sábado, 31 de julho de 2010

COMUNICAÇÃO EM FOCO


“- Ainda bem que sou muito calmo. Porque vocês sabem que nesses momentos difíceis, alguém precisa manter o controle da situação, procurar acalmar os outros, até porque se todo mundo ficar desestabilizado não resolve nada. - disse abrindo a geladeira, olhando para dentro e fechando em seguida. Era a décima vez que ele fazia isso em menos de cinco minutos.”
por Talita Guimarães

Estimado leitor deste blog, você consegue visualizar a cena descrita acima? Lê nas entrelinhas? Percebe que a fala do personagem parece não condizer com seu comportamento? Pois bem, passemos a outro exemplo: uma mãe diz ao filho de sete anos que o ama, mas minutos depois a criança a desobedece e apanha da mãe que tinha acabado de lhe dizer “eu te amo”. Vê a contradição entre palavras e atitudes? Prossigamos com mais um exemplo: amigos que estudaram juntos veem o contato diminuir quando vão cursar faculdades diferentes. Convivendo menos e vivendo rotinas que não se cruzam, ambos perdem contato.

Há algo em comum entre esses casos? Os personagens e as situações são a título de exemplificação, mas refletem incrível semelhança com a realidade que vemos, vivemos ou convivemos todos os dias. O que há em comum entre os três exemplos está relacionado a comunicação e ao uso da língua. Envolve comportamento também, mas está basicamente atrelado ao modo como as pessoas se comunicam, entre o querem dizer, o que dizem e como dizem.

Em “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?”, Ciro Marcondes Filho disseca filósofos, psicólogos e pensadores da comunicação e da linguagem em busca da resposta para esta intrigante questão que dá nome ao livro. Será que hoje, em meio a era da informação em que formamos a “sociedade da comunicação” conseguimos nos comunicar ou nossa vida gira em torno de palavras que não correspondem a quem somos e sentimos?

O que autor fala de mais importante nesse livro está relacionado ao fato das pessoas não se comunicarem plenamente. É com incrível fundamentação, que percorre das primeiras correntes de pensamento filosóficas até as escolas de comunicação e linguagem para contextualizar o leitor com a evolução do pensamento humano a respeito de questões existenciais e sociais, que Marcondes Filho explica o que é comunicar e como os problemas comunicacionais estão mais presentes na nossa vida do que podemos imaginar. “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?” faz pensar sobre os erros que envolvem a vivência mais simples das pessoas e como a infelicidade de todos os tipos de relacionamentos humanos pode estar intimamente ligada a forma como as pessoas se comunicam.

Primeiro que tudo gira em torno da comunicação. E o autor conceitua comunicação da forma menos formal e acadêmica possível: “um encontro feliz, o momento mágico entre duas intencionalidades”. Segundo que Ciro desconstrói logo de início que não são as mil e uma ferramentas tecnológicas de que dispomos hoje que fazem com que nos comuniquemos mais do que em outras épocas. Explica que não passam de um canal, por onde deve passar o que temos a dizer. E o problema está bem aí: quase não temos o que dizer uns aos outros, ou de outra forma, não sabemos o que dizer uns aos outros. Fato é que o autor considera que não nos comunicamos de modo a aplicar o conceito do momento feliz de entendimento mútuo, quando conseguimos falar exatamente o que queremos e somos compreendidos e o contrário, quando somos tocados pelas palavras sinceras do outro. E vai além, existem coisas indizíveis, sentimentos para os quais não há um correspondente na língua que ajude na hora de comunicarmos aos outros.

Em suma, o que “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?” argumenta baseado na história e na evolução do pensamento é que a linguagem - limitada a linguística e a palavra como etiqueta de algum conceito padronizado - que usamos como se fosse única forma de comunicação não corresponde de todo ao que de fato somos e sentimos. Lembra que existem muitas outras formas de comunicação, além daquilo que pode ser formalmente expresso. Chama a atenção para a importância de observamos a comunicação além das palavras, aquela que é expressa pelo corpo, pelas atitudes, pelo silêncio e que são capazes de falar a verdade que não conseguimos por em palavras.

