Não tenho outras crianças em casa além de mim. Isso significa que precisarei sair para a rua em busca de alguém para trocar minhas figurinhas repetidas. Talvez eu sente em um banco da praça e as coloque em jogo numa disputa de bafo. Ou me abaixe num canto da mesma praça e aposte tudo numa partida de bolita.
Amanhã, passarei novamente na banca, comprarei mais uns pacotinhos e a rotina se repetirá. Sei que vou chulear a cada envelope que abrir, torcendo para que as figurinhas sejam diferentes das que já tenho. Vibrarei a cada página do álbum que for completada. Será minha relíquia, meu tesouro. Serei criança.
É verdade que, na saída do trabalho, indo para casa com as figurinhas no bolso, um pouco do cacoete de engenheiro de barba no rosto seguirá comigo. Sei que serei capaz de me sentar à frente do computador e calcular a probabilidade de cada nova figurinha ser ou não repetida. Analisarei se estou acima ou abaixo da média. Montarei uma matriz da minha coleção. Afinal, trata-se de meu tesouro. Ainda assim, serei criança no lidar com os números – vou usá-los como pretexto para praticar mais a minha mão no bafo. Ganharei e perderei figurinhas na minha bolsa de valores infantil.
Tudo isso porque, ontem à noite, numa conversa, uma amiga confessou que tinha vontade de ter um álbum. De minha parte, respondi que eu mesmo só não comprava um porque não tinha mais coragem de, marmanjo, lidar com isso. A mão para o bafo estava enferrujada. Misturar-me aos piás do bairro e trocar figurinhas com eles? Mas minha roupa social, e meus compromissos de adulto, e a tal da compostura, senhores? Não, respondi eu, já passei desta idade.
Mas querem mesmo saber? Não sei resistir a certas ideias. Sou impulsivo. Coleciono manias. Como coleciono, agora, figurinhas. Morram de inveja os executivos de terno, as executivas de tailleur: amanhã, e depois, e depois, eu chegarei em casa com envelopes de figurinhas no bolso, pronto a colá-las no álbum, e farei isso comendo pipoca e vendo televisão. Decidi me permitir, serei criança. E claro: vocês aí, crianças que me leem, quem tem figurinhas para trocar comigo?
Nota do autor: sendo gaúcho, sempre há um ou outro regionalismo que permeia meus textos. Assim, bolita é o que em outros lugares se conhece por bola de gude, ou o jogo que se disputa com estas bolas; chulear é o que fazemos, por exemplo, quando está prestes a ser divulgado um resultado de loteria – torcemos pelo nosso palpite; e piá é o guri, moleque, menino, ou seja, aquele pedaço de gente que devemos levar conosco mesmo quando crescemos.
Para ler mais de Eduardo Trindade:
As Valsas Invisíveis
Cartas de Tantas Léguas
1 comentários:
Ah, os tempos de criança...
O bom das crianças é que elas não têm vergonha disso.
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