sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

REFLEXÃO EM FOCO

Sobre crescer e ainda enxergar felicidade em coisas simples...
Por Talita Guimarães
Andava estressada, preocupada com o futuro, com a profissão. Responsabilidade é o que a gente mais acumula quando cresce. Talvez seja o preço que pagamos pela liberdade. Talvez muitos de nós não cresçam, mas sejam empurrados para a vida adulta em sociedade... Vai saber?!
O que sei é que se posso responder por mim, digo que nunca quis crescer no sentido de ser empurrada para a vida adulta. Sempre gostei de ser criança e enxergar a vida com olhos de infância. No entanto não pude parar o tempo, nem fazer regressar cada aniversário, nem a mania das pessoas de dizer "nossa, como ela está crescida!". Inevitavelmente, cresci. Avancei na escola, cheguei ao curso superior e falta pouco para ter uma profissão reconhecida por diploma. Trabalho em um turno e estudo no outro. Acho que posso ser chamada de uma quase adulta normal. E tenho certeza que não sou a única a passar por isso na vida.
Tenho apenas 20 anos e muito para viver, alguém pode dizer. Concordo plenamente. Mas, às vezes, duvido se teria realmente crescido. Eu posso estar sendo empurrada. Se meus pensamentos e ideais não se satisfazem com a realidade, posso achar que não estou compatível com a velocidade em que estou andando. Vai ver estou tendo que correr e não me dei conta. Tudo acontece tão rápido. Onde ficou a criança que desenhava histórias em quadrinhos e lia Stella Karr? Já já será jornalista.
Viajo em pensamentos, me perguntando sobre estar adequada a esse tempo em que vivo. Coisa de gente que se perde entre ideias e sonhos, desses que acometem a gente depois que se tem aula de filosofia e se treme só de pensar em ser corrompido ou alienado. Horas em que a gente para pra pensar na vida, no futuro que se quer e no presente que se vive e constrói.
E digo isso porque sou reconhecidamente chata com formalidades e responsabilidades e obrigações e mais aquelas coisas que alguém inventou um dia e todos acharam de seguir de olhos fechados. Sou virginiana e não que o signo justifique de todo o meu jeito perfeccionista ou metida a certinha de ser, mas é que ele não contradiz em nenhuma descrição de perfil sobre o modo de ser de quem nasce no dia que eu nasci. Tenho mania de perfeição sim, embora saiba que ela é inalcansável. Gosto de coisas organizadas, certas, confirmadas por pessoas de palavra. E se hoje digo que tenho neurose com formalidades, garanto que não nasci assim. Fiquei assim.
Mas ainda bem que chega uma hora em que o balão estoura e você fica vermelho de raiva por tudo dar errado. Gente como eu, aguenta enquanto pode, mas uma hora se descontrola por ver que o tal carro que você conduz pela estrada da vida acaba sendo obrigado a sair do asfalto e "desandar" do acostamento para a terra batida.
Vida em ordem, com a faculdade ensinando tudo, a bolsa de pesquisa revelando conhecimento, o trabalho pagando bem. Tempo sobrando para os estudos, a família e os amigos. Mundo perfeito? Viagem pura. Quem garante que tudo isso seja realmente tudo? Andei pensando, ouvindo as vozes pós-chacoalha e cheguei a sã consciência: existem coisas mais importantes que convenções, leis, formalidades, obrigações e até responsabilidades. E é nessas horas que agradeço a Deus por existir gente no mundo capaz de me dar um chacoalha e gritar palavras que me fazem sair do transe e da neurose.
Ainda bem que além disso tudo existe música, poesia e literatura. Cazuza canta "O tempo não para". A menina-poetisa me ensina que as palavras que somem quando já estavam na ponta da língua vão para o mesmo lugar que as lágrimas que a gente não chora. O autor de "O Mundo de Sofia" revela que a admiração pelas coisas que ainda não conhecemos é o que nos motiva a buscar uma vida mais feliz. O email do professor lembra que devemos dar oportunidade ao imprevisível. Existe vida além vestibular, prova de estágio, concorrência por emprego.
Ainda é possível ser feliz e tornar alguém feliz com coisas simples. Uma amiga que ganhei em 2009 soube reconhecer que a amizade que posso oferecer tem o gostinho especial de coisinhas gostosas do dia a dia, como vitórias do cotidiano e momentos breves de alívio. Ela escreve assim:

"Sabe quando vc passa de ano direto? Quando c ganha aquele presente que vc tava louco pra ganhar? Sabe aquela sensação boa de lamber o papelzinho do danone? Sabe as melhores coisa do mundo? São muito bobas, perto de Talita. Uma das pessoas mais inteligentes e legais que eu conheci neste ano."