Recorrendo a Nietzsche, Ciro Marcondes Filho lembra que o homem consegue escapar as limitações da língua quando usa a palavra por meio da arte. Nesse caso a poesia é um bom exemplo, pois desloca a palavra do sentido convencional para exprimir sentimentos, que são, segundo o livro, uma das coisas que o homem comum tem dificuldade em comunicar. Ora, você já parou para pensar no porque da poesia ser tão genial? Uma das respostas possíveis é que poetas são pessoas mais sensíveis a transposição do que sentem em palavras e por isso aproximam-se do comunicar pleno quando conseguem tocar outras pessoas através da chamada “música afetiva” gerada pela poesia.

Em “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?”, Ciro Marcondes Filho expõe ainda suas teses que confirmam a ausência da comunicação plena entre as pessoas e levanta muitas questões esclarecedoras sobre comunicar. Mais do que isso, o livro mostra a comunicação como uma forma de entender o outro a partir de uma série de observações que vão além da palavra, além do que dizemos. Lembra que comunicamos o tempo todo e devemos estar atentos às outras pessoas e a todo contexto que nos envolve para entendermos e sermos entendidos finalmente, de forma feliz.


MARCONDES FILHO, Ciro. Até que ponto, de fato, nos comunicamos? 2ª ed. Paulus, 2007.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

AGENDA EM FOCO


Quinta e Sexta de movimento cultural no IFMA

Cinema, música e teatro. Nessa ordem está a agenda de atividades promovidas pelo Instituto Federal do Maranhão para esta quinta-feira (15) e sexta-feira (16) desta semana. Tratam-se do Cine Filosófico, Sarau Musical e II Mostra de Teatro do Oprimido do Maranhão. Confira abaixo os horários e locais de cada evento:

1. CINE FILOSÓFICO

Acontece excepcionalmente nesta quinta-feira (15), a partir das 18h30 no Campus Monte Castelo do Instituto Federal do Maranhão, a exibição seguida de comentários e debate filosófico do filme “Luz de Inverno”(1962) do diretor sueco Ingmar Bergman. A produção, realizada no apogeu da Guerra Fria, é um convite para discutir a fé. Um pescador vai à Igreja buscando palavras de conforto e consolo do pastor. O motivo: leu no jornal que a China possui a bomba atômica e pretende usá-la, por isso procura a igreja a fim de fortalecer sua fé. No entanto encontra o pastor em plena crise de fé, também temeroso pelo apocalipse nuclear... Para saber o que sucede, vale conferir o Cine Filosófico. A entrada é gratuita.

2. SARAU MUSICAL

O horário de almoço da sexta-feira (16) no restaurante do Campus Monte Castelo será regado a muita música. Trata-se de mais uma edição do Sarau Musical, que reúne a partir das 12h30, apresentações musicais de alunos do IFMA a participação especial do cantor e compositor maranhense Jô Santos. Música Popular Brasileira, Bossa Nova e Rock Nacional estarão no repertório do Sarau Musical desta sexta, além de canções em homenagem aos 20 anos de falecimento do ícone da música brasileira Cazuza.

3. II MOSTRA DE TEATRO DO OPRIMIDO DO MARANHÃO

Para fechar a sexta-feira, o Campus Centro Histórico do IFMA sedia a II Mostra de Teatro do Oprimido do Maranhão. A programação começa às 15h30 no campus do IFMA localizado na Rua Afonso Pena, nº 174, Centro (em frente a sede do Jornal Pequeno).

A segunda edição do evento contará com a participação de grupos de teatro, apresentações culturais, exposição de quadros produzidos durante a Oficina de Teatro do Oprimido - Estética e o lançamento do livro A Estética do Oprimido de Augusto Boal, com a presença do curinga do Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro, Cláudio Rocha.

O evento traz o tema “Viva a cultura e não a opressão” e tem entrada franca.

terça-feira, 13 de julho de 2010

VIDA EM FOCO


Blogueira sangue-bom

por Talita Guimarães

Dizem que a família exerce influência sobre a formação dos indivíduos. Boa ou má, dificilmente alguém escapa ileso. Tenho sorte de poder, do alto dos meus quase 21 anos, dizer que dentro de casa aprendi a ser quem sou com exemplos realmente positivos. Influência? Quem sabe... Mas no meio disso tudo, uma coisa, hoje é inegável e parece-me mesmo inevitável. Tá no sangue.

