domingo, 11 de julho de 2010

CRÔNICA EM FOCO


“Passeio pela lembrança de um lugar”*
por Talita Guimarães

Era criança. 11 anos. Criança.

Aquela praça era bem a praça de sonho que ela costumava sonhar. Muitas árvores, um jardim de infância municipal no centro da praça e um entorno de vendedores de flores. Uma banca para comprar figurinhas e sorrir para o banqueiro desejando um bom dia. Um quiosque de sorvete para adoçar a saída da escola. Um bom lugar para passear. Um bom lugar para olhar nem que fosse de passagem, por alguma das ruas transversais: Santa Rita de um lado, Norte do outro, Mocambo e Inveja na perpendicular. Era pela Rua da Inveja que ela subia, quase todos os dias, de mãos dadas com o pai a caminho da escola. Quebravam pela Rua do Mocambo e davam a volta na quadra da escola só pra passar pela praça. Aliás, nunca entendeu que critério era usado para dar nomes a ruas. Mas isso nunca importou quando sempre podia chegar a praça, independente da passagem. Afinal, a praça era para permanecer e a rua para passar.
A escola ficava na Rua de Santa Rita. “Uma casa antiga com pé de flor na porta...”**. Parecia casa de boneca ou de avó. Talvez um dia tivesse mesmo abrigado vó e boneca. Mas agora era escola. Morada de crianças, livros e flores.
Eram tardes boas, as que se passavam ali. De segunda a sexta, tardes sem igual. Era feliz.
O tempo passou e levou aquelas tardes no vento. Por algum motivo o prédio já não pertencia mais a escola. As flores ficaram sós. Crianças e livros foram se alojar na rua vizinha. Norte que ficava ao leste. Ainda era perto da praça. E a casa nova também tinha ares de vó e boneca. Mas não tinha flores. Um orelhão telefônico era a decoração à porta. Em todo o caso, por aquela rua, a saída das aulas estava mais perto do sorvete. Continuou feliz.
Em um dia de muita chuva, a escada nova, molhada, levou ao escorregão. Pé torcido, lágrimas e um rosto vermelho, manchado. Quem socorreu foi o professor de português, que a pegou no colo e levou até a coordenação, onde também fez coro a quem tentava acalmá-la.
Ligaram para casa. Alguém devia vir buscá-la. Não se assiste aula de pé torcido. Passado o susto, não a dorzinha incômoda, aguardou pelo pai que não demorou a chegar.
Saíram pela rua. Uniforme, rosto ainda manchado, um pé calçado e outro descalço. Meia branca enrolada dentro do tênis preto que ía sendo balançado pela mãozinha de 11 anos. A outra segurava a mão paterna. Seguiu mancando até alcançar a calçada gelada da praça.
Uma ideia iluminou a tarde nublada. “Flocos?”. Era o preto no branco preferido daqueles 11 anos. Só porque era da praça.
Sentou-se então, num banquinho de madeira próximo. Verniz gasto. Pé descalço no parelelepídedo gelado. Sorvete na mão, lembrou que era feliz.
Aquela era a praça de sonho. Pelo menos ao escolherem o nome, haviam acertado. A placa azul indicava: Praça da Alegria.

*Crônica escrita para o amigo colorado Eduardo Trindade como prêmio pelo palpite certo no bolão do jogo Brasil 3 x 0 Chile. Bolão literário...
**Trecho da canção “As moças” de Zé Renato e Juca Filho.

2 comentários:

Í.ta** disse...

mó legal esse bolão! vem como resultado um texto bom assim, uma lembrança.

ótimo!
beijo.

Eduardo Trindade disse...

Belo texto, belíssima lembrança. Espero que tenhas tido tanto prazer escrevendo a crônica quanto eu tive ao lê-la. Quem diria que um pequeno desafio futebolístico se tornaria uma semente literária?
Abraços!