente a história do ponto de vista da mensagem principal. Sendo assim, adaptar um livro para o cinema não é simplesmente, e aí não há nada de simples, usar o roteiro original em detalhes dando vida aos personagens com a utilização de atores e todo o aparato tecnológico da produção. Aliás, o termo adaptar significa adequar, ajustar da melhor forma a outra linguagem. Assim, um texto literário precisa ser moldado para se adequar ao roteiro de cinema. Nesse processo, há inevitáveis cortes e ajustes para compensar as perdas. Além disso, há a tentativa de tornar acessível aquilo que outrora estivera disponível em apenas um formato.
Levando em consideração que a arte tem a capacidade de transmitir uma mensagem dando enfoque nos traços que sensibilizam, entende-se que em sua essência, a manifestação artística (literatura, cinema, artes plásticas, e tantas outras) procura transpor as barreiras da objetividade para tratar a realidade sob um olhar que preza pela estética e com isso desperta em seu público múltiplas sensações, entre elas a emoção. Sendo assim, o cinema preza pela narrativa que emociona através da imagem e pelo modo como ela é capaz de contar a história. Nesse contexto, percebe-se que detalhes que integram uma cena falam por si só e cabe aos espectadores captá-los com atenção. Além disso, há o lado comercial englobado pelo custo de produção, o tempo de projeção e a distribuição para as redes de cinema. E é evidente que rodar um filme baseado em detalhes do enredo original é completamente inviável.
O que se esconde por trás das críticas na verdade é a ânsia dos leitores por encontrar no cinema tudo o que imaginaram durante a leitura. Quando o roteirista é perspicaz, consegue transpor trechos principais dos livros para os filmes, agradando leitores por compor cenas fieis a narrativa do texto original, mas isso depende muito da competência do roteirista e do grau de facilidade que um texto literário apresenta para ser transformado em imagem em movimento. Há trechos de livros que só podem ser reproduzidos no cinema graças a efeitos especiais ou altos recursos digitais. Nessa leva, toda a série Harry Potter (adaptado do sucesso editorial da britânica J.K. Rowling) ou a sequência Crepúsculo - Lua Nova - Eclipse (de Stephanie Meyer) precisam de atenção especial e cuidados na adaptação do roteiro para que uma cena excluída não prejudique o desenrolar da história. Detalhes perdidos podem compor graves erros de continuidade, principalmente para quem vai ao cinema conhecendo detalhes da história, o que normalmente acontece.
Mas se por um lado, adaptar pode ser complicado e exigir competência para não descaracterizar a história original, por outro pode ser um ótimo recurso para construção de novos horizontes se trabalhado com criatividade. Um exemplo bom, na opinião do Ensaios em Foco, é a versão brasileira do livro “O Primo Basílio” do português Eça de Queiroz, que nos cinemas brasileiros transformou-se em “Primo Basílio” e teve seu enredo original transportado perspicazmente para o Brasil do governo Juscelino Kubitschek. Da história de Eça, o filme mantém a narrativa da trajetória de traição na vida do casal Luísa e Jorge (Débora Falabella e Reynaldo Gianecchini). Já a adaptação de Daniel Filho apresenta a vida dos personagens a partir do momento em que Jorge é solicitado por Oscar Niemeyer para trabalhar como engenheiro na construção de Brasília. Nesses termos, o filme não é fiel à trama original, mas transforma o texto baseado no clássico da literatura em um novo olhar sobre o realismo do inconfundível Eça. Vale a pena.
Nesse ponto, uma vez manifestações artísticas, literatura e cinema tem em comum uma resposta muito forte de seu público, seja ele vindo da literatura ou não. Mas no meio disso tudo, é legal considerar que sempre haverá a possibilidade de diálogo entre essas duas manifestações e ainda a chance de compartilhar do gosto de muita gente, seja levando leitores para salas de cinema ou cultivando em espectadores a vontade de ler o livro que serviu de base para o filme. Assim, é fato que filmes e livros estão entre os objetos de passatempo de muitas pessoas, mas podem servir também de objeto de estudo, pelo conteúdo que abordam. No entanto, mais do que isso, sempre vão ser linguagens capazes de despertar sensações e instigar ao debate.
*A Parte II trará comentários dos livros e filmes que o "Ensaios em Foco" leu e assistiu e ainda a proposição de um debate com os leitores sobre o resultado da enquete realizada no blog sobre qual filme que os leitores assistiram e gostaram.
*Acadêmica do 5º período de Jornalismo da Faculdade São Luís.

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