Desde sempre, aprendi que fazer o bem pelo próximo é uma questão que ultrapassa optar por ser bonzinho e seguir mandamentos de uma igreja ou religião. É uma atitude que todo mundo aprende, mas poucos a escolhem para si. É mesmo a partir da opção individual, que se muda o mundo para melhor. Sim, se cada um escolher fazer a sua parte na história, é possível. E muito, muito simples.

Cresci vendo meu pai se dirigir ao hemocentro de São Luís-MA para doar sangue. Voluntariamente ou para atender algum pedido do Hemomar ou de algum conhecido que estivesse precisando no momento. Nunca cheguei a ir com ele. Desconhecia os procedimentos, mas sabia, por causa de uma palavrinha, que o que ele ía fazer era pelo bem de alguém, que às vezes, pouco conhecíamos. Doar.

Ora, quem doa o que tem, dá o que o outro mais precisa sem nunca pensar em querer algo em troca. Assim eu pensava. É um ato de desprendimento. Raridade em um mundo que ninguém lembra desse “o” que diferencia dar de doar. Ok, quase ninguém.

Curiosa com a atitude de papai, um dia quis saber mais sobre doação. E aí entre explicações sobre tipagens sanguíneas, procedimentos e a escolha por ser doador, descobri que aquilo que papai tinha de diferente, precioso, estava mesmo no sangue. Ele é O+. Doador universal. Super-heroi. Influência pra lá de positiva.

Continuei crescendo e tenho imenso orgulho de aprender o que é bom dentro de casa. Vivendo ao lado do exemplo. Um dia, seria igual.

Até que esse dia chegou. Sexta-feira, 9 de julho de 2010. Acordei cedo e sorri por saber que era dia. Tinha sol. Poderia cair chuva. O dia seria bom. A primeira semana de férias havia passado. Quem esteve perto soube que eu não parei de falar, pular e sorrir riso de criança. Feliz da vida só com a ideia. “Nunca vi alguém tão empolgado com isso”, papai comentou curioso.

Saímos de casa e seguimos até o bairro da Jordoa, onde está a sede da Supervisão de Hematologia e Hemoterapia do Maranhão - Hemomar. Curiosamente, bairro em que papai nasceu e viveu toda a infância e parte da adolescência. Lugar cheio de história familiar.

Já tinha buscado informação. Segui as recomendações exigidas e resolvi ir voluntariamente. Estava tranquila, certa de minha escolha. Para constatar o quanto é importante, logo na entrada do Hemomar conheci alguém que precisava. Parecia aguardar por mim. Uma senhora, que não por acaso, tinha o mesmo nome de minha bisavó paterna. Maria do Espírito Santo. E nem precisou pedir duas vezes. A história da minha primeira ida voluntária ao posto de doação de sangue já estava rendendo um relato cheio de significado.

Entrei com o pé direito imaginando que daria sorte. A atendente sorriu ao receber minha identidade e ouvir meu pai falar antes de mim “Ela veio doar pela primeira vez. Voluntária”. Mas a essa altura eu já tinha pegado com dona Maria, na porta, o encaminhamento que precisava. Era para ela, minha doação. E isso fez diferença no cadastro.

Nem deu tempo de sentar na sala de espera. A enfermeira na segunda porta à esquerda já chamava meu nome completo para a sala de exames iniciais. Um pequeno furo no dedo para o teste de anemia, em seguida subir a balança para verificar meu peso e por fim aferir a pressão arterial. Tudo certo, retornei para o saguão de espera e em seguida fui chamada para outra sala, onde respondi com franqueza às perguntas feitas por uma médica sobre hábitos de vida e comportamento. Tudo certo. Só faltava agora a coleta principal. Por conta da minha pressão, a médica solicitou que eu fizesse o lanche servido no hemocentro antes e depois da coleta. Segui para a lanchonete, onde serviam cachorro-quente com tempero leve e suco de frutas. Depois do lanche, cheguei a sala de coleta, entregando novamente minha identidade e recebendo a caixa com os materiais que seriam usados no procedimento. Junto a isso, recebemos uma ficha chamada de auto-exclusão que pede novamente que sejamos francos com as respostas referentes aos hábitos de vida que levamos, pois o ato de doar sangue envolve uma responsabilidade grande, desde o momento em que você se submete a retirada de material até o cuidado com a vida de quem poderá recebê-lo. Sendo assim, responder a essa última ficha, que é feito em sigilo e a resposta colocada em uma urna dentro de uma cabine isolada é tão sério quanto a própria doação. Tanto que li mais de uma vez a pergunta para ter certeza de que estava respondendo ao “sim” certo. Sim, eu tinha certeza de que meu sangue poderia ser recebido por outra pessoa.

