quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CINE FILOSÓFICO EM FOCO


- Considerações sobre o debate promovido pelo Cine Filosófico da última sexta, 13, que exibiu o filme "O Menino do Pijama Listrado"

Por Talita Guimarães

O debate do cine filosófico da última sexta (13), comentou a exibição do filme “O Menino do Pijama Listrado” do diretor Mark Herman, com enredo baseado no livro de mesmo título do escritor John Boyne. O filme conta a história de amizade entre duas crianças de oito anos, Bruno, um menino alemão filho de um comandante do exército de Hitler e Shmuel, um menino judeu refugiado em um campo de concentração nazista.
A história tem a segunda guerra mundial como pano de fundo e trabalha a amizade e a infância como formas delicadas de sobrepor o amor e a esperança à monstruosidade da guerra. Aqui, o “Ensaios...” traz um pouco dos comentários feitos durante o debate do Cine Filosófico e conta melhor a história. Atenção, esse post possui comentários sobre o fim do filme! Em todo o caso, continua valendo a pena assistir.
Quatro crianças de braços abertos correm pelas ruas de uma cidade alemã. Pelas mochilas nas costas, os meninos da faixa etária de oito anos voltam da escola. Os sorrisos nos rostos e a algazarra infantil contrastam com um pano de fundo monstruoso: caminhões do exército surgem na sequência que mostra soldados empurrando judeus violentamente para dentro de caminhões. As crianças correm sonhadoras pelas ruas, indiferentes à guerra que cresce a cada dia e se torna mais mortífera e estrondosa.
Assim é o início de “O Menino do Pijama Listrado”. Assim é o trajeto de Bruno da escola para casa. Apesar do ar sonhador, o menino de oito anos guarda uma expressão observadora, com um olhar que percebe o que pode haver de diferente no habitual e é assim que Bruno para na porta de casa e estranha o movimento de mudança no local. Apesar de não ser judeu, sua família também parece preparar-se para ir embora.
Tudo começa a ser explicado no filme a partir da promoção do pai do garoto, que de tenente passa a comandante de um campo de concentração, obrigando o menino e sua família a mudarem de cidade, ficando longe da escola, dos amigos e dos avós paternos. O real motivo da mudança, não chega a ser mencionado para Bruno e sua irmã, que mantém a visão heróica do pai, um grande soldado defensor da pátria.
Desde o começo, Bruno fica desapontado com a mudança e contrariado com a ideia de ir morar em um lugar desconhecido sem os amigos por perto. Apesar de não demonstrarem a contrariedade de Bruno, a mãe e a irmã do menino também se mostram apreensivas e tentam acreditar que a mudança será positiva.
Assim, a família viaja e chega a nova casa com uma falsa expectativa, tomada muito mais por um ar de receio. Todos se acomodam, mas Bruno permanece contrariado pela falta de amigos e a proximidade com outras crianças. Na tentativa de se distrair e procurar explorar o novo lar, Bruno descobre pela janelinha do quarto, um grande campo que ele chama de fazenda, mas ao descrever o lugar e as pessoas desse campo para a mãe, Bruno as classifica como esquisitas. Afinal, usam pijamas com listras azuis e parecem estar trabalhando.
Inocente e alheio a história política do país, Bruno nem desconfia que se trata de um campo de concentração, desconhecendo o fato de que aquelas pessoas são judeus, “capturados” e refugiados pelos alemães. Além de todo esse horror, Bruno nem imagina que quem comanda esse lugar é seu próprio pai.
Entrementes, o menino e a irmã não têm a mesma liberdade de antes e até mesmo a escola é substituída por um professor particular que vai até a casa dos meninos dar aulas que camuflam a verdadeira realidade política do país e tenta incutir na cabeça dos jovens alemães as ideias de que uma nação poderosa está renascendo, Hitler é um grande líder e os judeus não passam de vermes. Nesse ponto, a película propõe um debate interessante, pois mostra como os dois irmãos são afetados diferentemente pelas aulas e a vida no novo lar. Enquanto Bruno é questionador e chega a confrontar o professor, Gretel, sua irmã, parte em defesa da juventude hitlerista e aceita os ideais apresentados. A menina substitui a decoração infantil do quarto por cartazes com fotos de Hitler e dos símbolos nazistas e troca o tempo dedicado às bonecas pelo flerte com um dos soldados comandados por seu pai.
