sexta-feira, 9 de julho de 2010

INTERCOM EM FOCO - Mesa-redonda

Mesas-redondas discutem cidadania, desenvolvimento regional e educomunicação voltada para a juventude

O regional nordeste da Intercom 2010 realizou nas manhãs dos dias 11 e 12 de junho, cinco mesas-redondas e quatro painéis com temas concernentes a comunicação e juventude. Ensaios em Foco acompanhou duas mesas-redondas sobre educomunicação e educação tutorial e ainda um painel sobre televisão regional e a Jornada Beltraniana sobre os estudos de Luiz Beltrão na Paraíba. Confira como foi a discussão em uma das mesas do dia 11:
“Comunicação e juventude: questões para a cidadania e o desenvolvimento regional”

Na manhã do dia 11 de junho, a mesa-redonda “Comunicação e Juventude: questões para a cidadania e o desenvolvimento regional” foi formada pelos professores Alexandre Almeida (UECE), Juciano Lacerda (UFRN), Maria Salett Tauk Santos (UFRPE) e Luiz Custódio da Silva (UEPB). E discutiu como reconhecer trabalhos de protagonismo juvenil partindo dos conceitos de desenvolvimento e cidadania passando por ações do terceiro setor, do governo e das pesquisas realizadas pelas universidades.

Alexandre Almeida problematizou os conceitos de cidadania e desenvolvimento, lembrando que “desenvolvimento inclui realidades distintas e às vezes excludentes e remete a relações desiguais de poder”. Para o pesquisador da Universidade Estadual do Ceará, a cultura nesse contexto também deve ser lida como comunicação e para trabalhar com juventude é necessário e imprescindível questionar os conceitos, reconstruindo-os.

O professor falou ainda da cidadania como participação política que pode decorrer tanto em construção coletiva como individualista, que é onde entra a situação de protagonismo, com o civismo voluntário.

Ainda dentro da problematização do protagonismo juvenil, Alexandre Almeida falou do jovem como ator social, citando os trabalhos de Regina Magalhães de Sousa e expôs o paradoxo existente na ação aparentemente isolada desse jovem protagonista, que acontece quando ele deixa de trabalhar como sujeito da ação para se tornar objeto. “É um simulacro. Há uma simulação do jovem na participação política”. Tudo isso para concluir que existem casos em que a intervenção social que deveria ser provocada pelo protagonismo juvenil fica pela metade, pois um fato recorrente em todo o Brasil, segundo Almeida é que muitas ações voltadas a esses jovens tem como finalidade dar subsídios para que uma vez capitalizada, a juventude se desenvolva para entrar na sociedade de consumo.

Quando a fala é passada a Juciano Lacerda da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a mesa se volta à análise feita em campo em torno da juventude e a inclusão digital proporcionada pelos Telecentros Paranavegar de Curitiba, projeto de iniciativa pública que através de acessos públicos e gratuitos visam a inclusão digital da população do Paraná.

No que diz respeito a juventude que teve acesso ao programa, Juciano analisa as relações de experiência digital e cultura midiática, considerando a ambiência nos telecentros -predominantemente conversacional, o perfil dos frequentadores - entre 10 e 20 anos, sendo 80% de estudantes do ensino médio - e as relações com a possibilidade de protagonismo, que segundo a pesquisa está mais próximo da inclusão social, como quando um jovem utiliza o telecentro para submeter um currículo por e-mail, por exemplo.
Um fator relevante na análise de Lacerda trata da forma como os jovens usuários dos telecentros burlam a proposta oficial do espaço e recriam o ambiente de acordo com o uso que lhes convém. O pesquisador aponta esse fato não como crime, mas como ponto em que é preciso rever a elaboração de projetos voltados para a juventude. Segundo a observação de Lacerda, inicialmente, nos telecentros, as ferramentas comunicacionais são bloqueadas, mas logo os usuários encontram meios de burlar o sistema e ter acesso. Para os jovens entrevistados, redes como orkut, msn, e-mails e ambientes de jogos tem suas utilidades. O e-mail é usado para arquivamento de dados, pois muitos não tem pen drive. Já os jogos são ambientes de interação que não chegam a atrapalhar o espaço de convivência real. “Há uma racionalidade no uso das ferramentas. Eles conseguem articular com outras vivências do bairro”, observa Juciano Lacerda que cita o exemplo da menina paranaense que mora com uma tia e mantém contato com os pais, divorciados e residentes em outros estados, através do orkut, onde a menina posta fotos e visita a página dos pais no site de relacionamentos.

