sábado, 6 de fevereiro de 2010

MÚSICA EM FOCO

Em busca de harmonia...

Na última sexta-feira, 5, o jornal O Imparcial publicou em seu caderno Ímpar, uma entrevista interessante feita pelo repórter Severino Francisco com o músico húngaro Ian Guest, que vive no Brasil desde os 17 anos e por ter se encantado com a forma de fazer música dos brasileiros permanece em terras tupiniquins até hoje. Mas Ian não ficou por aqui para se encantar ainda mais com nossa musicalidade a flor da pele, mas sim para estudá-la e prestar consultoria a grandes nomes da nossa música em termos de harmonia.

Para quem não sabe, Ian Guest é bacharel em Composição e entende muito bem a importância do equilíbrio entre melodia, ritmos e timbres, a chamada harmonia. “Não há nome mais bonito do que harmonia.”, diz a Severino Francisco. E não é à toa que a aplicação de seu conhecimento está em canções de Cássia Eller, Turíbio Santos e Rafael Rabelo, fora a amizade com a turma da Bossa Nova e a parceira com ninguém menos que Raul Seixas.
Ian Guest é definido pelo texto do repórter como anárquico, libertário e provocador. De fato, a entrevista revela um artista inovador e cheio de ideias que confrontam o sistema, mas ao mesmo tempo, a provocação de Guest é uma preocupação disfarçada, que grita por mudança. As falas do húngaro em relação a forma de compor do brasileiro refletem uma preocupação apaixonada pela forma de criar de um povo considerado altamente criativo e espontâneo. E é quando Severino pergunta como ele vê o estudo da música no Brasil, que Ian Guest solta a conclusão que explica a paixão e a preocupação do músico pelo país: “As pessoas chegam à música por dois caminhos: a prática acadêmica ou os botequins da vida.”.
Tem ares de crítica, mas no fundo é uma verdade. O ensino da música produz músicos em série, que alcançam qualidade com base na perfeição técnica. O que Ian defende é a liberdade para criar. Dar voz a criatividade e experimentar novas formas de fazer música é o que falta aos iniciantes e o que precariza a produção atual, como se a deixasse com um vazio perceptível, mas difícil de explicar. Ian Guest viveu a geração do Beco das Garrafas no Rio de Janeiro, quando Tom Jobim sentava ao piano e criava livremente o que hoje é a marca da música brasileira no exterior. Mas não pensem, vocês, que a qualidade da Bossa Nova nasceu em noitadas ao piano. Jobim, João Gilberto, Baden Powell e toda essa turma eram preocupadíssimos com a qualidade das canções e a harmonia. Tanto, que não faltam histórias de João Gilberto grudado ao violão insistindo na mesma canção até que ela chegasse a perfeição técnica que ele queria. A diferença desses músicos para aqueles que hoje frequentam bancos de escolas de música, é que a criatividade veio em primeiro lugar.
Sendo assim, Ian Guest acredita que ensinar apenas a técnica não gera avanços. Para driblar esse problema, Guest apresenta aos seus alunos filosofia e questões existencialistas, pois crê que com a libertação do conformismo e da posição de descanso, os jovens músicos serão capazes de reconhecer que sabem muito e podem fazer melhor. É a aplicação da máxima filosófica que diz que o conhecimento e as respostas estão dentro de cada um de nós. E acrescenta sabiamente: “Coloco os alunos para compor, para deixar a mão boba experimentar os sons do instrumento. Errar é fundamental. É no erro que nós aprendemos mais.”
Entre outras questões, Ian fala sobre a influência da globalização no gosto musical dos jovens brasileiros:“Existem muitas possibilidades, mas ainda assim os jovens são reféns de dois ou três estilos musicais. O bom gosto tem que ser levado até eles. A maioria não conhece as maravilhas que Ary Barroso e Noel Rosa fizeram no campo da harmonia. No máximo, vão até Caetano Veloso. Isso é uma tragédia”; critica o axé music e o funk como expressões musicais mais de produtores do que de artistas: “As pessoas acreditam no que aparece na televisão. Alguns são autênticos, mas alguns são criados pelos produtores e não pelos artistas”. E defende por fim, uma mudança no ensino da música, cobrando do governo incentivo para a cultura e dando oportunidade as pessoas conhecerem expressões musicais de qualidade.
O que prende a atenção na entrevista são as falas de Guest e o que há por trás delas. Talvez, sua defesa pela criatividade e a experimentação como fontes de composições promissoras seja algo que reflete e se aplica não só na música. A era da globalização e da explosão de informação para todos os gostos, assim como da produção em série e da chance de aperfeiçoar técnicas que antes eram alcançadas com muita experimentação, deu vazão para a massificação. E nesse meio não há grandes talentos, mas uma série de execuções perfeitas, conseguidas pela aplicação de fórmulas e métodos. No plano do capitalismo, o resultado é o que interessa se pode levar ao lucro. O processo de produção tem que ser eficaz e produtivo. Tem que funcionar desse jeito. Afinal, ser criativo e tentar coisas novas custa caro. Leva tempo. Consequentemente demora a dar lucro.
Mas ainda hoje, seja falando de arte ou não, o que diferencia um profissional por sua produção valiosa não é meramente a execução perfeita de trabalhos corretamente elaborados. Mas o sentimento empenhado no serviço e acima de tudo a criatividade que produz inovação.
Voltando para a música, é impossível não se encantar com o que a turma do Beco das Garrafas criou em termos de arte. Havia uma perseguição implacável pela qualidade técnica, mas havia também uma vontade incessante de criar algo nunca antes ouvido, algo nunca antes sentido. O resultado foi a produção de uma música brasileira completamente nova, que unia criatividade, poesia e sentimento a técnica.
Segundo Ian Guest não é errado estudar música via prática acadêmica, tampouco se alcança qualidade soltando acordes de botequim em botequim. O ponto de equilíbrio para uma produção autêntica é ter consciência de que a “música deve ser a língua materna”. “Seria preciso começar a fazer música e depois estudar. O conhecimento acadêmico é um complemento da experiência espontânea.”
Academia x Botequim: dois caminhos que se confrontam em outras áreas - Parece polêmico se levado para outras áreas da sociedade, mas guarda um nova forma de ver a realidade. Se trago isso para a prática jornalística, muita gente pode pensar que não apoio o diploma. Mas não é por aí. A faculdade é importante porque apresenta teoria e um estudo analítico da profissão. A vida acadêmica tem relevância porque é o momento de fomentar discussões, pesquisas e a hora certa de pensar sobre o que os profissionais estão fazendo no mercado. Mas é fato, por outro lado, que não se aprende em bancos de universidade a produzir reportagens de fôlego, nem a se sair com perspicácia em grandes coberturas. É preciso prática e só o cotidiano da profissão proporciona isso. Nesse ponto, não há como não concordar com a concepção de Ian de que o conhecimento acadêmico é um complemento da experiência espontânea. É aquela boa velha ideia de que entre teoria e prática, tem um caminho de criatividade, experiências e muito estudo pela frente.
*Postagem sobre Música foi uma sugestão do leitor Douglas Jorge. Ian Guest e suas concepções musicais foi uma escolha feita após ler a entrevista com o músico no jornal O Imparcial do dia 05 de fevereiro de 2010.