Pois bem, depois disso, foi só me acomodar na larga cadeira de doação e deixar que a enfermeira, Dona Júlia, fizesse seu trabalho. Já pensando no quanto esse momento era importante pra mim e para tantas outras pessoas, como dona Maria, que me aguardava no saguão de espera, conversei com a assistente social da Hemomar sobre a possibilidade de fazer algumas fotos e escrever esta postagem. Laís, a assistente, se colocou de prontidão e abriu um sorriso quase ou tão largo quanto o que eu tinha no rosto há uma semana. Como outras pessoas não podem entrar na sala de coleta, meu pai não pode me acompanhar, mas a Laís se ofereceu para fotografar e se pôs a disposição para a realização de matérias que possam divulgar ainda mais o procedimento de doação de sangue e sua importância para tantas pessoas.

Vinte dias após a coleta, sai o resultado da doação. É quando ficamos sabendo se o material coletado realmente está apto e se há compatibilidade com o do receptor para o qual você destinou.

Meu desejo, em verdade, é que a cirurgia de Dona Maria seja um sucesso, sem necessidade de transfusão ou outro procedimento dessa natureza. Em todo o caso, se ela precisar, ou qualquer outro, próximo ou não, tiver necessidade, a vida que posso doar estará a disposição.

Talita Guimarães Santos Sousa - eu!
20 anos. 54 kg. Pressão arterial 10 por 6. A+
Doadora


Bom, aprendi em casa que formação é importante. Com minha profissão, um prefixo veio somar. Informação é tudo. Entenda abaixo como é todo o procedimento que envolve a doação de sangue:

1. O ser humano possui em média, circulando nas veias, cinco litros de sangue. Na doação, a coleta não ultrapassa 450ml de material. O organismo repõe o volume de sangue doado em 24h (a parte líquida). Já as células, em algumas semanas.

2. Todo o sangue doado é separado em diferentes componentes (como hemácias, plaquetas, plasma e outros), e assim poderá beneficiar mais de um paciente com apenas uma doação. Os componentes, são distribuídos para os hospitais e clínicas da cidade para atender casos de emergência, pacientes internados e pessoas com doenças hematológicas.

3. Segurança: Em cada doação, são realizados exames que incluem pesquisa para hepatite B e C, doença de Chagas, Aids, Sífilis e HTLV I/II. A realização desses exames na pessoa que se dispõe a doar sangue assegura a proteção do doador, assim como o cuidado com o material e com o receptor. É critério determinado por Normas Técnicas do Ministério da Saúde.

4. Assim, o item principal para ser um doador, é o cultivo de hábitos de vida saudáveis. Os requisitos básicos para doar sangue são:

- Ter entre 18 e 65 anos;
- Pesar acima de 50kg;
- Dormir bem nas últimas 24h que antecedem a coleta de sangue;
- Não estar em jejum;
- Não ingerir bebidas alcoólicas nas 12h antes da doação;
- Evitar fumar por pelo menos 2h antes da doação;
- Evitar alimentos gordurosos;
- Não ter se exposto a situações de risco acrescido para aquisição de doenças transmissíveis pelo sangue, como: permanência em prisões, uso de drogas injetáveis e vida sexual promíscua.

5. No dia da coleta, é indispensável a apresentação de documento oficial com foto, expedido por órgão público.

Quem se enquadra nesses itens e deseja doar sangue, pode dirigir-se tranquilamente ao posto mais próximo de coleta, voluntariamente. O processo todo não leva mais de uma hora, do cadastro na recepção até a coleta, o lanche e a liberação para ir para casa. Vale lembrar, ainda, que o procedimento dá direito a atestado médico que pode ser encaminhado ao trabalho.

