O regional nordeste da Intercom 2010 realizou nas manhãs dos dias 11 e 12 de junho, cinco mesas-redondas e quatro painéis com temas concernentes a comunicação e juventude. Ensaios em Foco acompanhou duas mesas-redondas sobre educomunicação e educação tutorial e ainda um painel sobre televisão regional e a Jornada Beltraniana sobre os estudos de Luiz Beltrão na Paraíba. Confira como foi a discussão em uma das mesas do dia 11:
Alexandre Almeida problematizou os conceitos de cidadania e desenvolvimento, lembrando que “desenvolvimento inclui realidades distintas e às vezes excludentes e remete a relações desiguais de poder”. Para o pesquisador da Universidade Estadual do Ceará, a cultura nesse contexto também deve ser lida como comunicação e para trabalhar com juventude é necessário e imprescindível questionar os conceitos, reconstruindo-os.
O professor falou ainda da cidadania como participação política que pode decorrer tanto em construção coletiva como individualista, que é onde entra a situação de protagonismo, com o civismo voluntário.
Ainda dentro da problematização do protagonismo juvenil, Alexandre Almeida falou do jovem como ator social, citando os trabalhos de Regina Magalhães de Sousa e expôs o paradoxo existente na ação aparentemente isolada desse jovem protagonista, que acontece quando ele deixa de trabalhar como sujeito da ação para se tornar objeto. “É um simulacro. Há uma simulação do jovem na participação política”. Tudo isso para concluir que existem casos em que a intervenção social que deveria ser provocada pelo protagonismo juvenil fica pela metade, pois um fato recorrente em todo o Brasil, segundo Almeida é que muitas ações voltadas a esses jovens tem como finalidade dar subsídios para que uma vez capitalizada, a juventude se desenvolva para entrar na sociedade de consumo.
Quando a fala é passada a Juciano Lacerda da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a mesa se volta à análise feita em campo em torno da juventude e a inclusão digital proporcionada pelos Telecentros Paranavegar de Curitiba, projeto de iniciativa pública que através de acessos públicos e gratuitos visam a inclusão digital da população do Paraná.
No que diz respeito a juventude que teve acesso ao programa, Juciano analisa as relações de experiência digital e cultura midiática, considerando a ambiência nos telecentros -predominantemente conversacional, o perfil dos frequentadores - entre 10 e 20 anos, sendo 80% de estudantes do ensino médio - e as relações com a possibilidade de protagonismo, que segundo a pesquisa está mais próximo da inclusão social, como quando um jovem utiliza o telecentro para submeter um currículo por e-mail, por exemplo.
Além disso, o pesquisador aponta um processo de construção de significados, quando observa que os jovens usuários acessam jogos e vídeos sem áudio e criam seus próprios sons com a boca. “Criam estratégias para quebrar proibições, recriam significados”, explica.
Após toda essa análise do ambiente dos telecentros, Juciano Lacerda conclui que a política direcionada para a juventude não se adequa ao uso que os jovens realmente anseiam e precisam. “A política produzida pra eles é contraditória, por isso havia uma apropriação do telecentro tanto virtual quanto física para burlar as regras. Era uma ocupação estratégica”, explica Lacerda, acrescentando ainda que a juventude observada não fazia nada de errado e que as políticas públicas é que precisam ser revistas em sua elaboração para se aproximar da realidade de seu público-alvo evitando assim, que a adequação do público ao serviço ocorra por meio de uma quebra de regras.
Prof.ª Maria Sallet Tauk Santos apresenta a pesquisa realizada com os jovens do programa IPA Conectado
Após a exposição de cada pesquisador na mesa, a discussão se volta a questão do protagonismo. Alexandre Almeida comenta que as ações do terceiro setor não podem ser classificadas de uma única forma, afinal trata-se de um campo de ação muito amplo e diferenciado. Assim, lembra que protagonismo propõe uma ação individualizada, contraponto da construção coletiva em prol de uma sociedade mais justa e igualitária. Afinal, ser protagonista pressupõe ter ações próprias, regendo assim as próprias atitudes, ainda que considerando o ambiente em que vive.
Juciano Lacerda já comenta a existência de táticas que ressignificam a ideia de protagonismo e considera o espaço do congresso Intercom como um lugar de debate para a elaboração simbólica de novos conceitos e estratégias. Lacerda chama a atenção, pegando gancho da pesquisa, e da observação gerada pela exposição dos estudos de Maria Sallet junto ao IPA Conectado, que as políticas de inclusão digital são desenvolvidas sem consideração prévia da experiência/vivência do usuário a quem são destinadas.
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