O que há de filosofia no filme está em torno do universo construído aos poucos pela quebra da inocência de Bruno, que indaga a tudo e observa com cautela todos os passos, olhares e conversas que o rodeiam. Solitário, o menino está sempre atento ao que pode lhe ser uma nova fonte de descoberta e é assim que consegue escapar ao controle da mãe e ir “explorar” o quintal da nova casa, até então proibido. Um quartinho nos fundos do terreno mostra a Bruno a possibilidade de pular uma janela e ir conhecer o bosque que cerca a casa e é correndo pelo lugar, rodeado de árvores às margens de um córrego, que Bruno chega até a cerca que isola os limites da tal fazenda. Para sua surpresa há um menino da sua idade sentado do outro lado. Ele usa o pijama listrado e tem no peito uma sequência numérica.
Feliz com a chance de ter um amigo para brincar, Bruno se aproxima do garoto e entre as perguntas que faz, deixa escapar um comentário infantil e sincero, mas que reflete o choque entre culturas e a estranheza que um adulto certamente reprimiria caso estivesse em seu lugar. O nome do novo amigo é Shmuel, e Bruno não o poupa do comentário sobre nunca ter ouvido falar em alguém que tivesse esse nome. Em resposta, Shmuel explica que é judeu e que também nunca conheceu ninguém que atendesse pelo esquisito nome Bruno. A resposta é uma dupla gargalhada infantil e o começo de uma bela amizade.
Todos os dias, Bruno foge dos olhares da mãe e vai visitar seu amigo judeu. Shmuel tem o olhar triste e a aparência suja, de quem não se alimenta e é obrigado a fazer serviços que não lhe cabem. Mas nada disso é assunto da conversa entre os meninos, apesar de Bruno não entender por que o amigo não pode visitá-lo, por que sempre está com fome e por que usa roupas sujas com números no peito. Shmuel tenta explicar as coisas para Bruno quando ele insiste em saber que jogo é esse em que as pessoas devem ser chamadas por códigos numéricos. Mas, o pequeno judeu também sabe pouco sobre o verdadeiro motivo de estar ali e procura explicar para o amigo curioso, o que acontece no lugar da forma que ele mesmo consegue apreender. O resultado desse diálogo, é uma passagem da história contada pela apreensão das crianças, a partir daquilo que elas observam e conseguem formular. Assim, o retrato que se apresenta de um campo de concentração nazista vem da experiência dolorosa dos inocentes, que nesse contexto vão além do conceito das pessoas sem culpa. O inocente representado pela figura da criança, mostra a parcela de vítimas da intransigência que sofreu sem sequer entender o porquê.
Abordar os recortes monstruosos de uma guerra alimentada por ideologias e confrontos de poder a partir da amizade e do entendimento de duas crianças, despidas de malícia e por isso alheias ao “motivo” pelo qual deveriam se odiar, foi a forma inovadora com que “O Menino do Pijama Listrado” trouxe o debate sobre o nazismo sem cair no lugar comum e sem precisar chocar expectadores com longas cenas saguinolentas e diálogos agressivos.
Com apenas 93 min de duração, “O Menino do Pijama Listrado” aproveita nosso conhecimento sobre regimes totalitários para falar de um ângulo que ninguém havia explorado ainda: como é possível a esperança e a inocência vencerem intolerância e desrespeito pela dignidade humana.
O desfecho da história, traz uma sequência de cenas fortes não pelas imagens, mas pelo resultado a que toda guerra leva. E aqui, vale a pena contar o que acontece, porque o resultado da amizade e do companheirismo de duas crianças inocentes deve servir de lição para que a humanidade nunca seja capaz de repetir tais atos de brutalidade contra si própria.
Em um certo dia, Bruno vai visitar Shmuel e encontra o amigo do outro lado da cerca muito triste e abatido. Levaram o pai do judeuzinho para “uma caminhada” no dia anterior e ele não voltou. Shmuel fala a Bruno que queria ir procurar pelo pai, mas não pode ir até o lugar em que o levaram. Como Bruno quer se reconciliar com o amigo e ao mesmo tempo se despedir, pois seus pais querem que ele e a irmã mudem-se novamente, o menino alemão promete ao amigo judeu que no dia seguinte trará um grande sanduíche e dará um jeito de cavar por baixo da cerca e passar para o lado de Shmuel para ajudá-lo a procurar pelo pai. Shmuel por sua vez, fica agradecido e promete trazer um pijama igual ao dele para que possa caminhar pelo lugar sem levantar suspeitas.
Tudo acertado, no dia seguinte, Bruno prepara um sanduíche generoso, o coloca por dentro da bermuda e segue para a cerca armado com uma pá. No entanto, o sanduíche cai no caminho sem que o menino perceba e ao chegar na cerca, onde Shmuel já o aguarda ansioso, desaponta o judeu pela falta do lanche. Mesmo assim, os dois têm como objetivo maior, conseguirem passar Bruno para dentro do campo e sairem em busca do pai de Shmuel.
