domingo, 29 de novembro de 2009

OPINIÃO EM FOCO

E a festa da diversidade na literatura foi, na verdade, engolida pela falta de unidade.
Por Talita Guimarães*
É inevitável, a comparação. Depois de duas edições bem sucedidas, a terceira edição da aguardada Feira do Livro de São Luís precisava passar pelo crivo de análise e aprovação do público. E nesse sentido é fato: não superou as expectativas. O que era para ser uma grande festa de encontro da literatura, tanto produzida por maranhenses quanto por autores de renome nacional, não passou de uma semana de venda de livros, palestras desencontradas e um esforço aparente de raros conterrâneos do patrono Ferreira Gullar em fazer jus a homenagem do evento.
Não podemos, entretanto, malhar a organização da feira, sem antes analisar o que esperávamos de um evento desse porte dentro do cenário da Capital Brasileira da Cultura no ano em que o Brasil comemora o ano da França por aqui.
Homenagear Ferreira Gullar sempre será justo e bem vindo. Gullar é um dos maiores expoentes da literatura brasileira e sem dúvida autor de obras que rendem muitos debates, palestras e cafés. Já teria valido a pena, se a programação tivesse girado em torno de seu legado. Entretanto, 2009 foi, por assim dizer, eleito o ano da diversidade, de modo que a feira do livro não escapou ao tema “A Diversidade Literária na Capital Brasileira da Cultura”. Adequado, já que Gullar personificaria o tema tranquilamente, com uma obra de poesia contemporânea neoconcretista impecável, assinada por um autor de vivência na política e em movimentos culturais. Além de transitar bem entre o adulto e o infantil, o autor, ludovicense, tem mais de 20 livros publicados e é autor de frases célebres como “A infelicidade pode provocar poesia. Em excesso, ela te anula.” ou ainda “Tudo que é inventado é menos que a realidade”, dita em recente entrevista ao programa Conexão Roberto D’ávila. Suma importância, já que dentro de sua terra natal, jovens não lêem mais do que um livro por ano e se entregam aos milhões a leitura de best-sellers e a produções de cinema mal-feitas de livros sucesso de venda. Gullar para nossos estudantes seria um prato cheio e uma grande chance de mudar um cenário de diversidade que vive no sentido ruim da palavra: falta de identidade, contradição. Assim, a análise da vida e obra de Ferreira Gullar já renderia um evento a parte e já se justificaria por si só.
Entretanto, o que se viu entre os dias 20 e 29 de novembro na Praça Maria Aragão, fugiu a essa possibilidade, aguardada por muitos maranhenses, entre professores, estudantes de letras e comunicação, escritores e poetas, felizes pela homenagem a um autor vivo em todos os sentidos e decepcionados pela rala programação.
Tudo bem, falar sobre diversidade e trazer para dentro do evento o passeio pelo cinema, pelo teatro e pelas artes plásticas. Interessante acompanhar essas linguagens potencializando o prazer pela literatura. Mas frustrante perceber a falta de diálogo, vinda de alguma falha no processo de organização. Uma programação reduzida não significaria uma programação ruim, oca. Pelo contrário, poderia conter uma identidade melhor amarrada e mais consistente. Apesar do risco de uma programação extensa se perder, as edições anteriores foram consistentes e deram um resultado em termos de diversidade mais satisfatório. Em 2009, a diversidade literária do tema passeou pelo vazio. Tanto que em uma festa literária em homenagem a Ferreira Gullar e em nome da diversidade de produção, houve palestra abordando o sistema de cartão de crédito do Brasil. Esteve na programação do dia 27 no auditório José Louzeiro. Um debate de valor, claro, mas totalmente deslocado em uma feira do livro!
A aguardada visita de escritores de outros estados e de grandes nomes da nossa literatura também esteve em declínio. A programação trouxe de fora os competentes Chico César, Newton Cannito e Leona Cavali, mas ainda assim deixou-os deslocados na proposta do evento. Chico recitou durante duas horas seu livro Cantáteis. Deixou um sentimento de vazio, que teria sido facilmente preenchido por uma conversa sobre o processo de criação que ele teria usado ao compor o audio livro. Leona, atriz global, ainda se lança no mundo da literatura. Cannito é mestre na área de cinema e roteiros. Todos bons e competentes, mas desacompanhados de escritores puros, se perderam na programação. Afinal, festa da literatura sem encontro com escritores não é festa da literatura.
O público queria mesmo era rever Afonso Romanno de Sant’anna caminhando pela feira de braço dado com a Marina Colasanti e depois se fascinar com a palestra de uma Luzilah Gonçalves Ferreira. Ou então aplaudir de pé um Ariano Suassuna e enfrentar fila desde as quatro da tarde para ouvir o que o pai de Chicó e João Grilo teria a dizer. Sempre sentirei saudades do dia que conheci pessoalmente Moacyr Scliar e chorei ouvindo sua história de vida ao vivo. Nunca vou esquecer Antônio Secchin respondendo a minha pergunta sobre a poesia produzida por Machado de Assis. Ainda fico emocionada ao lembrar de José Chagas recebendo meu livro de presente e me presenteando para sempre com um autógrafo no perfeito “Da arte de falar bem” e um “Você não é aquela menina que ganhou um prêmio literário ano passado?”.
Esse ano, os escritores maranhenses, por sua vez, fizeram sua parte, mas contaram com o apoio de pouco público. O professor e escritor maranhense José Neres lembrou bem, em seu artigo publicado no Maranharte (link no fim do post), quando disse que os escritores maranhenses palestraram para amigos e parentes. Foi um deslocamento da sala de casa. E isso não é fazer feira do livro, é fazer festa para inglês ver, já que até os franceses que estiveram por aqui devem ter se decepcionado.
Devo concordar com alguns pontos positivos: quem foi a feira, encontrou facilmente com Nauro Machado e José Louzeiro. Presenciou a simpatia de Antônio Guimarães (não é meu parente, infelizmente) no lançamento de seu livro. Pode esbarrar com jovens nomes da literatura como Bruno Azevedo e Vinícius Bogéa. Pode matar um pouco a saudade do sempre inesquecível Mestre Antônio Vieira no carinhoso Beco do Vieira montado no estande da Vale.
Mas ainda tivemos poucas opções de compra nos estandes de livreiros e editoras e não contamos com preços tão acessíveis. E não se enganem, apesar do grande movimento, a feira não deve ter movimentado tanto dinheiro e o saldo das palestras, oficinas e cineclubes não deve ter sido efetivado na maioria do público. Houve um perceptível aglomerado de ociosos caminhando pelo lugar e não foi difícil sentir a falta das intervenções poéticas pela feira.
A programação de encerramento não foi divulgada, mas quem assistiu à performance poética de Chico César soube pelo Presidente da Fundação Municipal de Cultura, Euclides Moreira, que a festa de encerramento teria a presença de blocos tradicionais e Bandas e Fanfarras, além de um show pirotécnico. Tudo diversificado demais, lançado ao público sem grandes critérios, como em um evento para cumprir tabela. Desde já esclareço que aprecio muito, como boa maranhense, a sonoridade dos Blocos Tradicionais e sou fã desde a infância do show das Bandas e Fanfarras Maranhenses, mas não posso fechar os olhos para um deslocamento da cultura. Não aceito que essa seja a nossa diversidade literária. Sobrou cultura desencontrada, faltou literatura.
Que venha a quarta edição em 2010, já anunciada para o período de 12 a 21 de novembro do ano que vem, e traga uma nova chance de reunir escritores e amantes da literatura para uma verdadeira festa literária.