Não sei o que disse ou fiz para fazê-la sentir-se assim, mas fico feliz em saber que não precisei planejar. Bastou ser espontânea, quase imprevisível. Dizer coisas simples, aprendidas na vivência e nas experiências. Começar a conversar sem querer prever os assuntos sobre os quais íamos falar. Afinal, tem coisa melhor que chegar em casa e tirar o sapato apertado? Ouvir riso de criança ou canto de pássaros às seis da manhã? E o que dizer de chegar em casa depois de onze da noite, tomar banho e se esticar na cama quentinha sabendo que você terá algumas horas sem precisar fazer nada mais que sonhar?
A vida é mais que estresse, ônibus lotado, acordar cedo e ser obediente a um chefe no emprego. A vida está nos segundos de abraço de um amigo, na visita da avó distante, na oração feita em frente ao mar minutos antes do ano novo, no sorriso da criança ao ver a cadeira alta do ônibus desocupada, no granulado do brigadeiro que ficou colado no papel... em coisas simples, espontâneas, imprevisíveis.
E quer saber? Nos intervalos de normalidade, mantenho um blog, maroco o orkut que resisti em fazer até que ameaçassem fazer um fake, visito amigos, tuito ideias, leio revistas e tento aumentar aos poucos minha micro biblioteca. Tenho paixão pela minha antiga escola e visito-a constantemente. Amo minha família.
Descubro amigos e lhes dou meu sorriso de criança. Aprendo que crescer é mais que assumir responsabilidades, é conseguir viver longamente com olhos de infância.

Obrigada a Juh Martins, por escrever sobre mim em seu blog. A menina-poetisa Rossana Barros por conversar comigo por uma longa tarde e me soprar sua poesia de forma tão natural. A Saulo Galtri por animar minhas férias nos longos bate papos no msn. Ao professor Jorge Leão por ensinar seus alunos e ex-alunos a nunca desanimar. A Juhbeu, por ser mais uma cefetiana que entra para o meu grande e adorado time de amigos. A minha mãe pelo chacoalha e as palavras mágicas, sempre firmes mas amigas, que me tiram da neurose. Ao Gil e a Mary, do Badulaques, por me lembrarem que o blog é um bom lugar para refletir. A Isaque, por ser doce e não esquecer as coisas que eu digo. Aos cantores, poetas e escritores que doam com amor e cumplicidade suas palavras e genialidades a pessoas que nem supõem conhecer.

5 comentários:

Gildson Souza disse...

adorei o post!
Quanto ao que você disse sobre a amizade espotânea, tem uma frase do gullar que diz que nada que é planejado é melhor do que aquilo que é espontâneo. foi um prazer enorme pra mim conhecer você também.

JeEH disse...

Nossa, Thaliita teu post me fez pensar em um monte de coisas, e lembranças...Adorei!
Passado algum volume de água no riacho da viida a gente percebe mesmo que as gotas é que fazem a magia acontecer.
bjo, parabéns pelo post!

disse...

A-D-O-R-E-I , Talita. A infância partiu mas não "se foi." Continua viva em algum lugar dentro de mim.

Mary Carvalho disse...

Espontaneidade acima de tudo!
Gostei muito do teu post, principalmente no que diz respeito a esquecer o stress e saber que há vida sim, sem as consequencias que ele traz. E nada melhor que as amizades verdadeiras!
Ah, obrigada pela parte que me toca! rsrsrsrs
Agradeço muito pela sua amizade, e também pelas contribuições ao montes que você tem me dado.
Abraços, até!

Talita Guimarães disse...

Gil, JeEH, Juh e Mary,

raramente uso o blog em primeira pessoa, assim, falando de mim em nome de uma reflexão.

Mas para refletir é preciso viver e passar por provações e experiências que testam nossa paciência e nossos limites.

Precisei escrever para os leitores, principalmente porque encontrei o contraponto para meus problemas nas palavras da Juliana Martins.

Foi aí que abri os olhos para quem está ao meu redor e para as coisas realmente significantes da vida.

Que bom que todos gostaram. Que bom que vocês são verdade e estão por perto.

Obrigada pelas visitas e pelos comentários.

abração!