Além disso, o pesquisador aponta um processo de construção de significados, quando observa que os jovens usuários acessam jogos e vídeos sem áudio e criam seus próprios sons com a boca. “Criam estratégias para quebrar proibições, recriam significados”, explica.

Após toda essa análise do ambiente dos telecentros, Juciano Lacerda conclui que a política direcionada para a juventude não se adequa ao uso que os jovens realmente anseiam e precisam. “A política produzida pra eles é contraditória, por isso havia uma apropriação do telecentro tanto virtual quanto física para burlar as regras. Era uma ocupação estratégica”, explica Lacerda, acrescentando ainda que a juventude observada não fazia nada de errado e que as políticas públicas é que precisam ser revistas em sua elaboração para se aproximar da realidade de seu público-alvo evitando assim, que a adequação do público ao serviço ocorra por meio de uma quebra de regras.

Ainda dentro do contexto de políticas de inclusão digital, Maria Sallet Tauk Santos, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, relata a experiência do projeto “Juventude Rural e a cibercultura: a inclusão digital ainda é um sonho” quando traça a análise realista dos programas de inclusão e o pouco resultado obtido pelos investimentos em tecnologia. Para a professora, o problema é estrutural e vem desde o conhecimento prévio das senhas infotécnicas. Com argumentação baseada em autores como Trivinho e Barbero, Sallet analisa capacidade econômica e cognitiva do público para receber os programas de inclusão e se desenvolver com o auxílio deles.

Nesse sentido mostra o estudo realizado dentro do Programa IPA Conectado, que é um projeto de inclusão digital realizado pelo Instituto Agronômico de Pernambuco. Sallet comenta o perfil da juventude observada durante o projeto e destaca a necessidade de um acompanhamento em projetos de inclusão digital além das práticas educomunicativas.

Prof.ª Maria Sallet Tauk Santos apresenta a pesquisa realizada com os jovens do programa IPA Conectado

Após a exposição de cada pesquisador na mesa, a discussão se volta a questão do protagonismo. Alexandre Almeida comenta que as ações do terceiro setor não podem ser classificadas de uma única forma, afinal trata-se de um campo de ação muito amplo e diferenciado. Assim, lembra que protagonismo propõe uma ação individualizada, contraponto da construção coletiva em prol de uma sociedade mais justa e igualitária. Afinal, ser protagonista pressupõe ter ações próprias, regendo assim as próprias atitudes, ainda que considerando o ambiente em que vive.

Juciano Lacerda já comenta a existência de táticas que ressignificam a ideia de protagonismo e considera o espaço do congresso Intercom como um lugar de debate para a elaboração simbólica de novos conceitos e estratégias. Lacerda chama a atenção, pegando gancho da pesquisa, e da observação gerada pela exposição dos estudos de Maria Sallet junto ao IPA Conectado, que as políticas de inclusão digital são desenvolvidas sem consideração prévia da experiência/vivência do usuário a quem são destinadas.

Assim, a professora Sallet comenta que não só reação e produção de sentidos devem ser levados em conta na elaboração de políticas, mas também e principalmente a construção de conteúdos. E finaliza com um olhar esperançoso dos estudos, considerando o termo “ciber”, dentro das possibilidades oferecidas e as que podem ser desenvolvidas com políticas públicas condizentes com a realidade, como um “maravilhoso mundo novo”.

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