sexta-feira, 25 de junho de 2010

CRÔNICA EM FOCO

Sobre personagens que se misturam ao cenário...
por Talita Guimarães
Tenho mania de observar as pessoas ao meu redor. As que passam por mim esporadicamente, também observo. Mas para aquelas em que o convívio é diário, a observação, depois de um tempo, ganha ares de admiração silenciosa.
Costumo ver algumas pessoas além da pessoa. Enxergo personagens. Grandes personagens, por assim dizer. Pela forma como são, do jeito de andar e falar até o motivo porque andam e falam. Pra eles (personagens) não costumo trazer perguntas, apesar de ter grande vontade de entrevistá-los e achar que mereçam um perfil bem escrito em uma revista literária da vida.
Mas não, a eles reservo minha observação silenciosa que me dá o trunfo de deixá-los falar sem perguntas, apenas pelo andar e falar habitual. Até porque não quero correr o risco de incomodá-los, ou fazê-los pensar o próprio jeito e querer mudar a si mesmo.
Falo da gente que está presente em todo o canto e faz parte do cenário. Tão parte que há quem passe por eles sem reparar, sem desejar ao menos um bom dia. Não os enxerga na sua importância silenciosa, diária.
Apesar disso, tenho certeza que não são assim insignificantes a ponto nem terem voz. Pelo contrário. São aqueles que quando resolvem falar dizem em poucas palavras aquilo que gente que tagarela a vida inteira nunca vai entender ou mesmo ser capaz de dizer. E eles nem são reclamões. Nem enchem os ouvidos da gente de falas desnecessárias. Nunca me incomodam.
São aqueles que quando faltam, todo mundo percebe. Não por eles, mas pelo serviço que prestam. E isso até me entristece, porque dá sentido àquele trecho de canção* que diz assim “É na saudade que se dá valor”, mas logo na sequência surge a esperança “...mas só vamos aprender, vivendo...” e aí por último, cantamos “Tem que viver pra ver.” E eu vejo.
A verdade é que gosto bastante deles. Penso que são indispensáveis. Imagino se um dia terão vez, assumirão o papel principal. Aliás, me pergunto se já não são protagonistas da história que escrevem. Tudo depende do ponto de vista, do roteiro, do contexto. Dentro do cenário que ocupo, talvez escape à lógica e esteja fora das minhas possibilidades, dar a eles um papel/cargo de destaque. Mas na minha visão, do meu ponto de vista, são eles que protagonizam belas sequências quando tem seus minutos de dar voz a sua vez.
A todos os personagens coadjuvantes da vida real, que para mim são os atores principais em termos de paciência e sabedoria, afinal, são eles que movem as engrenagens da sociedade. Seu moço do café, senhorinha da limpeza, padeiros, jornaleiros, motoristas, cobradores, ascensoristas... Aos trabalhadores silenciosos e admiráveis, meu grande abraço.
*Trecho da canção "Bom Humor" composta por Guilherme Arantes e interpretada por Leila Pinheiro.
E para todos que assim como eu, veem nesses personagens bons motivos para escrever, vale conferir a crônica O Padeiro de Rubem Braga.

3 comentários:

Í.ta** disse...

rubem braga é maravilhoso cronista! gênio.

e tua crônica ficou lindamente perfeita escrita.

parabéns!

Talita Guimarães disse...

Olá, Ítalo!

obrigada pela visita e pelo comentário.

Sim! Rubem Braga é mesmo muito bom cronista. Lendo "O Padeiro" que tive a ideia de escrever um pouquinho sobre esses personagens.

Observo todos os dias no meu local de trabalho, um personagem em especial: um senhor muito tranquilo que serve o café.

Gosto mesmo de observar algumas dessas pessoas, que fazem parte do nosso dia-a-dia de forma tão sutil, como se fossem parte de um cenário que já estamos tão acostumados a ver que nem enxergamos mais direito.

Como diz a crônica de Braga, são alguns ninguéns. Para mim, os muitos alguéns que fazem a diferença.

Abraços, e visite-nos sempre!

May-blog disse...

ê Talita! parabéns pela crônica! muito boa.
muitos nem precebem mas todos são protagonistas de suas prórpias histórias e coadjuvantes em tantas mil outras.
muitos "desconhecidos" influenciam significativamente nossas vidas (história) assim como influenciamos as deles, isso se justifica com aquela conhecida frase da Química: "dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço", é assim que um influencia a vida do outro, através de um passo, um caminho escolhido, um atraso ou um adiantamento e assim vai.
para mim, a vida é um livro de contos e crônicas que se entrelaçam com romances, novelas, dramas, tragédias, aventuras, etc. com o título de História da Vida Real.
bjos
mayanne serra