Negrito
Contatos importantes em São Luís-MA:
SUPERVISÃO DE HEMATOLOGIA E HEMOTERAPIA DO MARANHÃO
Rua 5 de Janeiro, S/N. Jordoa. São Luís - MA. Cep.: 65040-450
Telefones: (98) 3216 1100 ou 3216 1134
Para mais informações sobre doação de sangue, DISQUE SANGUE 0800 280 6565

domingo, 11 de julho de 2010

CRÔNICA EM FOCO


“Passeio pela lembrança de um lugar”*
por Talita Guimarães

Era criança. 11 anos. Criança.

Aquela praça era bem a praça de sonho que ela costumava sonhar. Muitas árvores, um jardim de infância municipal no centro da praça e um entorno de vendedores de flores. Uma banca para comprar figurinhas e sorrir para o banqueiro desejando um bom dia. Um quiosque de sorvete para adoçar a saída da escola. Um bom lugar para passear. Um bom lugar para olhar nem que fosse de passagem, por alguma das ruas transversais: Santa Rita de um lado, Norte do outro, Mocambo e Inveja na perpendicular. Era pela Rua da Inveja que ela subia, quase todos os dias, de mãos dadas com o pai a caminho da escola. Quebravam pela Rua do Mocambo e davam a volta na quadra da escola só pra passar pela praça. Aliás, nunca entendeu que critério era usado para dar nomes a ruas. Mas isso nunca importou quando sempre podia chegar a praça, independente da passagem. Afinal, a praça era para permanecer e a rua para passar.
A escola ficava na Rua de Santa Rita. “Uma casa antiga com pé de flor na porta...”**. Parecia casa de boneca ou de avó. Talvez um dia tivesse mesmo abrigado vó e boneca. Mas agora era escola. Morada de crianças, livros e flores.
Eram tardes boas, as que se passavam ali. De segunda a sexta, tardes sem igual. Era feliz.
O tempo passou e levou aquelas tardes no vento. Por algum motivo o prédio já não pertencia mais a escola. As flores ficaram sós. Crianças e livros foram se alojar na rua vizinha. Norte que ficava ao leste. Ainda era perto da praça. E a casa nova também tinha ares de vó e boneca. Mas não tinha flores. Um orelhão telefônico era a decoração à porta. Em todo o caso, por aquela rua, a saída das aulas estava mais perto do sorvete. Continuou feliz.
Em um dia de muita chuva, a escada nova, molhada, levou ao escorregão. Pé torcido, lágrimas e um rosto vermelho, manchado. Quem socorreu foi o professor de português, que a pegou no colo e levou até a coordenação, onde também fez coro a quem tentava acalmá-la.
Ligaram para casa. Alguém devia vir buscá-la. Não se assiste aula de pé torcido. Passado o susto, não a dorzinha incômoda, aguardou pelo pai que não demorou a chegar.
Saíram pela rua. Uniforme, rosto ainda manchado, um pé calçado e outro descalço. Meia branca enrolada dentro do tênis preto que ía sendo balançado pela mãozinha de 11 anos. A outra segurava a mão paterna. Seguiu mancando até alcançar a calçada gelada da praça.
Uma ideia iluminou a tarde nublada. “Flocos?”. Era o preto no branco preferido daqueles 11 anos. Só porque era da praça.
Sentou-se então, num banquinho de madeira próximo. Verniz gasto. Pé descalço no parelelepídedo gelado. Sorvete na mão, lembrou que era feliz.
Aquela era a praça de sonho. Pelo menos ao escolherem o nome, haviam acertado. A placa azul indicava: Praça da Alegria.

*Crônica escrita para o amigo colorado Eduardo Trindade como prêmio pelo palpite certo no bolão do jogo Brasil 3 x 0 Chile. Bolão literário...
**Trecho da canção “As moças” de Zé Renato e Juca Filho.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

INTERCOM EM FOCO - Mesa-redonda

Mesas-redondas discutem cidadania, desenvolvimento regional e educomunicação voltada para a juventude

