domingo, 4 de julho de 2010

INTERCOM EM FOCO

Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação debate cultura e juventude em Campina Grande-PB
por Talita Guimarães
Mais do que um congresso que reuniu estudantes, profissionais, professores e pesquisadores em comunicação, o Intercom Nordeste 2010 foi um evento que discutiu com seriedade e conteúdo propostas, experiências e estratégias de desenvolvimento de ambientes de comunicação voltados para juventude e a promoção da cidadania dentro de comunidades do nordeste.

Solenidade de abertura do Intercom Nordeste 2010 no Centro de Convenções Raymundo Asfora em Campina Grande-PB
Com o tema “Comunicação, Cultura e Juventude”, o XII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, realizado entre os dias 10 e 12 de junho em Campina Grande-PB, promoveu através de mesas-redondas, painéis, oficinas e exposição de artigos científicos, uma ampla discussão em torno do papel da comunicação como agente de transformação social. De educomunicação a comunicação comunitária, passando por folkcomunicação e tecnologias de interação, o Intercom discutiu avidamente experiências e estudos realizados pelo nordeste e levantou questões que ainda merecem ser visitadas para que a comunicação chegue a todos da melhor forma possível.
A solenidade de abertura, realizada na noite do dia 10 de junho, prestou homenagem a um dos pesquisadores de maior referência na América Latina, o Professor Dr. José Marques de Melo. A Universidade Estadual de Campina Grande, sede da 12º edição do Intercom Nordeste, concedeu-lhe na ocasião (foto), através do vice-reitor Aldo Maciel, o título de Professor Honoris Causa.
A conferência de abertura, logo em seguida, contou com o relato da experiência de Ismar de Oliveira Soares, professor e fundador do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da Escola de Comunicação e Artes de São Paulo, ECA/USP. Com o tema “Educomunicação: pressupostos epistemológicos e áreas de atuação”, Ismar chamou a atenção para o campo de estudo que tem provocado mudanças positivas em termos de criação de ambientes de comunicação em escolas, com a aproximação da juventude da cidadania por meio de atividades de leitura crítica da mídia. Para o professor, considerado referência nacional nos estudos voltados para educom, ler criticamente a mídia é ser capaz de também comunicar com consciência e responsabilidade e nesse sentido, Ismar reafirmou o compromisso do Intercom com o ensino de comunicação em todo o Brasil.

Segundo o conferencista (foto), existe uma área na educação brasileira em que o processo ensino-aprendizagem é falho, não cumpre suas metas e é nesse ponto, quando estudantes não são levados a pensar criticamente e desconhecem questões que envolvem cidadania crescendo incapazes de auxiliar o desenvolvimento positivo da sociedade, que o governo e o sistema educacional precisam interferir. “Inserir educação para mídia nos currículos escolares é uma das ações que ajudam a mudar esse cenário” e citou o exemplo da França, em que educomunicação é disciplina nas escolas regulares.

Dentro do contexto do uso das tecnologias para melhorar o rendimento em aulas, Ismar de Oliveira Soares é taxativo “A tecnologia é muleta, apoio, ajudante no processo. O professor que deve motivar o aluno com o suporte da tecnologia”. Segundo Ismar, o abandono escolar não é motivado pela ausência de recursos tecnológicos em sala de aula. “Os investimentos nas tecnologias da comunicação ainda não estão dando resultados porque as pesquisas feitas com alunos apontam que o uso da tecnologia em sala de aula não motiva porque não traz novidade”, afirma lembrando que a tecnologia é ferramenta e não substitui o conteúdo e o domínio das aulas, que deve estar a cargo do professor em ter sensibilidade para perceber as experiências do corpo discente e a partir de então aproximá-los do contexto utilizando uma linguagem que os atraia, desperte o interesse.

Nesse sentido é preciso conhecer os alunos para convidá-los a aprender mais partindo da própria linguagem deles. É uma relação de aproximação e a comunicação possui grande potencial em aproximar. Tanto que Ismar cita como exemplo o caso bem sucedido dos trabalhos educomunicativos realizados em Nova Olinda, no Ceará, onde cerca de 80 jovens produzem material radiofônico dentro de uma casa de cultura, promovendo assim a cultura local e exercendo papel de agentes multiplicadores de arte. Já em São Paulo, a prefeitura aprovou a lei municipal que insere práticas de educomunicação nos currículos escolares.

“Quem gosta do meu desenho, gosta de mim”

Encerrando a conferência de abertura, Ismar Soares esquematizou para o público as gerações de estudiosos da educomunicação na América Latina, falando dos trabalhos de Juan Diaz Bordenave, Mário Kaplun e Paulo Freire.

Para reafirmar a necessidade do diálogo existente na sociedade atual, Soares comentou a importância de se criar condições para a conversa. Exemplificou com o trabalho da psiquiatra Nice da Silveira, que trabalhou produções artísticas com deficientes mentais e promoveu o diálogo entre estes novos artistas, suas obras e o público. O resultado desse trabalho foi o relato de um dos pacientes, que participou de oficinas de pintura, e expôs sua satisfação dizendo “Quem gosta do meu desenho, gosta de mim”.

Ensaios em Foco trará nas próximas postagens, mais um pouco do que foi debatido em mesas-redondas, oficinas e painéis do Intercom Nordeste 2010.

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