Um pouquinho de terra tirada de debaixo da cerca é o suficiente para que o corpinho magro de Bruno passe para o outro lado. As roupinhas do alemão ficam para trás e vestido igual aos refugiados, com uma devida touquinha do mesmo tecido para esconder os cabelos bem tratados, Bruno corre no encalço de Shmuel e os dois seguem pelas vielas do campo a procura do pai judeu. Caminhando pelo lugar é que Bruno começa a perceber que a realidade é completamente diferente do que ele imaginava e também daquilo que o professor contava. O que o menino presencia, são homens sujos, mal tratados, abrigados em cabanas de madeira imundas e sem as mínimas condições de higiene.
Shmuel leva Bruno até uma das cabanas e os dois caminham pelo lugar apertado, amontoado de gente gemendo e resmungando, e os dois começam a gritar pelo pai de Shmuel. De repente, soldados começam a gritar de fora da cabana e todos as pessoas se levantam de repente e começam a sair na base do corre-corre e da confusão. No meio disso tudo, Shmuel e Bruno vão sendo levados pela multidão que marcha desorientada pelas vielas. Do alto da sua inocência, Shmuel explica a Bruno que as vezes os homens fazem caminhadas e os dois vão indo junto até entrarem em uma câmara e serem trancados dentro. A voz dos soldados ordena que todos tirem as roupas, as deixem no lugar e sigam pra próxima sala. Os meninos obedecem achando que se trata de um banho, mas quem assiste a cena, percebe rapidamente que se trata de mais uma sessão de execução de judeus nas monstruosas câmaras de gás.
Umas das últimas cenas, talvez a que consiga reunir beleza e choque, acontece dentro da câmara. Em meio a tantos seres humanos prestes a morrer, duas mãos infantis se encontram e seguem juntas até o fim de suas vidas, que chega sem que elas percebam e sem que saibam o porquê.
Após a projeção do filme, estudantes e o professor Jorge Leão levantaram algumas questões pertinentes em torno da narrativa. O filme aborda várias simbologias e transmite nas entrelinhas, mensagens sobre o modo como os regimes totalitários afetaram a vida de inúmeras pessoas. Alguns pontos levantados são: o modo como o povo alemão defendia o ideal de superioridade sob outras culturas; a diferença de olhares, enquanto Bruno encarava tudo com fascínio, Shmuel vivia na pele a dura realidade; o modo como os judeus eram perseguidos e tratados revelava uma situação de desumanidade; a banalização da vida: a perda do nome, substituído por números e a transformação do ser humano em objeto.
Para encerrar, o Prof. Jorge chamou a atenção para os estudos do pensador alemão Theodor Adorno, que em sua obra “Educação e Emancipação” aborda o processo educativo como forma de conhecimento capaz de evitar que a barbárie proporcionada por regimes totalitários volte a ocorrer no mundo. Para Adorno, educação é a única forma de prevenir e impedir que a monstruosidade se repita. Sua preocupação com essa questão é veemente dado as características e possibilidades de uma nova guerra ou conflito de igual ou maior proporção acontecerem ainda existirem.
Sendo assim, o prof. Jorge Leão faz coro ao pensamento de Adorno reafirmando que ainda hoje é preciso mobilizar esforços para que nenhum tipo de experiência semelhante ao nazismo se repita.
E o próximo debate do Cine Filosófico já está marcado: sexta-feira, 20/11, a partir das 18h30 na sala de Mestrado do Instituto Federal do Maranhão. O filme da vez é o “Nação Fast Food”, uma severa crítica ao sistema milionário dos fast’s food’s , e todos os fatores envolvidos na
sua manutenção.
“Na corrida desenfreada pelo lucro, pouco importa se os hamburguers estão contaminados, e se o sistema de morte do gado é algo terrivelmente perverso. No fim, a rede de alimentação terá mais lucros.”, explica o prof. Jorge. No filme, o diretor aborda questões correlacionadas, no contexto dos EUA, como imigração ilegal de mexicanos para trabalhar em abatedouros, correndo todos os riscos de segurança, por constituírem mão-de-obra barata.
Em suma, “Nação Fast Food” observa o gigantesco processo de mercantilização da vida urbana por dentro do processo, submetendo ao olhar da velocidade presente no modo como nos alimentamos. “Trata-se de um debate necessário para a atualidade, mesmo que você não seja vegetariano ou esteja pensando em ser. Para todos, uma responsabilidade com o destino humano.”, adianta o prof. Jorge Leão.

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