O regional nordeste da Intercom 2010 realizou nas manhãs dos dias 11 e 12 de junho, cinco mesas-redondas e quatro painéis com temas concernentes a comunicação e juventude. Ensaios em Foco acompanhou duas mesas-redondas sobre educomunicação e educação tutorial e ainda um painel sobre televisão regional e a Jornada Beltraniana sobre os estudos de Luiz Beltrão na Paraíba. Confira como foi a discussão em uma das mesas do dia 11:
“Comunicação e juventude: questões para a cidadania e o desenvolvimento regional”

Na manhã do dia 11 de junho, a mesa-redonda “Comunicação e Juventude: questões para a cidadania e o desenvolvimento regional” foi formada pelos professores Alexandre Almeida (UECE), Juciano Lacerda (UFRN), Maria Salett Tauk Santos (UFRPE) e Luiz Custódio da Silva (UEPB). E discutiu como reconhecer trabalhos de protagonismo juvenil partindo dos conceitos de desenvolvimento e cidadania passando por ações do terceiro setor, do governo e das pesquisas realizadas pelas universidades.

Alexandre Almeida problematizou os conceitos de cidadania e desenvolvimento, lembrando que “desenvolvimento inclui realidades distintas e às vezes excludentes e remete a relações desiguais de poder”. Para o pesquisador da Universidade Estadual do Ceará, a cultura nesse contexto também deve ser lida como comunicação e para trabalhar com juventude é necessário e imprescindível questionar os conceitos, reconstruindo-os.

O professor falou ainda da cidadania como participação política que pode decorrer tanto em construção coletiva como individualista, que é onde entra a situação de protagonismo, com o civismo voluntário.

Ainda dentro da problematização do protagonismo juvenil, Alexandre Almeida falou do jovem como ator social, citando os trabalhos de Regina Magalhães de Sousa e expôs o paradoxo existente na ação aparentemente isolada desse jovem protagonista, que acontece quando ele deixa de trabalhar como sujeito da ação para se tornar objeto. “É um simulacro. Há uma simulação do jovem na participação política”. Tudo isso para concluir que existem casos em que a intervenção social que deveria ser provocada pelo protagonismo juvenil fica pela metade, pois um fato recorrente em todo o Brasil, segundo Almeida é que muitas ações voltadas a esses jovens tem como finalidade dar subsídios para que uma vez capitalizada, a juventude se desenvolva para entrar na sociedade de consumo.

Quando a fala é passada a Juciano Lacerda da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a mesa se volta à análise feita em campo em torno da juventude e a inclusão digital proporcionada pelos Telecentros Paranavegar de Curitiba, projeto de iniciativa pública que através de acessos públicos e gratuitos visam a inclusão digital da população do Paraná.

No que diz respeito a juventude que teve acesso ao programa, Juciano analisa as relações de experiência digital e cultura midiática, considerando a ambiência nos telecentros -predominantemente conversacional, o perfil dos frequentadores - entre 10 e 20 anos, sendo 80% de estudantes do ensino médio - e as relações com a possibilidade de protagonismo, que segundo a pesquisa está mais próximo da inclusão social, como quando um jovem utiliza o telecentro para submeter um currículo por e-mail, por exemplo.
Um fator relevante na análise de Lacerda trata da forma como os jovens usuários dos telecentros burlam a proposta oficial do espaço e recriam o ambiente de acordo com o uso que lhes convém. O pesquisador aponta esse fato não como crime, mas como ponto em que é preciso rever a elaboração de projetos voltados para a juventude. Segundo a observação de Lacerda, inicialmente, nos telecentros, as ferramentas comunicacionais são bloqueadas, mas logo os usuários encontram meios de burlar o sistema e ter acesso. Para os jovens entrevistados, redes como orkut, msn, e-mails e ambientes de jogos tem suas utilidades. O e-mail é usado para arquivamento de dados, pois muitos não tem pen drive. Já os jogos são ambientes de interação que não chegam a atrapalhar o espaço de convivência real. “Há uma racionalidade no uso das ferramentas. Eles conseguem articular com outras vivências do bairro”, observa Juciano Lacerda que cita o exemplo da menina paranaense que mora com uma tia e mantém contato com os pais, divorciados e residentes em outros estados, através do orkut, onde a menina posta fotos e visita a página dos pais no site de relacionamentos.

Além disso, o pesquisador aponta um processo de construção de significados, quando observa que os jovens usuários acessam jogos e vídeos sem áudio e criam seus próprios sons com a boca. “Criam estratégias para quebrar proibições, recriam significados”, explica.