Leia mais:
"Gullar perdido na feira", por José Neres em http://www.maranharte.blogspot.com

*Estudante do 5º período de Jornalismo da Faculdade São Luís e autora do livro infanto-juvenil Vila Tulipa.

4 comentários:

Mary disse...

Concordo, Talita!

Realmente, a impressão que tive foi a de um evento realizado somente pra cumprir tabela, pra não passar em branco. Muita coisa foi deixada de lado e outras muitas, que nada tinham a ver com o tema, foram incluídas na programação. Sem contar com o público escasso para as palestras. Pra ser sincera, só vi muita gente mesmo no dia da exibição gratuita de Lua Nova ¬¬'.

Adorei a crítica!

Abraços.

MARANHARTE disse...

Talita, nossa amiga virtual.
Primeiramento, parabéns pelo texto,
principalmente pelas lembranças das duas edições anteriores. Também estávamos, eu e Mariane, sentados a espera do Suassuna naquele dia. Foi inesquecível. Este ano, no último dia, tudo estava sendo apresentado tão depressa, que tivemos a impressão que todos estavam querendo que aquilo terminasse o mais rápido possível.E terminou, sem saudade.
Mas não podemos perder as esperanças, como vc bem colocou no final do texto.
Estamos esperando aquele tão precioso texto que vc nos prometei.
Abrços.

José Neres disse...

Concordo com cada uma das palavras de seu texto. Resta-nos agora torcer para que todas as falhas apontadas por você e por outras pessoas que também sentiram falta de algo mais literário na Feira sirvam para melhorar a próxima.
Obrigado pela alusão a meu artigo.

Talita Guimarães disse...

Olá, pessoal!

Obrigada pelas visitas e comentários!

Mary, infelizmente nossos jovens ainda tem um gosto duvidoso quando se trata de filmes e livros. Poucos como você, sabem apreciar a literatura com bom gosto, como reconhecer a obra de um Celso Borges por exemplo e ir à feira apreciá-la. A grande maioria se deixa levar pelo romance água com açúcar e o filme protagonizado por belos (não disse bons) atores. Best-sellers atraíram pessoas para a feira e olha que nem estavam com preços mais baixos... Machado de Assis que é bom ninguém quer!

Queridos amigos do Maranharte, que beleza foi o encontro com Suassuna, hein! Esperamos que ano que vem os escritores voltem a ter presença privilegiada. Afinal, sem eles não existe literatura e aí a feira fica como festa sem aniversariante, completamente sem sentido.

Prof. Neres, vamos mesmo torcer para que as falhas percebidas nessa edição sejam ajustadas. Não se trata de copiar as primeiras edições anteriores, até porque era outra gestão e coisa e tal. Mas saber reconhecer que há um jeito de fazer feira do livro e a fórmula até então usada era a mais correta. Acho que é por aí. Inovar sim, retroceder nunca.Se for pra cumprir tabela, como a Mary reparou, é melhor nem fazer.

No mais, é isso!

Abraços em todos, e continuem conosco!

Talita Guimarães