quinta-feira, 8 de outubro de 2009

UM POUCO DE HISTÓRIA EM FOCO


Cine Filosófico debate "O GRANDE DITADOR", de Charles Chaplin

O “Ensaios em Foco” tem divulgado semanalmente a programação do Projeto Cine Filosófico desenvolvido no Instituto Federal do Maranhão pelo professor de Filosofia Jorge Leão. Amanhã (09) haverá mais uma edição da atividade, a partir das 18h30min na sala de mestrado do Campus Monte Castelo, com a projeção do filme “O Grande Ditador.


O projeto, que desde 2005, visa integrar cinema ao debate da filosofia além da sala de aula, já exibiu filmes como “Hamlet”, “Matrix”, “Efeito Borboleta”, “Língua das Mariposas” e mais recentemente, os clássicos do diretor sueco Ingmar Bergman, “O Sétimo Selo” e “Morangos Silvestres”, o filme de Chaplin “Luzes da Cidade” e na última sexta (02/10) o clássico do cinema italiano de 1948, “Ladrões de Bicicleta”.

Segundo o professor Jorge Leão, cada filme do cine filosófico costuma guardar um cunho reflexivo que desperta para o debate filosófico, como por exemplo a discussão que “Hamlet” gera em torno da “procura pelo eu e a descoberta da consciência angustiada em torno das escolhas”. No caso de “Matrix”, o debate circunda a “questão verdade”; “Efeito Borboleta” discutiu a liberdade, já o filme “Língua das Mariposas” fez o professor Jorge trabalhar com os filósofos-cinéfilos a questão da ideologia e o papel social da escola e do professor.

Assim, o Cine Filosófico pretende divulgar o gosto pelo cinema de arte, de cunho filosófico, fugindo da massificação em que as produções se encontram atualmente. “Consiste em um modo de ver o cinema filosoficamente, reunindo os jovens cinéfilos, depois da exibição para um debate sobre as questões suscitadas pelo filme”, explica o professor.

SERVIÇO:
Cine Filosófico IFMA
Data: 09.OUT.2009
Local: Sala De Mestrado do IFMA, Campus Monte Castelo.
Horário: 18h30min
Filme: "O Grande Ditador" (Charles Chaplin)

Abaixo, o professor Jorge Leão reflete sobre o filme de Charles Chaplin “O Grande Ditador” (1940), que será apresentado amanhã, e propõe ainda a professores e educadores, algumas atividades para aulas de filosofia, sobre ética e política:

“Vejamos uma cena marcante do filme e algumas análises mais gerais sobre o mesmo. A cena em que o personagem de Chaplin (o ditador) brinca com o globo terrestre em sua mesa. Bem, como é sabido por muita gente, esta é uma cena que entrou para a história do cinema, quando o genial Charles Chaplin constrói uma sátira sobre o nazi-facismo, que dominava a Europa, desde meados da década de 1930. É importante o registro de que o filme foi lançado em 15 de outubro de 1940 e foi o primeiro filme falado de Chaplin. O ator inglês representa dois personagens, o barbeiro judeu, que no início combate na 1ª Grande Guerra, como cadete da nação "Tomânia", tentando salvar um soldado chamado Schultz, que mais tarde se torna oficial do exército do imperador Hynkel (a crítica aqui é direcionada a Hitler), e que constitui o outro personagem de Chaplin. Obcecado pelo poder, Hynkel quer dominar o globo, espalhando seu desejo de domínio a todos os povos. Ele se julga controlador do destino das nações, daí a idéia de segurar o mundo com as mãos, como se vê na cena. Aqui, podemos refletir sobre o totalitarismo na política, e citar a filósofa judia Hannah Arendt (1906 - 1975), que pode mediar esse interessante debate com a turma. Como se vê no pensamento da filósofa, a importância da ação política e a valorização do espaço público são dois elementos que se contrapõem às experiências totalitárias, e que podem servir aqui de contraponto para esta cena do filme, pois na Alemanha dos anos 30, "havia a impossibilidade de viver a Política, e o cidadão estava privado do diálogo com seus pares" (Revista: Discutindo Filosofia, Ano 2, n.7, pp.34-35). Um outro momento interessante para o trabalho em sala de aula, é fazer a análise dos dois discursos, o inicial, que comicamente ilustra a insanidade do "Ditador", e toda a descarga de preconceito e totalitarismo que o alimenta, e, no segundo, na cena final do filme, em que o barbeiro judeu é obrigado a falar, pois é confundido com o próprio Hynkel. Neste emblemático discurso, que vai sendo construído numa escalada emocional crescente por parte de> uma brilhante interpretação de Chaplin, é possível apresentar vários aspectos interessantes, como a influência da doutrina da não-violência, propugnada pelo líder hindu Mahatma Gandhi (1869 - 1948), quando ouvimos da boca do pseudo-imperador: "a terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades", além da defesa dos direitos humanos ("o caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos"), e de uma crítica severa à civilização moderna da técnica e do progresso, fatores que subjugaram o ser humano ao domínio das máquinas ("a máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria"). O debate pode também ser complementado pelo professor com tópicos da política e da história do século XX, contexto marcado por duas grandes guerras mundiais, de caráter eminentemente irracional e totalitário, sobretudo na segunda, com a fatídica experiência dos campos de extermínio nazista. Aqui, é oportuna a participação dos professores de História, Geopolítica e Sociologia, para uma interessante reflexão interdisciplinar com a turma. Alguns temas interessantes podem ser propostos por estes professores, tais como: o contexto histórico das Guerras Mundiais, suas motivações e implicações, a configuração do mapa europeu neste contexto, o envolvimento de nações de outros continentes, o impacto social, político, econômico e cultural das guerras sobre as nações envolvidas e outros. Outra sugestão é contrapor a estratégia totalitária, fundada na cobiça e no ódio, ao elemento ético do respeito à diversidade, à alteridade e à prática do amor, como contrapropostas a esta infeliz experiência histórica. Se o debate permitir, os alunos poderão relatar experiências históricas que levaram o projeto de uma humandidade justa e feliz ao fracasso, assim como relatos de fatos ou biografias (pode ser um tema de pesquisa para futuras aulas e debates motivado pelo professor) que impulsionaram o ser humano para novos horizontes, novas utopias, como o próprio discurso de Chaplin, ao final do filme. Vale ficar com as últimas palavras do histórico discurso, quando ele evoca o amor a Hannah, mesmo ela ausente: "Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!". Aqui, o professor de filosofia pode finalizar o encontro enfatizando aos alunos uma nova percepção da palavra "esperança", pautada numa ética solidária e universal, movida por uma ação política consciente e transformadora, onde os seres humanos estejam em equilíbrio com os seus semelhantes, com a natureza, consigo próprios e com os seus princípios valorativos. Mais uma vez, o professor poderá fazer referências à luta do líder pacificista Mahatma Gandhi e também de nomes como Martin Luther King Jr., Chico Mendes, Dom Helder Câmara e Irmã Doroty Stang, que com sua vida foram aos limites da experiência da paz transformadora, fonte abundante de vida, elemento que se contrapõe a todo terrorismo da guerra, da falsa idéia de uma "pura raça" e da banalidade da vida humana pela negação da alteridade.”

Um comentário:

Jessica Alves disse...

Noooossa! Esse registro sobre o cine me fez lamentar mais ainda não ter assistido à sessão. Mas acompanhar por aqui um pouco do que foi e da história e intenção do filme é muito bom.
Mais uma iniciativa que tenho q elogiar.
bjos,
parabéns pelo registro e parabéns ao professor jorge que surpreende sempre com idéias interessantes e ótimas propostas.