Após toda essa análise do ambiente dos telecentros, Juciano Lacerda conclui que a política direcionada para a juventude não se adequa ao uso que os jovens realmente anseiam e precisam. “A política produzida pra eles é contraditória, por isso havia uma apropriação do telecentro tanto virtual quanto física para burlar as regras. Era uma ocupação estratégica”, explica Lacerda, acrescentando ainda que a juventude observada não fazia nada de errado e que as políticas públicas é que precisam ser revistas em sua elaboração para se aproximar da realidade de seu público-alvo evitando assim, que a adequação do público ao serviço ocorra por meio de uma quebra de regras.

Ainda dentro do contexto de políticas de inclusão digital, Maria Sallet Tauk Santos, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, relata a experiência do projeto “Juventude Rural e a cibercultura: a inclusão digital ainda é um sonho” quando traça a análise realista dos programas de inclusão e o pouco resultado obtido pelos investimentos em tecnologia. Para a professora, o problema é estrutural e vem desde o conhecimento prévio das senhas infotécnicas. Com argumentação baseada em autores como Trivinho e Barbero, Sallet analisa capacidade econômica e cognitiva do público para receber os programas de inclusão e se desenvolver com o auxílio deles.

Nesse sentido mostra o estudo realizado dentro do Programa IPA Conectado, que é um projeto de inclusão digital realizado pelo Instituto Agronômico de Pernambuco. Sallet comenta o perfil da juventude observada durante o projeto e destaca a necessidade de um acompanhamento em projetos de inclusão digital além das práticas educomunicativas.

Prof.ª Maria Sallet Tauk Santos apresenta a pesquisa realizada com os jovens do programa IPA Conectado

Após a exposição de cada pesquisador na mesa, a discussão se volta a questão do protagonismo. Alexandre Almeida comenta que as ações do terceiro setor não podem ser classificadas de uma única forma, afinal trata-se de um campo de ação muito amplo e diferenciado. Assim, lembra que protagonismo propõe uma ação individualizada, contraponto da construção coletiva em prol de uma sociedade mais justa e igualitária. Afinal, ser protagonista pressupõe ter ações próprias, regendo assim as próprias atitudes, ainda que considerando o ambiente em que vive.

Juciano Lacerda já comenta a existência de táticas que ressignificam a ideia de protagonismo e considera o espaço do congresso Intercom como um lugar de debate para a elaboração simbólica de novos conceitos e estratégias. Lacerda chama a atenção, pegando gancho da pesquisa, e da observação gerada pela exposição dos estudos de Maria Sallet junto ao IPA Conectado, que as políticas de inclusão digital são desenvolvidas sem consideração prévia da experiência/vivência do usuário a quem são destinadas.

Assim, a professora Sallet comenta que não só reação e produção de sentidos devem ser levados em conta na elaboração de políticas, mas também e principalmente a construção de conteúdos. E finaliza com um olhar esperançoso dos estudos, considerando o termo “ciber”, dentro das possibilidades oferecidas e as que podem ser desenvolvidas com políticas públicas condizentes com a realidade, como um “maravilhoso mundo novo”.

domingo, 4 de julho de 2010

INTERCOM EM FOCO

Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação debate cultura e juventude em Campina Grande-PB
por Talita Guimarães
Mais do que um congresso que reuniu estudantes, profissionais, professores e pesquisadores em comunicação, o Intercom Nordeste 2010 foi um evento que discutiu com seriedade e conteúdo propostas, experiências e estratégias de desenvolvimento de ambientes de comunicação voltados para juventude e a promoção da cidadania dentro de comunidades do nordeste.

