sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

INSPIRAÇÃO EM FOCO

Ensaios em Foco tem dado alguma atenção a primeira pessoa e a literatura ultimamente. Estamos aproveitando as férias da faculdade para respirar literatura, poesia e um pouco de inspiração... Chance de refletir e descansar do estresse. Aproveitem e inspirem-se também. Links para outras boas reflexões no fim do post.

Quando um escritor está com a mente bloqueada, sofrendo de uma terrível crise criativa, parece que o mundo vai acabar. Nada tem graça, tudo perde o sentido, a vida parece sem cor, sem gosto, sem som, vegetativa. Eu, por exemplo, fico extremamente mal humorada e acabo fechando os olhos e ouvidos para coisas interessantes que rendem bons textos.

Mesmo nesse momento, o escritor se sente compelido a transformar o que se passa em palavras escritas. Talvez, isso explique o fato de muitos poetas escreverem sobre inspiração e muitos prosadores falarem sobre porque escrever.

Recentemente, escrevi um post especial para o blog Badulaques. Nele, tentei falar sobre a forma como me relaciono com a literatura e a função que ela ocupa na minha vida. Dei ao post o título de “Sopro de Inspiração” e saí escrevendo o porquê de eu gostar tanto de ler e escrever e a forma como fico encantada com a leitura de livros que marcam gerações e emocionam sempre que lidos e relidos.

Ainda sobre a peleja inspiração e crise criativa, veio a ideia de falar sobre o que motiva alguém a escrever após ler o comentário de um leitor do Badulaques que pedia a minha opinião sobre a forma de proceder em caso de falta de inspiração. Bom, se eu sinceramente tivesse um antídoto, uma fórmula, uma resposta, talvez fosse um escritora de sucesso com mil e um livros emplacados, mas bem, sou mortal e não sei como proceder para findar uma terrível crise criativa.

Contudo aprendi algumas coisinhas com a crise. Experiência de vida é sempre aquela coisa intransferível de que fala o saudoso Stanislaw Ponte Preta em seu livro “Dois amigos e um chato”. De fato, não há como viver e aprender coisas novas sem desfrutar de experiências a cada dia. Sendo assim, crise como experiência pode guardar oportunidade. Como a busca de inspiração é constante, não deve ser diferente do cuidado que tomamos quando queremos ter aquele estalo mágico, a luzinha que acende aparentemente do nada.

Antes de se torturar e chorar pelos cantos por não ter inspiração, é preciso lembrar de parar e ir buscar ter vivência, para então ser capaz de bater os olhos nos detalhes e tirar alguma poesia deles.

Pensar e repensar. Criar possibilidades. Viver e ter a mente aberta. Considerar o que as pessoas falam. Beber seus gestos e reações. Ler bastante. Essas são as coisas que sempre ajudam quando as ideias originais nos faltam. E foi mais ou menos isso que eu disse ao leitor que comentou no Badu. Mas o que realmente há por trás de um momento de inspiração é realmente inexplicável. E nem há como prever, nem se preparar de fato. Apenas aproveitar e ser feliz.

Assim que enveredei de vez pelo caminho das letras, o professor Jorge Leão deixou em um comentário aqui do blog a seguinte frase: “A literatura é um caminho árduo, mas de grande elevação espiritual”. Devo concordar que seja árduo, porque um texto sempre envolve um pensado e repensado processo de criação. Coisa que às vezes pode até levar dias. E quanto a elevar o espírito, sei que vale a pena escrever quando compartilho com amigos-leitores a impressão feliz de causar alguma sensação em quem lê. Antes mesmo disso, costumo me divertir escrevendo. Soube desde criança que era o que gostava de fazer e não foi difícil optar pela profissão que me permite escrever e trabalhar com seriedade o retrato daquilo que é nossa sociedade. E nesses termos, Jornalismo também tem se mostrado um caminho um tanto árduo.

Para ilustrar um pouco do que é esse momento em que escritores e poetas sofrem em busca de novas ideias, trago um poema intitulado “Inspiração” do escritor, jornalista e também poeta Leonardo Schabbach. Resta saber em que estado poético estava Schabbach ao escrever esse poema. Seria uma forma de expressar e extravasar, através da poesia, um momento de crise? Tirar dela a oportunidade? Ou ainda aproveitar a sensação, já passada, para criar? O que daria meio que no mesmo. Tirar da experiência, a oportunidade. Inspirar-se.

Segue o poema:

“Inspiração”
(Leonardo Schabbach)

A inspiração entrou pela janela
assim que decidi tomar um ar.
Sentei e conversei com ela,
perguntei se podia me inspirar.

A tarefa, disse ela, é complicada,
me pediu dois bolinhos e um chá.
A noite foi, então veio a madrugada;
a inspiração e eu a conversar.
Metódica, do chá tomava um gole
a cada dois pedaços de bolinho.
É preciso primeiro matar a fome,
para depois descobrir o seu caminho.

Gesticulava e com os gestos desenhava
poemas concretos, poemas-bastão,
como aqueles da química escolada;
fórmulas, carbonetos, combustão.
Me surpreendeu, também era matemática,
se transformou em números na minha frente.
Assustado, gritei "Senhora?" de repente,
ela virou-se para mim e disse "fática"!
Corri e rabisquei no meu caderno
ela leu e olhou com reprovação.
Tinha escrito poemas de inverno,
ela queria poemas de verão.
Irritado, a coloquei para fora,
ela nada tinha a ver com os meus poemas.
E hoje quando escrevo tenho problemas
por causa de uma inspiração que chora.

Para quem quiser conhecer mais do trabalho de Leonardo Schabbach, vale a pena conferir o blog do autor “Na Ponta dos Lápis”. E para quem quiser dar uma espiada no texto publicado no Badulaques basta ir no link
http://badu-laques.blogspot.com/2010/01/pra-que-escrevo.html

Na Ponta dos Lápis
Badulaques

Um comentário:

Leonardo Schabbach disse...

Valeu pela citação ao blog, e fico feliz que tenha gostado do poema.

Pois é, este foi escrito quando ia dormir, veio uma idéia louca, e se pensasse em alguém conversando com a inspiração? Enfim, ai levantei pra escrever, uma coisa puxou a outra e o poema acabou saindo, hehehe.