Um comentário:

Raneilton disse...

Olá Talita bom dia! Meu nome é Raneilton, sou aluno de engenharia mecânica lá no cefet(nossa casa). Desculpe aparecer em seu blog para falar de outra coisa, mas foi a única forma que encontrei de lhe contactar.
Bom, vou direto ao assunto pois não quero tomar muito do seu tempo. Estou com um projeto de um livro que pretendo escrever, e estou com dificuldades, organizacionais principalmente, de modo que tive de dar uma pausa por conta de outros compromissos. Por outro lado, sabemos(você melhor do que eu)que assim como Da Vinci dizia que as estátuas ja existiam, ele apenas as retirava do mármore, acredito ser a mesma situação quando se trata de uma idéia para ser posta em papéis, não que esteja me comparando à ele nem à você, que são personalidades com as quais só tenho a aprender.
Por isso meu contato com você, por causa de sua experiência no assunto, conhecimento de causa, que gostaria de contar com sua parceria para a realização desse projeto que acredito ser muito bom.
Espero ter me feito entender e não ter lhe causado nenhum incômodo, acredito que você possa analisar minha proposta com carinho,de alguém que um dia esteve em meu lugar, e então possamos dar início a esse trabalho.
Agradeço imensamente sua atenção e ficarei no aguardo de seu contato, que espero acontecer em breve.
Atenciosamente,
Raneilton A.Diniz
Estou enviando meu e-mail:
raneilton@gmail.com