Solenidade de abertura do Intercom Nordeste 2010 no Centro de Convenções Raymundo Asfora em Campina Grande-PB
Com o tema “Comunicação, Cultura e Juventude”, o XII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, realizado entre os dias 10 e 12 de junho em Campina Grande-PB, promoveu através de mesas-redondas, painéis, oficinas e exposição de artigos científicos, uma ampla discussão em torno do papel da comunicação como agente de transformação social. De educomunicação a comunicação comunitária, passando por folkcomunicação e tecnologias de interação, o Intercom discutiu avidamente experiências e estudos realizados pelo nordeste e levantou questões que ainda merecem ser visitadas para que a comunicação chegue a todos da melhor forma possível.
A solenidade de abertura, realizada na noite do dia 10 de junho, prestou homenagem a um dos pesquisadores de maior referência na América Latina, o Professor Dr. José Marques de Melo. A Universidade Estadual de Campina Grande, sede da 12º edição do Intercom Nordeste, concedeu-lhe na ocasião (foto), através do vice-reitor Aldo Maciel, o título de Professor Honoris Causa.
A conferência de abertura, logo em seguida, contou com o relato da experiência de Ismar de Oliveira Soares, professor e fundador do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da Escola de Comunicação e Artes de São Paulo, ECA/USP. Com o tema “Educomunicação: pressupostos epistemológicos e áreas de atuação”, Ismar chamou a atenção para o campo de estudo que tem provocado mudanças positivas em termos de criação de ambientes de comunicação em escolas, com a aproximação da juventude da cidadania por meio de atividades de leitura crítica da mídia. Para o professor, considerado referência nacional nos estudos voltados para educom, ler criticamente a mídia é ser capaz de também comunicar com consciência e responsabilidade e nesse sentido, Ismar reafirmou o compromisso do Intercom com o ensino de comunicação em todo o Brasil.

Segundo o conferencista (foto), existe uma área na educação brasileira em que o processo ensino-aprendizagem é falho, não cumpre suas metas e é nesse ponto, quando estudantes não são levados a pensar criticamente e desconhecem questões que envolvem cidadania crescendo incapazes de auxiliar o desenvolvimento positivo da sociedade, que o governo e o sistema educacional precisam interferir. “Inserir educação para mídia nos currículos escolares é uma das ações que ajudam a mudar esse cenário” e citou o exemplo da França, em que educomunicação é disciplina nas escolas regulares.

Dentro do contexto do uso das tecnologias para melhorar o rendimento em aulas, Ismar de Oliveira Soares é taxativo “A tecnologia é muleta, apoio, ajudante no processo. O professor que deve motivar o aluno com o suporte da tecnologia”. Segundo Ismar, o abandono escolar não é motivado pela ausência de recursos tecnológicos em sala de aula. “Os investimentos nas tecnologias da comunicação ainda não estão dando resultados porque as pesquisas feitas com alunos apontam que o uso da tecnologia em sala de aula não motiva porque não traz novidade”, afirma lembrando que a tecnologia é ferramenta e não substitui o conteúdo e o domínio das aulas, que deve estar a cargo do professor em ter sensibilidade para perceber as experiências do corpo discente e a partir de então aproximá-los do contexto utilizando uma linguagem que os atraia, desperte o interesse.

Nesse sentido é preciso conhecer os alunos para convidá-los a aprender mais partindo da própria linguagem deles. É uma relação de aproximação e a comunicação possui grande potencial em aproximar. Tanto que Ismar cita como exemplo o caso bem sucedido dos trabalhos educomunicativos realizados em Nova Olinda, no Ceará, onde cerca de 80 jovens produzem material radiofônico dentro de uma casa de cultura, promovendo assim a cultura local e exercendo papel de agentes multiplicadores de arte. Já em São Paulo, a prefeitura aprovou a lei municipal que insere práticas de educomunicação nos currículos escolares.

“Quem gosta do meu desenho, gosta de mim”

Encerrando a conferência de abertura, Ismar Soares esquematizou para o público as gerações de estudiosos da educomunicação na América Latina, falando dos trabalhos de Juan Diaz Bordenave, Mário Kaplun e Paulo Freire.

Para reafirmar a necessidade do diálogo existente na sociedade atual, Soares comentou a importância de se criar condições para a conversa. Exemplificou com o trabalho da psiquiatra Nice da Silveira, que trabalhou produções artísticas com deficientes mentais e promoveu o diálogo entre estes novos artistas, suas obras e o público. O resultado desse trabalho foi o relato de um dos pacientes, que participou de oficinas de pintura, e expôs sua satisfação dizendo “Quem gosta do meu desenho, gosta de mim”.

Ensaios em Foco trará nas próximas postagens, mais um pouco do que foi debatido em mesas-redondas, oficinas e painéis do Intercom Nordeste 2010.