sexta-feira, 2 de abril de 2010

EDUCOMUNICAÇÃO EM FOCO

Educom na TV? “Tô sabendo!”

O conceito de educomunicação vai além da suposta união entre duas áreas de atuações evidenciadas pelo nome. Educomunicação é a intervenção social proporcionada pela intersecção entre a ação da comunicação e a ação educativa.

No Brasil, os estudos referentes a esse campo já chegam a 50 anos e a prática educomunicativa já é recorrente em ONG’s e em ações aplicadas pelo meio acadêmico. Contudo ainda se trata de um conceito pouco conhecido pela grande massa que se alimenta das informações veiculadas pelos grandes meios de comunicação, como televisão, rádio e mídia impressa.

Eu mesma, fui despertar para a existência da educomunicação já no quinto período da faculdade de Comunicação Social - Jornalismo e nem foi por intermédio direto da grade curricular do curso. Sou leitora assídua da revista Imprensa e acompanho quase que diariamente as novidades no Portal Imprensa. E foi lendo a edição 247 de julho de 2009, que descobri na matéria “O novo jornal da escola”, do repórter Luiz Gustavo Pacete, um conceito que chamou minha atenção em definitivo para esse campo de estudo. A matéria apresentava a educomunicação como uma forma de despertar crianças e adolescentes para a produção de jornais, revistas e vídeos gerando entendimento sobre a mídia e criando uma atmosfera de análise crítica dos meios de comunicação. Além disso, essa ação era mostrada como um meio interessante de educar para a mídia, trazendo benefícios para os novos cidadãos e para a sociedade como um todo.

Desde então passei a prestar mais atenção em como educação e jornalismo podem trabalhar juntos e comecei a pesquisar sobre esse novo - para mim- campo de atuação e sua forma de atuação na sociedade. Tanto que o escolhi como tema para monografia e tenho mergulhado em leituras a fim de desenvolver meu trabalho de conclusão de curso e levar esse estudo adiante, rumo, quem sabe a um mestrado.

O fato é que venho aguçando minha vista e apurando meus ouvidos para essa temática e sua prática. Observando o que vem sendo produzido e como podemos aos poucos distinguir educomunicação da segmentação, do jornalismo que noticia educação.

A pouco tempo descobri na TV Brasil, um programa de formato interessante na área de educação. Trata-se do “Tô Sabendo!”, apresentado pelo professor Jorge Portugal em um estúdio que reúne estudantes do ensino médio, professores e especialistas para conversar e esclarecer dúvidas sobre um dado tema que é explorado durante todo o programa. A princípio, essa descrição pode levar você a imaginar uma mesa de debates em um cenário rígido, mas não o é. O estúdio é de um programa de auditório com decoração leve e estudantes sentados na plateia em forma de escadinha ou pequena arquibancada. Apresentador e entrevistados ficam sentados em puffes coloridos próximo a uma tela em que são exibidas matérias complementares sobre o tema em pauta. Do outro lado do estúdio, artistas convidados junto com suas bandas se incumbem de alternar música ao conhecimento gerado pelo diálogo.

Há ainda a interessante inserção digamos que hipermidiática na tela que vai desde vocabulário a informações adicionais simultâneas às falas dos entrevistados. O que muito se aproxima da aplicação da máxima educomunicativa de que um sujeito autônomo se forma sabendo que um texto só tem sentido dentro do contexto. As informações na tela trazem contextualização com o tema discutido, com exemplos, conceitos e datas em uma espécie de saiba mais.

O mérito da condução do “Tô Sabendo!” pode ser dado a Jorge Portugal que em um tom empolgado na dose certa levanta questões para debate, entrevista, dialoga com os estudantes e fala para a câmera com um brilho no olhar bem característico de educadores que anseiam pelo conhecimento gerado em discussões desse nível. Portugal consegue passar para o público uma grande satisfação com o resultado conquistado a cada edição do programa. Sua inquietação, com a fala sorridente e ao mesmo tempo empolgada que olha para todos no estúdio e concilia com um gestual ansioso transmite parte dessa vontade de estar ali promovendo o debate num programa em rede nacional.
Para completar, “Tô Sabendo!” tem um site intitulado “Tô Sabendo Mais!” com questões de enem e vestibulares, vídeos dos programas, conteúdos de ciências exatas, humanas, naturais e linguagens, além de notícias e temas da atualidade para pesquisa. No site, o internauta descobre que o programa tem duas linhas de apresentação: desafio e revista. O primeiro é apresentado durante a semana e consiste em uma maratona de conhecimentos entre escolas da rede pública dos estados do Pará, Bahia e São Paulo. O segundo é o programa temático aos sábados.
Apenas quando o desafio e a competição são lançados é que o programa perde o caráter educomunicativo. Em educom não há espaço para competição e nem para a cultura de que um sujeito pode se sobressair em conhecimentos a outro. Nesse ponto, a proposta do “Tô Sabendo Desafio” se adequa a sociedade e a constante luta por uma vaga, seja ela na universidade, em um emprego ou em algum grupo social. É vendida a ideia comum de que conhecimento acumulado vale para crescer na vida social como algo que impulsiona a subir degraus na sociedade existente.

A diferença para a prática educomunicativa reside bem aí, exatamente no fim a que ela se destina, como diria Donizete Soares no artigo “Educomunicação - O que é isto?”. Já que educomunicação se destina a construção de um conhecimento proporcionado pelas ações educativa e comunicativa que leve com efeito, a uma nova forma de organização social, pautada no diálogo entre indivíduos autônomos que reconhecem não serem superiores uns aos outros, mas sim fortes quando unidos, cada um com sua habilidade na construção de uma sociedade consciente e crítica.

Não podemos tirar, entretanto, o mérito do “Tô Sabendo Revista” em levantar questões importantes na televisão brasileira e trazer estudantes para essas discussões, mas também não podemos confundir: o programa tem caráter educativo. Assim como boa parte da programação da TV Brasil. Educomunicativo seria se os estudantes, ao invés de plateia, fossem repórteres e produzissem o programa junto com a equipe do Abais Conteúdos Educativos e Produção Cultural e Irdeb, produtores do “Tô Sabendo!”. Porque nesse caso haveria além da mediação tecnológica no espaço educativo, a formação de jovens mais críticos quando estudantes aprenderiam sobre comunicação, fazendo-a.

Links
Tô Sabendo Mais - Programa “Tô Sabendo! Revista” e “Tô Sabendo! Desafio”
Portal Gens - Instituto de Educação e Cultura - leituras sobre Educomunicação e afins.

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