sábado, 31 de julho de 2010

COMUNICAÇÃO EM FOCO


“- Ainda bem que sou muito calmo. Porque vocês sabem que nesses momentos difíceis, alguém precisa manter o controle da situação, procurar acalmar os outros, até porque se todo mundo ficar desestabilizado não resolve nada. - disse abrindo a geladeira, olhando para dentro e fechando em seguida. Era a décima vez que ele fazia isso em menos de cinco minutos.”
por Talita Guimarães

Estimado leitor deste blog, você consegue visualizar a cena descrita acima? Lê nas entrelinhas? Percebe que a fala do personagem parece não condizer com seu comportamento? Pois bem, passemos a outro exemplo: uma mãe diz ao filho de sete anos que o ama, mas minutos depois a criança a desobedece e apanha da mãe que tinha acabado de lhe dizer “eu te amo”. Vê a contradição entre palavras e atitudes? Prossigamos com mais um exemplo: amigos que estudaram juntos veem o contato diminuir quando vão cursar faculdades diferentes. Convivendo menos e vivendo rotinas que não se cruzam, ambos perdem contato.

Há algo em comum entre esses casos? Os personagens e as situações são a título de exemplificação, mas refletem incrível semelhança com a realidade que vemos, vivemos ou convivemos todos os dias. O que há em comum entre os três exemplos está relacionado a comunicação e ao uso da língua. Envolve comportamento também, mas está basicamente atrelado ao modo como as pessoas se comunicam, entre o querem dizer, o que dizem e como dizem.

Em “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?”, Ciro Marcondes Filho disseca filósofos, psicólogos e pensadores da comunicação e da linguagem em busca da resposta para esta intrigante questão que dá nome ao livro. Será que hoje, em meio a era da informação em que formamos a “sociedade da comunicação” conseguimos nos comunicar ou nossa vida gira em torno de palavras que não correspondem a quem somos e sentimos?

O que autor fala de mais importante nesse livro está relacionado ao fato das pessoas não se comunicarem plenamente. É com incrível fundamentação, que percorre das primeiras correntes de pensamento filosóficas até as escolas de comunicação e linguagem para contextualizar o leitor com a evolução do pensamento humano a respeito de questões existenciais e sociais, que Marcondes Filho explica o que é comunicar e como os problemas comunicacionais estão mais presentes na nossa vida do que podemos imaginar. “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?” faz pensar sobre os erros que envolvem a vivência mais simples das pessoas e como a infelicidade de todos os tipos de relacionamentos humanos pode estar intimamente ligada a forma como as pessoas se comunicam.

Primeiro que tudo gira em torno da comunicação. E o autor conceitua comunicação da forma menos formal e acadêmica possível: “um encontro feliz, o momento mágico entre duas intencionalidades”. Segundo que Ciro desconstrói logo de início que não são as mil e uma ferramentas tecnológicas de que dispomos hoje que fazem com que nos comuniquemos mais do que em outras épocas. Explica que não passam de um canal, por onde deve passar o que temos a dizer. E o problema está bem aí: quase não temos o que dizer uns aos outros, ou de outra forma, não sabemos o que dizer uns aos outros. Fato é que o autor considera que não nos comunicamos de modo a aplicar o conceito do momento feliz de entendimento mútuo, quando conseguimos falar exatamente o que queremos e somos compreendidos e o contrário, quando somos tocados pelas palavras sinceras do outro. E vai além, existem coisas indizíveis, sentimentos para os quais não há um correspondente na língua que ajude na hora de comunicarmos aos outros.

Em suma, o que “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?” argumenta baseado na história e na evolução do pensamento é que a linguagem - limitada a linguística e a palavra como etiqueta de algum conceito padronizado - que usamos como se fosse única forma de comunicação não corresponde de todo ao que de fato somos e sentimos. Lembra que existem muitas outras formas de comunicação, além daquilo que pode ser formalmente expresso. Chama a atenção para a importância de observamos a comunicação além das palavras, aquela que é expressa pelo corpo, pelas atitudes, pelo silêncio e que são capazes de falar a verdade que não conseguimos por em palavras.

Recorrendo a Nietzsche, Ciro Marcondes Filho lembra que o homem consegue escapar as limitações da língua quando usa a palavra por meio da arte. Nesse caso a poesia é um bom exemplo, pois desloca a palavra do sentido convencional para exprimir sentimentos, que são, segundo o livro, uma das coisas que o homem comum tem dificuldade em comunicar. Ora, você já parou para pensar no porque da poesia ser tão genial? Uma das respostas possíveis é que poetas são pessoas mais sensíveis a transposição do que sentem em palavras e por isso aproximam-se do comunicar pleno quando conseguem tocar outras pessoas através da chamada “música afetiva” gerada pela poesia.

Em “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?”, Ciro Marcondes Filho expõe ainda suas teses que confirmam a ausência da comunicação plena entre as pessoas e levanta muitas questões esclarecedoras sobre comunicar. Mais do que isso, o livro mostra a comunicação como uma forma de entender o outro a partir de uma série de observações que vão além da palavra, além do que dizemos. Lembra que comunicamos o tempo todo e devemos estar atentos às outras pessoas e a todo contexto que nos envolve para entendermos e sermos entendidos finalmente, de forma feliz.


MARCONDES FILHO, Ciro. Até que ponto, de fato, nos comunicamos? 2ª ed. Paulus, 2007.

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