quarta-feira, 7 de abril de 2010

MEMÓRIA EM FOCO

1 ano sem mestre Vieira


Ainda lembro bem daquela terça-feira, 7 de abril de 2009. Uma terça-feira atribulada de um ano atribulado não é tão fácil de esquecer. Havia acordado extremamente cedo por conta de um paper de economia que tinha que escrever para ser entregue logo mais a noite. O despertador tocou cinco horas da manhã e nem perdi tempo me espreguiçando. Abri os olhos e devo tê-los arregalado, como fazemos quando nos damos conta de que o dia que virá será de muito trabalho. "É hoje!" pensei e levantei logo em seguida. Café rápido, bom dia aos pais e corri para meus papéis e livros e textos e foquei toda a minha concentração na produção do artigo sobre a história do pensamento econômico.


A televisão ligada no outro cômodo era um barulhinho distante, que não chegava a incomodar. A manhã passou sem que eu percebesse. Entretida no trabalho, lia, pensava e escrevia meu texto. Faltava muito pouco agora, arrumar algumas citações e digitar a bibliografia. Devia ser quase meio-dia, já estava me atrasando para o trabalho. Foi aí que a inconfundível música encheu o ar e me desprendeu da digitação. Era a simpática "Tem quem queira" imortalizada na voz do grande mestre Antônio Vieira e conhecida nacionalmente por integrar a trilha sonora da novela global "Da Cor do Pecado". A fala embargada de Ana Paula Spíndola, apresentadora do Feminíssima da TV Difusora, soltava coisas como estrelas, descansará agora e outras coisas que se misturavam a música e só me davam vontade de dizer "Não! Não! Não!".


Lembro que larguei o trabalho e corri até o quarto, onde papai assistia o programa. Olhei para ele e disse já com vontade de chorar "Não né, pai?". Ele me olhou surpreso e balançou a cabeça "Mestre Vieira acabou de falecer, Talita."


Foi o primeiro balde de água fria daquele ano gelado da minha vida. No fim daquele mesmo abril, perderia uma referência familiar insubstituível: minha avó.


Daquele momento para frente, lembro que não disse mais nada. Apenas voltei para o paper e chorei silenciosamente sob o computador. Pensamentos inconformados surgiam a todo instante. "Um mestre desses não pode ir embora agora. Precisamos tanto dele, de sua voz, de sua alegria de menino." Eu era encantada com o mestre Antônio Vieira desde o primeiro período da faculdade (2007), quando junto com amigos, o visitamos em sua casa no Monte Castelo e conversamos longamente com ele sobre tudo: vida, obra, opiniões, música, poesia, São Luís...


Gravamos no mesmo dia, um pequeno documentário para ser apresentado a disciplina História do Jornalismo Regional. Era uma pesquisa fascinante sobre os primeiros jornalistas da nossa história, os chamados pregoeiros. Tão fascinante que ficamos com o viés da cultura popular do mestre martelando na cabeça por um ano (2008) e no começo do ano passado, resolvemos nas férias, começar a estudar e desenvolver uma pesquisa mais apronfundada. Nossa principal fonte seria o Antônio Vieira. Tínhamos uma vontade muito grande de reunir mais material tendo por base a pesquisa de Vieira com Lopes Bogéa intitulada "Os Pregoeiros de São Luís".

Ficamos pelo caminho. E naquele momento, da notícia, naquela terça-feira de 2009, abriu um corte tão doloroso e profundo, que não consegui mais pensar em como fazer planos a longo prazo. Lembrei imediatamente de um fim de tarde algumas semanas antes, quando saindo do trabalho passei pelo mestre na Praia Grande, ele indo calmamente para a Banca do Dácio, onde todos os dias era possível vê-lo sentado, lendo ou conversando com alguém.
Nós e o mestre. Da esquerda para a direita: Saulo Galtri, Talita Guimarães (eu), Max de Medeiros, Emanuela Marques e Antônio Vieira. Foto tirada em 2007.

E pensar que fiquei olhando ele passar e perdi a voz até para lhe cumprimentar "Mestre!". Preferi o silêncio e fiquei na contemplação daquela figura tão carismática da cultura maranhense.

Aquela terça acabava para mim bem ali, ainda na metade do dia. Até porque, coloquei luto e fui trabalhar com a garganta fechada, uma vontade de chorar sendo controlada. No ônibus, olhava para cima e tentava não lembrar. "A vida continua. O legado de Seu Vieira é o que fica para nós, jovens maranhenses." Tentava me convencer de que a oportunidade de tê-lo conhecido e registrado sua fala, já era um grande presente. Mas ainda assim, no fundo, não parecia argumento suficiente.

Descobri naquele mês de abril, que as palavras que a gente não diz às pessoas, ficam mesmo pelo caminho dentro de nós, e viram uma dor que dói por muito tempo. Não queríamos apenas o registro de um mestre, uma fala importante cuja captação pudéssemos colocar mais tarde em um currículo. Queríamos produzir um trabalho consistente que levasse aos jovens, principalmente, a nossa verdadeira cultura. A fala consagrada da nossa verdadeira raiz. Uma fala simples, doce, carismática e cheia de sabedoria.

Sabemos que esses grandes mestres estão cumprindo suas missões em vida, independente de grande reconhecimento, como um trabalho de formiguinha. Contudo o que nos preocupa ainda hoje é saber também, que esses mesmos mestres estão indo embora e deixando um caminho que nossa juventude só seguirá se o conhecer com a mesma propriedade. Minha preocupação como formanda em Jornalismo era e ainda é justamente de ser esse elo. Levar às pessoas as grandes obras desses mestres e apontar que existem trabalhos de raiz e cultura e essência que constituem a memória de um povo que mais do que precisarem de continuidade, merecem ser preservados.

Mestre Antônio Vieira foi reconhecido em vida. Foi chamado de mestre e ícone em vida. Sua extensa obra foi imortalizada, registrada no Projeto "Documentação e Registro Fonográfico da Obra Musical de Antônio Vieira", patrocinado pela Vale. Mas quantos de nós tem acesso a esse material? Fica a questão...
Hoje completa um ano de falecimento do Mestre Antônio Vieira. Gilberto Gil, certa vez escreveu em uma música, "a memória pertence ao futuro". Somos todos responsáveis pelas ações de hoje que pertencerão a memória, amanhã. Para pensar...

Para ler:
Homenagem prestada ao Mestre na época de seu falecimento:
http://ensaiosemfoco.blogspot.com/2009/05/ao-mestre-com-carinho-parte-i.html

3 comentários:

MARANHARTE disse...

Belo e emocionante texto.
Parabéns.

Talita Guimarães disse...

Olá, amigos do Maranharte!

obrigada pela visita e pelo comentário. Fico feliz de recebê-los por aqui.

Mestre Vieira é alguém que não esqueço, principalmente porque me marcou muito e despertou meu carinho pela nossa cultura popular.

Abraços!

Eliza disse...

Um dia, numa parada de ônibus, eu vi essa figura simples e singela. Fiquei 5min olhando pra ver se era ele mesmo ... não sei ainda por que, mas não fui até ele,perdi a chance de conhecê-lo de mais perto ainda.Eu sou fã dele.

Inté