sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

CRÔNICA EM FOCO

Sobre notícias, chuva, ônibus e crônicas que não entram no jornal

Sempre passo o dia todo acompanhando sites de notícia, lendo jornais, ouvindo rádio e procurando saber o que se passa nos telejornais, principalmente locais. Faz parte do trabalho do jornalista de assessoria estar informado, acompanhando o trabalho dos colegas nos veículos de comunicação.

Até aí tudo bem, mas é fato que hoje em dia não é mais preciso ficar ligado 24h na mídia para receber informação e saber, nem que seja “por alto”, o que está acontecendo na cidade e no mundo. As pessoas ainda conservam a velha e boa conversa pautada pelos noticiários. A tal agenda setting que estudamos na faculdade. E são nesses papos de mesa de bar, paradas de ônibus ou pausa para o cafezinho no meio do expediente de trabalho que as pessoas recebem e transmitem informações, anteriormente recebidas pela imprensa.

Tenho reparado nisso com mais frequência porque a assessoria onde trabalho mudou de sala, de modo que agora dividimos um espaço com colegas de outro setor, que sempre aproveitam os jornais que clipamos para dar uma lida. E independente disso, sempre comentam o que souberam pela imprensa de modo muito natural. O que acontece e vira manchete de jornal facilmente se torna assunto de bate papo. Mas muitas vezes, a notícia do jornal está no cotidiano como um detalhe, um pano de fundo para coisas tão importantes quanto informação, que acontecem por aí pelo mundo mas não entram em jornais.

Foi numa dessas conversas despretensiosas do tipo “Você viu? As passagens de ônibus ficam mais caras a partir de amanhã!” ou “Nossa, o carnaval em São Luís vai ser debaixo de chuva!” que lembrei de um episódio interessante que muito tem a ver com ônibus e chuvas, mas guarda um ar de crônica porque remete a um olhar mais literário de um fato do cotidiano que certamente não iria para um jornal. Trata-se de um recorte vivido há muito tempo, em um ônibus em dia de muita chuva. Puxei pela memória e resolvi dar uma de cronista. Segue abaixo:

“O dia era de muita chuva e o ônibus demorava ainda mais que de costume. Fabinho e a mãe estavam encolhidos debaixo do mesmo guarda-chuva. Deviam estar na parada de ônibus há muito tempo, mas o menino não sabia dizer quanto porque ainda não tinha aprendido a ver as horas nos relógios de ponteiro. Ele tinha só sete anos e preferia relógios digitais, mas em geral isso não fazia muita importância porque ele nunca se preocupava com o tempo. Naquele dia, no entanto, estava dando alguma atenção para cada minuto porque estava ficando cansado de esperar por um ônibus, em pé debaixo de chuva. Sua mãe também devia estar cansada, apesar do rosto inexpressivo.

Mais alguns minutos e finalmente o transporte para casa se aproximou. A mãe se adiantou para pedir parada e meteu Fabinho na frente. Aos tropeços, o menino subiu no ônibus e passou por debaixo da roleta. Ele não pagava passagem. “Ainda bem”, dizia a mãe. Talvez isso fosse bom porque naquela semana a tarifa havia sido ajustada em 21,49%, o que significava que as greves de ônibus das semanas anteriores haviam dado em alguma coisa. “E sobra pro povo!”, Fabinho ouviu a mãe reclamar para o trocador enquanto catava moedas na bolsa para inteirar a própria passagem.

Enquanto isso, Fabinho foi procurar um lugar para se sentar. Infelizmente haviam poucos lugares disponíveis e o menino ficou indeciso, já que teria que se acomodar ao lado de algum estranho. “Senta ali, Fabinho!", a mãe veio andando pelo corredor do ônibus e foi apontando para um lugar na janela, ao lado de uma mocinha com farda de escola. Fabinho pediu licença para a mocinha ao passar e ela foi dizendo “Esse banco tá todo molhado”. Fabinho olhou para o banco e entendeu porque a garota havia sentado no assento do corredor. “Hum, vou sentar na pontinha” disse timidamente e sentou desconfortavelmente para não se molhar. Uma rajada de vento entrou pela janela e trouxe respingos de chuva. Fabinho piscou e fechou a janela na mesma hora. “Molhou tudo porque deixaram aberta” concluiu mentalmente, lembrando da vez que esquecera a janela do quarto aberta e a mãe brigou porque a chuva molhou a cama do irmão.

Assim, o ônibus seguiu seu caminho, pegando passageiros em paradas cheias e deixando outros em paradas escuras. Quando chovia daquele jeito, a noite parecia chegar mais rápido.

Foi depois que a menina ao lado desceu e um homem com cara de bravo ocupou rapidamente o lugar vazio que a coisa aconteceu. Uma senhora grávida, com uma barriga enorme, entrou no ônibus e passou com alguma dificuldade pela roleta. Não havia mais nenhum lugar disponível e ela veio ficar em pé bem de frente para a cadeira de Fabinho. Segurando-se nas laterais dos assentos, ela olhava em volta na esperança de perceber se alguém iria descer logo. “Esse barrigão deve ser pesado!”, Fabinho reparou e arregalou os olhos na hora que seu olhar encontrou o da grávida. Um estalo e todos os ensinamentos da mãe vieram à tona. Fabinho nem pestanejou. Sentou mais para trás da cadeira molhada enxugando-a com a própria roupa. O senhor ao lado olhou para o menino com cara de espanto e em seguida acompanhou com os olhos e as mãos na consciência a atitude do menino de sete anos. “Sente aqui, moça!” Fabinho levantou rápido e foi logo indicando o lugar para a moça, que sorriu docemente e passou a mão de leve no rosto do menino. “Muito obrigada! Você é muito gentil!”. A mãe de Fábio, que estava sentada duas cadeiras atrás, assistiu a tudo e chamou o menino para perto. “Muito bem, meu filho! Estou muito orgulhosa de você!”. Todos no ônibus olharam Fabinho com admiração. Muitas senhoras comentaram “Que coisa fofa!”, “Que menininho educado!”, “Que gracinha!”.
Fabinho sorriu para elas e foi sentar-se no colo da mãe. Olhando para a moça em seu lugar, pensou com carinho na própria mãe e ficou imaginando como teria sido o dia em que ele esteve dentro de sua barriga. Tanta proteção. Ali não havia chuva, só amor e calor.

Desse momento para frente, nada mais importou. Nem a chuva, nem o dinheiro da passagem, nem a roupa molhada. A única coisa que importava era que ele sentia que tinha feito algo bom. Valera a pena tomar chuva e esperar por aquele ônibus.”

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